'Meu vício em compras tomou conta da minha vida, e agora sei o que causou isso'

Após anos, a autora de livros infantis Sally Gardner encontrou uma explicação para suas extravagâncias depois de ouvir um podcast.

7 mai 2026 - 06h26
Sally Gardner diz que viverá com as consequências do excesso de gastos pelo resto da vida
Sally Gardner diz que viverá com as consequências do excesso de gastos pelo resto da vida
Foto: BBC News Brasil

Quando a carreira da escritora de livros infantis Sally Gardner decolou, seus amigos presumiram que seus gastos extravagantes eram consequência do novo sucesso.

Entre os luxos estavam uma banheira de 3 mil libras (cerca de R$ 20 mil), obras do artista pop britânico Peter Blake e viagens a boutiques em Paris.

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Sally tinha pouco mais de 40 anos quando publicou seu primeiro livro, o que a levou a vender 2,5 milhões de cópias e conquistar importantes prêmios literários, como a Medalha Carnegie.

"De repente, me via em outro lugar", diz Sally, "e, pela primeira vez na minha vida, ganhando muito bem".

Sally admite que se sentia "envergonhada" com a quantidade de dinheiro que gastava, mas conta que estava presa à sensação de euforia que isso lhe proporcionava.

Comportamento compulsivo persistente

Sally mentia para os amigos sobre suas compras e negava que estivesse usando roupas novas.

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"Eu não fazia ideia do que tinha acontecido comigo. Era como se me perguntassem: 'Quem é você? O que está fazendo?'"

Em pouco tempo, Sally acumulou dívidas significativas e foi obrigada a vender sua casa no norte de Londres e se mudar para um apartamento menor.

Mesmo assim, o que ela descreve como um comportamento compulsivo persistente não parou: ela não conseguiu resistir à tentação de gastar dezenas de milhares de libras com um designer de interiores para decorar o novo apartamento.

Naquela altura, uma de suas amigas chegou a ir de loja em loja na cidade onde Sally morava, pedindo aos vendedores que não lhe vendessem nada.

Sally havia desenvolvido um vício em compras na meia-idade. Sem conseguir encontrar uma explicação para isso, ela acreditava que estava enlouquecendo.

A carreira de Sally decolou quando ela tinha 40 anos
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Ao mesmo tempo em que sua carreira literária decolava, o médico de Sally começou a prescrever agonistas de dopamina para tratar a síndrome das pernas inquietas (SPI), condição que ela sofria havia anos.

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A síndrome fazia com que ela sentisse uma necessidade incontrolável de se mover, algo que acontecia quase todas as noites.

"Era constante: eu não conseguia me sentar, não conseguia assistir televisão, não conseguia sair para jantar", conta Sally. "Eu precisava ficar em pé o tempo todo."

Recém-divorciada e com filhos pequenos, ela passou a sofrer de insônia crônica justamente no período em que também enfrentava a menopausa. Sally diz que tentou todos os tratamentos possíveis, mas nenhum funcionava: ela se deitava e passava a noite inteira acordada.

Por isso, quando seu médico receitou um medicamento que aliviou imediatamente os sintomas, sem mencionar efeitos colaterais psiquiátricos, ela se sentiu eufórica.

Somente hoje, 20 anos depois e com cerca de 500 mil libras (R$ 3,4 milhões) a menos no bolso, Sally percebe que seu comportamento compulsivo foi consequência do uso desse medicamento.

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Efeitos colaterais devastadores

A história de Sally é uma entre centenas ouvidas pela BBC no último ano e meio, descrevendo os efeitos colaterais devastadores dos medicamentos agonistas de dopamina.

Essa classe de remédios atua aumentando a atividade da dopamina e é amplamente prescrita para diferentes condições, como síndrome das pernas inquietas, Parkinson, tumores da glândula pituitária e alguns transtornos de saúde mental.

Centenas de pacientes — ou seus familiares — disseram à BBC que não relacionaram seus comportamentos impulsivos aos medicamentos até que fosse tarde demais.

Entre os relatos estão histórias de dívidas enormes, relacionamentos destruídos, envolvimento com crimes e até suicídio.

Muitas pessoas que desenvolveram compulsão por compras perderam dezenas ou centenas de milhares de dólares, tudo isso enquanto enfrentavam doenças debilitantes. Um casal chegou a ficar sem lugar para morar.

