A infertilidade masculina afeta de 13% a 15% dos homens, chegando a 18% em alguns países. Isso significa que de um em cada seis homens enfrenta esse problema, aumento que aconteceu de forma exponencial nos últimos 50 anos.
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Um estudo liderado pelo professor doutor Jorge Hallak, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), e publicada no periódico internacional Epigenomics revela que a epigenética, conjunto de "chaves de liga e desliga" dos genes, desempenha um papel determinante na fertilidade masculina e na saúde dos filhos no futuro. O artigo está disponível no periódico internacional Epigenomics.
É como se os mecanismos epigenéticos fossem “instruções químicas” sobre como o corpo deve ler o DNA. Fatores como obesidade, consumo de álcool, cigarro e drogas e exposição à poluição podem alterar essa estrutura química dos espermatozóides, afetando a vida da criança futuramente.
Conforme o estudo, espermatozoides de homens expostos a esses fatores podem transmitir alterações que aumentam o risco de a criança desenvolver obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares, transtornos neuropsiquiátricos, câncer e problemas de fertilidade no futuro.
"A questão do celular, que ninguém fala hoje, ele tem estudos mostrando que a radiação eletromagnética é muito tóxica para o testículo. E é realmente, ela detona — é o micro-ondas no testículo o tempo todo", diz Hallak.
Para ilustrar o impacto ambiental e de estilo de vida, Jorge Hallak, cita que a taxa de infertilidade masculina em uma região remota da Amazônia é de cerca de 6%, ou seja, menos da metade ou quase um terço da taxa observada em São Paulo.
Epigenética x Genética
Ao contrário da genética clássica, os hábitos de vida do pai e a exposição a toxinas alteram a "programação" do espermatozoide sem mudar a sequência do DNA. Se esse gameta fertilizar o óvulo, essas marcas epigenéticas nocivas são transmitidas diretamente para o embrião, podendo comprometer a saúde da criança até a sua velhice.
Enquanto a genética é transmitida de pai para filho, a epigenética trata de modificações causadas pelos hábitos e ambiente do indivíduo ao longo da vida. Sendo assim, os espermatozoides de homens expostos a toxinas, estresse oxidativo e infecções, como a Covid-19, por exemplo, carregam alterações epigenéticas, como falhas no DNA.
Isso significa que, se um espermatozoide danificado fertiliza um óvulo, as alterações podem ser transmitidas ao embrião e se manifestar tardiamente no filho. Com isso, aumentam os riscos de:
- Abortos
- Doenças metabólicas como diabetes e obesidade
- Doenças cardiovasculares
- Doenças neurológicas e neuropsiquiátricas complexas como autismo, esquizofrenia e transtorno bipolar – com destaque para alterações no cromossomo 15, que fica na periferia do espermatozoide e é mais suscetível a danos por estresse oxidativo.
- Malformações congênitas, infertilidade futura, hipogonadismo precoce e aumento do risco de câncer
O professor alerta que as biópsias embrionárias convencionais não conseguem detectar essas modificações epigenéticas, pois elas não se enquadram em doenças cromossômicas clássicas, como é o caso da Síndrome de Down, que pode ser detectada com exames antes do bebê nascer.
"O pessoal faz muita biópsia de embrião para transferir embrião saudável. Esse tipo de modificação não pega nas biópsias de embrião. Porque não é uma doença, não é um [síndrome de] Down, não é uma translocação. É epigenético, é lá no DNA", explica o médico.
Banalização da reprodução assistida
O estudo também faz uma crítica à técnica de reprodução assistida, a Injeção Intracitoplasmática de Espermatozoide (ICSI), quando um óvulo é fecundado de forma artificial e o embrião é implantado no útero. Originalmente, a técnica foi desenvolvida para casos de infertilidade masculina grave, mas passou a ser usada de forma generalizada, ao invés de médicos indicarem melhorias no estilo de vida, que poderiam reverter o quadro.
"Hoje é muito comum fazer bebê de proveta sem nenhuma avaliação do homem. Não deveria ser assim, mas é", comenta Hallak.
Segundo Hallak, há clínicas que realizam tratamentos de reprodução assistida sem investigar a saúde do homem detalhadamente. O argumento de que "basta um espermatozoide" para realizar a ICSI é classificado pelo professor como uma mentira que gera consequências graves, pois o olho humano não consegue detectar danos submicroscópicos no DNA do gameta escolhido.
Além disso, os efeitos a longo prazo ainda são desconhecidos. “A pessoa mais velha nascida por ICSI no mundo tem apenas 32 anos. Os reais impactos à saúde e ao envelhecimento dessa geração só serão totalmente conhecidos quando essas pessoas envelhecerem e tentarem se reproduzir”, afirma Hallak.
Tratamento eficaz
Jorge Hallak explica que tratar o homem antes de partir para uma fertilização in vitro (FIV) não é apenas mais seguro para a mulher e para o bebê, mas também é mais barato para as famílias e sistemas de saúde.
O estudo mostra evidências de que o tratamento focado na causa da infertilidade masculina como correção de varicocele, mudanças de estilo de vida e perda de peso, é muito mais custo-efetivo e apresenta menos riscos para a saúde da mulher e das futuras gerações do que submetê-los diretamente a ciclos repetidos de FIV ou ICSI.
"Revertido é um mito. Revertido é uma palavra muito forte. Ele pode ser mitigado e melhorado quase sempre. Eu tenho dados muito interessantes da queda de radical livre, estresse oxidativo, a melhora do DNA em questão de 3 a 6 meses", comenta o médico.
"O testículo do homem infértil tem data de validade menor. Por isso que a gente advoga já a avaliação do adolescente, adulto jovem e já identificar as causas e já congelar sêmen, já tratar o cara antes de ele ficar com 40 anos e descobrir que não tem espermatozoide", completa.