Muito além da digestão: como o intestino influencia suas emoções

Nos últimos anos, pesquisas mostraram que o intestino funciona como um verdadeiro "segundo cérebro". Saiba como o órgão influencia suas emoções.

8 abr 2026 - 07h32

Por muito tempo, o intestino foi visto apenas como um órgão encarregado da digestão. Porém, nos últimos anos pesquisas mostraram que ele funciona como um verdadeiro "segundo cérebro". Afinal, ele é capaz de influenciar humor, tomada de decisões e até o risco de desenvolver transtornos mentais. Essa ideia nasce de estruturas reais: um vasto conjunto de neurônios que se distribuem ao longo do tubo digestivo e um ecossistema de microrganismos que conversam o tempo todo com o sistema nervoso central.

Dentro do abdômen, esse segundo cérebro atua como uma central de comando local. Ele monitora o que entra pela alimentação, organiza os movimentos do intestino, controla secreções e envia sinais para o cérebro no crânio, muitas vezes sem passar pela "permissão" consciente da pessoa. Assim, a sensação de "frio na barriga" em momentos de tensão ou a perda de apetite em períodos de estresse são alguns exemplos de como essa comunicação ocorre, mesmo sem que o indivíduo decida por isso.

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Há um vasto conjunto de neurônios que se distribuem ao longo do tubo digestivo e um ecossistema de microrganismos que conversam o tempo todo com o sistema nervoso central – depositphotos.com / ArtemisDiana
Há um vasto conjunto de neurônios que se distribuem ao longo do tubo digestivo e um ecossistema de microrganismos que conversam o tempo todo com o sistema nervoso central – depositphotos.com / ArtemisDiana
Foto: Giro 10

O que é o Sistema Nervoso Entérico e por que ele é chamado de segundo cérebro?

O Sistema Nervoso Entérico (SNE) é uma rede formada por centenas de milhões de neurônios distribuídos na parede do trato gastrointestinal, do esôfago ao reto. Estudos recentes apontam que essa rede tem uma quantidade de neurônios comparável à da medula espinhal, o que ajuda a explicar por que tantos pesquisadores passaram a chamar o intestino de "segundo cérebro". Afinal, esse sistema é capaz de coordenar reflexos e respostas complexas sem precisar, necessariamente, de ordens diretas do cérebro principal.

Na prática, o SNE funciona como um controlador automático da digestão. Ele regula a contração dos músculos intestinais, ajusta o fluxo sanguíneo local, coordena a liberação de enzimas e hormônios e reage imediatamente à presença de alimentos, bactérias ou toxinas. Dessa forma, esse conjunto de decisões ocorre em frações de segundo, muitas vezes de forma semi-independente do sistema nervoso central. O cérebro no crânio pode interferir, mas não precisa estar envolvido em cada etapa do processo.

Como o intestino conversa com o cérebro pelo nervo vago?

A ciência descreve a comunicação entre o intestino e o cérebro como eixo intestino-cérebro. Um dos principais "cabos" dessa ligação é o nervo vago, responsável por levar informações em mão dupla. Assim, eesquisas em neurociência mostram que uma parte significativa dos sinais que trafegam nesse nervo sai do intestino em direção ao cérebro, e não o contrário. Em outras palavras, o intestino envia mais mensagens do que recebe.

Essa conversa funciona como um sistema de rádio interno. Quando há inflamação intestinal, desequilíbrio da microbiota ou mudanças abruptas na alimentação, o intestino envia sinais que podem repercutir em áreas cerebrais envolvidas com regulação emocional, atenção e resposta ao estresse. Em modelos experimentais, alterações induzidas na flora intestinal modificaram comportamentos relacionados à ansiedade e à depressão. Portanto, reforçando a ideia de que o "clima" dentro do intestino interfere diretamente no estado mental.

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Microbiota intestinal: como as bactérias influenciam humor e ansiedade?

A microbiota intestinal é formada por trilhões de bactérias, vírus e fungos que habitam o intestino. Longe de serem apenas "passageiros", esses microrganismos participam ativamente de processos como digestão de fibras, produção de vitaminas e modulação do sistema imunológico. Estudos indicam que certas espécies de bactérias também ajudam na produção de neurotransmissores, como a serotonina, o GABA e a dopamina, substâncias fundamentais para a regulação do humor.