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Em uma ocasião, Sally comprou cinco vezes o mesmo par de sapatos
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

As pessoas relataram gastos aparentemente irracionais, enchendo cômodos inteiros com coisas que não precisavam nem queriam. Muitas mulheres disseram que se sentiam incapazes de parar de comprar, mas acreditam que seus comportamentos não foram levados a sério por causa do gênero.

Sally conta que comprou o mesmo par de sapatos cinco vezes e dez camas diferentes para seu Yorkshire Terrier.

"Você compra algo, recebe uma dose de dopamina e quer sentir isso repetidamente", explica.

A maioria das histórias ouvidas pela BBC envolvia impulsos sexuais compulsivos que, em alguns casos, levavam mulheres a buscar encontros sexuais casuais e homens a desenvolver vício em pornografia.

Embora Sally não tenha desenvolvido comportamentos desse tipo, ela deixou de escrever livros infantis e publicou um romance erótico para adultos sob um pseudônimo.

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Ao refletir sobre isso hoje, ela se pergunta se teria escrito esse livro caso não estivesse tomando os medicamentos.

Sally entrou em contato com a BBC depois que uma de suas filhas lhe enviou um link do podcast Impulsive, lançado em fevereiro de 2026, dizendo: "Achamos que essa é você".

Ao ouvir a série, Sally afirma que percebeu imediatamente que a medicação havia causado seu comportamento e se perguntou: "Como eu não liguei os pontos antes?"

Em entrevista ao podcast Ready to Talk, da BBC, Sally disse sentir alívio por finalmente encontrar uma explicação para o que viveu, mas também afirmou estar revoltada porque sua vida foi "sequestrada".

Ela diz que viverá com as consequências desses gastos pelo resto da vida.

Além de não ter sido alertada sobre os efeitos colaterais dos medicamentos pelo médico que os prescreveu, Sally também afirma que nunca recebeu acompanhamento para identificar possíveis sintomas desses efeitos.

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Um médico só questionou seu comportamento uma única vez, quando ela chegou a uma consulta carregando várias sacolas de compras.

A maioria das histórias ouvidas pela BBC envolvia impulsos sexuais compulsivos que, por vezes, levavam os homens a desenvolver vícios em pornografia
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Hoje já se sabe que os medicamentos agonistas de dopamina também podem piorar os sintomas da síndrome das pernas inquietas ao longo do tempo.

Alguns pacientes descrevem um ciclo em que os remédios começam funcionando, mas acabam agravando a condição com o passar dos anos.

Em alguns casos, os médicos tentam resolver o problema aumentando as doses, o que, por sua vez, intensifica os comportamentos impulsivos.

Segundo Valerie Voon, professora de neuropsiquiatria da Universidade de Cambridge, amigos e familiares dos pacientes têm mais dificuldade em perceber comportamentos de compras compulsivas.

Ela afirma que esse efeito colateral é tão comum quanto o vício em jogos de azar e impulsos sexuais compulsivos, mas esses comportamentos costumam ser identificados mais rapidamente.

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"Quando você compra pela internet, não recebe um retorno imediato", diz Voon. "É possível pedir várias coisas online sem ter plena consciência do que está fazendo."

"Não existe o mesmo estigma nem o mesmo impacto social negativo, então esse comportamento pode permanecer oculto por muito mais tempo do que outros."

Como resultado, explica Voon, amigos e familiares podem interpretar a mudança de comportamento como generosidade ou extravagância — e não como algo patológico.

Em resposta às investigações da BBC, a Agência Reguladora de Medicamentos e Produtos de Saúde do Reino Unido (MHRA, na sigla em inglês) informou que está revisando os alertas sobre os efeitos colaterais relacionados a comportamentos impulsivos associados aos agonistas de dopamina.

A MHRA afirma que nenhum medicamento é isento de riscos e destaca que esses remédios melhoraram a vida de muitos pacientes.

Os fabricantes também dizem que os alertas estão claramente descritos, que os medicamentos passaram por extensos testes clínicos e foram aprovados por órgãos reguladores em todo o mundo.

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A orientação do Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido (NHS) é que pacientes que utilizam agonistas de dopamina e tenham dúvidas sobre os efeitos colaterais procurem um médico.

Desde que ouviu o podcast no início deste ano, Sally reduziu a dose da medicação para tentar controlar o comportamento compulsivo.

Mesmo assim, ela continua tomando o remédio porque afirma que é o único tratamento que funciona para ela.

"Isso está aqui o tempo todo, e eu luto contra isso diariamente. A cada compra que faço, preciso pensar: 'Isso é compulsão? Estou fazendo tudo de novo?'"

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