Profissionais tímidos ainda enfrentam desafios nas empresas

Pessoas tímidas geralmente desejam se conectar, mas enfrentam medo intenso de julgamento

27 fev 2026 - 17h39

Psicóloga especialista em timidez e ansiedade social, Karina Orso explica por que colaboradores com dificuldade de se posicionar podem estar mais vulneráveis a assédio, sobrecarga e sofrimento emocional com as novas exigências da NR-1

Desde maio de 2025, as empresas brasileiras passaram a incluir formalmente os riscos psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), conforme as atualizações da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1). As autoridades consideram o período atual educativo e preveem o início da fiscalização com penalidades para 26 de maio de 2026.

Foto: depositphotos.com / Milkos / Revista Malu

A atualização da norma reforçou a obrigatoriedade de identificar e gerenciar todos os riscos ocupacionais. Isso inclui os fatores psicossociais presentes no ambiente de trabalho, como estresse, assédio moral, sobrecarga e exaustão mental. Na prática, a saúde mental passa a integrar formalmente o processo de gestão de riscos ocupacionais, ao lado dos demais fatores que impactam a saúde do trabalhador.

Publicidade

Avanços na lei

Para a psicóloga especialista em timidez e ansiedade social, Karina Orso, essa mudança representa um avanço importante. No entanto, ela chama atenção para um ponto muitas vezes negligenciado dentro das empresas: o sofrimento silencioso de profissionais tímidos. "A pessoa tímida geralmente é comprometida, responsável e quer fazer um bom trabalho, mas pode ter muita dificuldade de se posicionar, expressar incômodos ou impor limites. Isso aumenta a vulnerabilidade a abusos e sobrecarga", explica.

A timidez manifesta o medo de julgamento, a insegurança ao expor opiniões e a dificuldade de dizer 'não'. No ambiente corporativo, esses fatores podem levar o colaborador a aceitar demandas excessivas, evitar conversas difíceis e permanecer em silêncio diante de situações injustas. "Muitas vezes, o profissional tímido não denuncia um comportamento inadequado ou não comunica que está sobrecarregado por receio de ser mal interpretado ou visto como incompetente", afirma Karina.

Esse padrão pode gerar um ciclo prejudicial: quanto mais a pessoa evita se posicionar, mais acumula frustração, ansiedade e autocobrança. Com o tempo, isso pode contribuir para quadros de esgotamento emocional. "O sofrimento nem sempre é visível. Nem todo colaborador que está adoecendo vai apresentar queda brusca de desempenho. Alguns continuam entregando resultados, mas à custa da própria saúde mental", alerta.

Timidez não é frescura

A especialista reforça que timidez não é frescura nem falta de capacidade. Aproximadamente 50% dos brasileiros se consideram tímidos, segundo pesquisa da Universidade de São Paulo (USP). Embora seja uma característica comum, quando não trabalhada, pode limitar o crescimento profissional e a qualidade das relações no trabalho. "Muitas pessoas deixam de pedir aumento, de se candidatar a uma promoção ou de apresentar ideias importantes porque acreditam que o que têm a dizer não é relevante", destaca.

Publicidade

Com a consolidação das exigências da NR-1, o empregador passa a ter responsabilidade formal pela identificação, avaliação e controle dos riscos ocupacionais, incluindo os psicossociais, o que envolve a atuação integrada de lideranças, RH e áreas de segurança do trabalho. Para Karina, mais do que criar protocolos, é essencial desenvolver uma cultura organizacional segura. "Não basta ter um canal de denúncia se o colaborador sente que será julgado ou retaliado. É preciso construir um ambiente em que as pessoas se sintam emocionalmente seguras para falar."

É possível lidar

Do ponto de vista individual, o fortalecimento emocional também é fundamental. Superar a timidez não significa mudar quem se é, mas desenvolver habilidades sociais e confiança para se comunicar com clareza. O processo envolve compreender as raízes da insegurança, aprender a lidar com o medo do julgamento e treinar a expressão de sentimentos e opiniões. "Quando a pessoa começa a se posicionar com mais segurança, ela estabelece limites mais saudáveis e reduz significativamente o risco de adoecer no ambiente profissional", afirma.

No cenário atual, a saúde mental deixa de ser apenas uma pauta de conscientização e passa a integrar formalmente as obrigações relacionadas à segurança do trabalho. Para Karina Orso, essa transformação pode ser um marco na proteção dos trabalhadores, especialmente daqueles que sofrem em silêncio. "O fato de alguém ser quieto não significa que está bem. Muitas vezes, o silêncio é um pedido de ajuda que ainda não encontrou espaço seguro para ser ouvido", conclui.

Revista Malu
Curtiu? Fique por dentro das principais notícias através do nosso ZAP
Inscreva-se