O trato gastrointestinal produz cerca de 90% da serotonina do corpo. Em especial, por células estimuladas pela presença de microrganismos. Embora essa serotonina intestinal não atravesse diretamente a barreira hematoencefálica em grandes quantidades, ela influencia vias nervosas e imunológicas que chegam ao cérebro. Dessa forma, pesquisas com humanos e animais apontam que um desequilíbrio da microbiota — a chamada disbiose — se associa a maior incidência de sintomas de ansiedade, alterações de sono e quadros depressivos.

Por isso, alguns especialistas passaram a usar termos como psiquiátrico nutricional e psicobióticos ao descrever intervenções que tentam modular o humor a partir do intestino. Probióticos específicos e dietas ricas em fibras são objeto de estudo como estratégias auxiliares no manejo de transtornos de ansiedade e depressão, sempre em conjunto com abordagens médicas e psicológicas tradicionais.

De que forma a alimentação influencia decisões e bem-estar emocional?

A comida que chega ao prato é, em muitos aspectos, o "combustível" do segundo cérebro. Alimentos ultraprocessados, ricos em açúcares simples, gorduras de baixa qualidade e aditivos, tendem a reduzir a diversidade da microbiota e favorecer inflamação crônica de baixo grau. Em contraste, padrões alimentares com maior consumo de frutas, verduras, legumes, grãos integrais e fontes de gorduras saudáveis associam-se a menor risco de depressão e melhor desempenho cognitivo.

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Uma imagem que aparece em estudos é a de um jardim interno. Afinal, quando a alimentação oferece fibras, polifenóis e nutrientes variados, as bactérias benéficas prosperam, produzem metabólitos que acalmam a inflamação e regulam a comunicação ao longo do eixo intestino-cérebro. Por outro lado, qando predominam alimentos pobres em nutrientes, esse jardim perde diversidade e passa a enviar sinais desorganizados para o cérebro. Ou seja, favorecendo oscilações de humor e maior sensibilidade ao estresse.

Há evidências de que o estado da microbiota também pode influenciar a própria forma como a pessoa escolhe o que comer. Certas bactérias parecem "pedir" mais do tipo de nutriente de que se beneficiam, estimulando preferências alimentares por meio da liberação de substâncias que interferem em circuitos de recompensa. Assim, a alimentação diária acaba se transformando em um ciclo. No caso, alimenta o intestino, que, por sua vez, participa das decisões sobre o que será ingerido nas próximas refeições.

Estudos indicam que certas espécies de bactérias também ajudam na produção de neurotransmissores, como a serotonina, o GABA e a dopamina, substâncias fundamentais para a regulação do humor – depositphotos.com / iLexx
Foto: Giro 10

Quais hábitos ajudam a manter o segundo cérebro em equilíbrio?

Para preservar a saúde do intestino como parte da saúde mental, diferentes áreas da ciência apontam um conjunto de medidas integradas. Portanto, em vez de soluções rápidas, o foco recai sobre rotinas sustentáveis ao longo do tempo.

Alguns hábitos considerados benéficos incluem:

  • Priorizar fibras: consumir diariamente frutas, verduras, legumes, grãos integrais e leguminosas, que servem de alimento para as bactérias benéficas.
  • Incluir alimentos fermentados: itens como iogurte com culturas vivas, kefir e vegetais fermentados podem contribuir com microrganismos interessantes à microbiota.
  • Reduzir ultraprocessados: limitar refrigerantes, salgadinhos, doces industrializados e fast food ajuda a diminuir inflamação intestinal.
  • Manter hidratação adequada: a água participa do trânsito intestinal e favorece o funcionamento regular do sistema digestivo.
  • Cuidar do sono: noites mal dormidas desregulam hormônios do apetite e podem alterar o equilíbrio da microbiota.
  • Gerenciar o estresse: práticas como atividade física, técnicas de respiração, meditação ou terapia contribuem para reduzir impactos do estresse sobre o eixo intestino-cérebro.

De maneira geral, o intestino, esse segundo cérebro silencioso, participa diariamente de decisões, emoções e estados mentais. Cuidar dele por meio da alimentação, do sono, do manejo do estresse e de acompanhamento profissional quando necessário deixou de ser apenas uma questão digestiva e passou a integrar o cuidado com a saúde cognitiva e emocional como um todo.

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