A síndrome de Tourette é um transtorno neurológico caracterizado por tiques motores e vocais que surgem ainda na infância e podem se estender pela vida adulta. Eles aparecem de forma involuntária, repetitiva e, em muitos casos, imprevisível. O tema voltou a ganhar atenção recente depois de uma polêmica no BAFTA, em que um apresentador fez um comentário considerado racista, atribuindo comportamentos inadequados a pessoas com Tourette.
Embora a condição seja conhecida há décadas, o entendimento público sobre o que é a síndrome de Tourette ainda é limitado. Muitas pessoas associam o transtorno apenas a palavrões ou xingamentos, quando, na realidade, esse tipo específico de tique vocal é raro. Situações como a do BAFTA ajudam a expor o termo, mas também podem reforçar estereótipos que não correspondem ao quadro clínico da maioria dos pacientes.
O que é, afinal, a síndrome de Tourette?
De forma geral, a síndrome de Tourette é um transtorno do neurodesenvolvimento que costuma aparecer antes dos 18 anos, muitas vezes entre os 5 e 10 anos de idade. Ela se caracteriza pela presença de tiques motores (movimentos rápidos, súbitos e repetitivos, como piscar os olhos ou mexer os ombros) e tiques vocais (sons, grunhidos, palavras ou frases). Esses tiques variam em frequência e intensidade ao longo do tempo, podendo piorar em períodos de estresse ou cansaço.
Uma característica importante é que os tiques não são planejados. Muitas pessoas com Tourette relatam uma "sensação interna" ou uma tensão crescente antes do tique, seguida de alívio após o movimento ou som. Mesmo quando conseguem segurar um tique por alguns instantes, esse controle exige esforço e costuma ser temporário. Não se trata, portanto, de um comportamento de provocação, mas de algo associado ao funcionamento do sistema nervoso.
No entanto, especialistas estimam que apenas uma minoria das pessoas com síndrome de Tourette apresenta esse tipo de tique. Na maioria dos casos, os sons produzidos são neutros, como pigarros, fungadas ou repetições de sílabas, o que reforça a importância de separar o transtorno da imagem estereotipada construída em parte pela mídia.
Como a síndrome de Tourette é diagnosticada e tratada?
O diagnóstico da síndrome de Tourette é clínico, feito geralmente por neurologistas ou psiquiatras infantis, com base na observação dos tiques e na história do paciente. Para que o quadro seja caracterizado como Tourette, é necessário que existam tiques motores e vocais, presentes por pelo menos um ano, com início antes da vida adulta e sem explicação por outra condição médica ou uso de substâncias.
Nem todos os casos exigem tratamento medicamentoso. Em muitos pacientes, os tiques são leves e não atrapalham de forma significativa as atividades do dia a dia. Quando há prejuízo social, emocional ou escolar, podem ser indicadas abordagens combinadas, como:
- Terapias comportamentais, com técnicas de reversão de hábito e treinamento de respostas concorrentes;
- Medicamentos que ajudam a reduzir a intensidade e a frequência dos tiques em quadros mais intensos;
- Apoio psicossocial, incluindo orientação à família e à escola.
É comum que a síndrome de Tourette esteja associada a outros transtornos, como TDAH (transtorno de déficit de atenção e hiperatividade) e transtorno obsessivo-compulsivo. Esses diagnósticos combinados podem influenciar o tipo de tratamento escolhido e exigem acompanhamento contínuo, ajustado à fase da vida e às mudanças no padrão de tiques.
A polêmica do BAFTA e o impacto dos estereótipos: o que aconteceu?
Durante uma cerimônia do BAFTA, um apresentador fez um comentário que ganhou repercussão internacional por ser interpretado como insulto racista e por relacionar comportamentos ofensivos à síndrome de Tourette. A fala gerou críticas de entidades ligadas a direitos humanos e de associações que representam pessoas com transtornos do neurodesenvolvimento, que apontaram a confusão entre tiques involuntários e atitudes intencionais de discriminação.
O episódio trouxe à tona dois pontos centrais: primeiro, a banalização do termo "Tourette", usado muitas vezes como piada ou justificativa para ofensas; segundo, a responsabilização de grupos específicos por comentários de teor racista. Do ponto de vista clínico, tiques vocais ligados à síndrome não são dirigidos a um alvo específico e não aparecem como estratégia deliberada de ataque. A associação direta entre Tourette e discurso de ódio tende a reforçar equívocos já existentes.
Especialistas em saúde mental e organizações de defesa de pessoas com deficiência aproveitaram o caso do BAFTA para destacar que a síndrome de Tourette não deve ser tratada como sinônimo de comportamento agressivo. A discussão levantou questões sobre representação responsável em premiações e programas de grande audiência e sobre a necessidade de maior cuidado ao tratar de condições médicas em contextos de humor ou entretenimento.
Como falar de síndrome de Tourette sem reforçar preconceitos?
Episódios como o da premiação britânica abriram espaço para debates sobre linguagem, mídia e responsabilidade. Alguns caminhos são frequentemente apontados por profissionais e entidades da área ao tratar da síndrome de Tourette em espaços públicos:
- Evitar o uso da condição como piada recorrente, principalmente associando-a a xingamentos ou ofensas;
- Diferenciar tiques involuntários de falas intencionais, lembrando que a motivação e o contexto importam ao analisar um discurso;
- Consultar fontes especializadas ao produzir roteiros, quadros humorísticos ou reportagens sobre o tema;
- Dar espaço a pessoas com Tourette para relatarem a própria experiência, ampliando a compreensão social sobre o transtorno;
- Usar termos adequados, sem reduzir o indivíduo à condição, privilegiando expressões como "pessoa com síndrome de Tourette".
Com informação clara e atualizada, a discussão pública tende a se afastar de caricaturas e se aproximar de uma visão mais precisa da síndrome de Tourette. Isso contribui para reduzir confusões como a observada na polêmica do BAFTA e favorece ambientes mais preparados para lidar com a diversidade de comportamentos humanos, inclusive aqueles marcados por tiques vocais e motores involuntários.