Com o avanço da reprodução assistida, a escolha de técnicas como testes genéticos e doação de gametas exige uma decisão compartilhada entre médico e paciente. Ter autonomia não significa escolher qualquer procedimento como em um catálogo, pois cada caso demanda individualização segundo histórico clínico e limites científicos. Assim, alinhar expectativas com a ciência evita frustrações, unindo os desejos e valores de quem quer engravidar às melhores evidências e riscos reais do tratamento.
Congelar óvulos, formar e congelar embriões, utilizar gametas de doadores ou recorrer a testes genéticos são algumas das possibilidades que podem aparecer durante um tratamento de reprodução assistida.
Diante de tantas opções, é natural surgir uma dúvida. Quem decide o caminho a seguir: o paciente ou o médico?
A resposta não está em escolher um lado. O tratamento deve levar em conta os desejos de quem busca a gravidez, mas também as condições clínicas, os riscos e o que as evidências científicas mostram sobre cada alternativa.
A discussão ganhou ainda mais importância à medida que os tratamentos de fertilidade se tornaram mais variados.
A Organização Mundial da Saúde estima que cerca de uma em cada seis pessoas em idade reprodutiva enfrente infertilidade ao longo da vida.
Ter opções não significa poder escolher qualquer tratamento
Na prática, uma consulta de reprodução assistida não deveria funcionar como um catálogo de procedimentos.
Uma pessoa pode desejar determinada técnica, mas isso não significa que ela seja adequada para seu caso. Idade, histórico médico e reprodutivo, reserva ovariana, características genéticas e outros fatores podem mudar a estratégia.
É nesse ponto que entra a chamada decisão compartilhada.
Para o médico geneticista Paulo Zattar Ribeiro, a autonomia do paciente precisa caminhar junto com uma compreensão real do que a medicina consegue oferecer.
"Os testes genéticos podem trazer informações importantes, mas é preciso entender seus limites. Um resultado não permite prever tudo sobre o futuro de um embrião ou de uma criança", afirma.
O paciente participa da decisão, mas não precisa decidir sozinho
Para quem está tentando engravidar, a diferença pode parecer pequena, mas é importante.
Participar da decisão não significa chegar ao consultório sabendo qual procedimento deve ser feito. Significa entender as alternativas apresentadas pelo profissional, conhecer benefícios, riscos e limitações e discutir o que faz sentido diante dos próprios objetivos.
Autonomia não é sinônimo de escolher qualquer alternativa disponível.
Na reprodução assistida, isso ganha um peso ainda maior. O tratamento pode envolver dinheiro, tempo, medicamentos, procedimentos e uma carga emocional considerável.
Por isso, criar expectativas realistas também faz parte do cuidado.
A especialista em reprodução humana Melissa Cavagnoli chama atenção justamente para esse ponto.
"É importante aproximar as expectativas dos pacientes daquilo que a ciência realmente consegue oferecer. A fertilização in vitro amplia as possibilidades, mas também tem limites e incertezas," destaca a médica.
Um teste genético consegue prever a saúde do bebê?
Essa é uma das situações em que a tecnologia pode parecer mais poderosa do que realmente é.
Conforme os especialistas ouvidos pelo SaúdeLab, alguns testes genéticos realizados antes da implantação podem ajudar a identificar determinadas alterações genéticas ou cromossômicas. Isso não significa, porém, que um exame consiga garantir que um embrião será completamente livre de doenças ou prever tudo sobre a saúde futura da criança.
A situação é ainda mais complexa quando se fala em características e doenças influenciadas por muitos genes e também por fatores ambientais.
Por isso, o resultado de um teste precisa ser analisado dentro do contexto de cada caso.
O tratamento precisa ser igual para todo mundo?
Não. Segundo os especialistas, duas pessoas podem procurar uma clínica com a mesma dificuldade para engravidar e receber orientações diferentes.
Isso não significa necessariamente que uma delas esteja recebendo um tratamento melhor ou pior.
A individualização é parte importante da reprodução assistida.
O especialista em reprodução assistida Gustavo Teles destaca que a autonomia reprodutiva também envolve reconhecer que existem diferentes formas de construir uma família.
"Cada pessoa ou casal chega ao tratamento com uma história e um projeto de família diferentes. Por isso, a decisão precisa ser individualizada e respeitar os objetivos de quem está buscando o tratamento", afirma.
Isso pode envolver situações como preservação da fertilidade, utilização de gametas de doadores ou tratamentos voltados a diferentes condições reprodutivas.
Afinal, quem deve decidir?
A resposta está justamente no equilíbrio.
O paciente não deve ser colocado diante de uma decisão técnica que não consegue compreender. Ao mesmo tempo, participar da escolha não significa que qualquer procedimento disponível possa ou deva ser realizado apenas porque foi solicitado.
Cabe ao profissional explicar as alternativas, os riscos, os benefícios e as limitações de cada caminho. Cabe ao paciente dizer quais são seus objetivos, valores e expectativas e participar da escolha.
E cabe à ciência ajudar a estabelecer o que já é sustentado por evidências e onde ainda existem incertezas.
Na reprodução assistida, a melhor decisão não costuma ser aquela tomada isoladamente por uma das partes.
É aquela construída com informação suficiente para que o paciente entenda o que está sendo proposto e possa participar, de fato, das escolhas sobre seu tratamento.
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