O puerpério, período que se inicia logo após o parto, é frequentemente romantizado nas redes sociais, mas a realidade nua e crua muitas vezes envolve um turbilhão emocional que pode levar ao limite da saúde mental.
Recentemente, a jogadora de vôlei e ex-BBB Key Alves trouxe o tema à tona de forma corajosa e necessária. Mãe da pequena Rosamaria, nascida dezembro, Key revelou que precisou recorrer à intervenção medicamentosa para lidar com sintomas graves de ansiedade e depressão que surgiram nas primeiras semanas de vida da filha.
Em um desabafo sincero, a atleta compartilhou que o impacto da maternidade em sua rotina de dez anos como profissional do esporte foi devastador para seu equilíbrio psicológico.
O relato de Key Alves acende um alerta sobre a importância de desmistificar o "estado de graça" pós-parto e destaca a necessidade de acompanhamento médico especializado quando o choro e a angústia deixam de ser passageiros para se tornarem um risco tanto para a mãe quanto para o bebê.
1. O desabafo de Key Alves: "Comecei a endoidar real"
A transição para a maternidade costuma ser acompanhada pelo chamado Baby Blues, uma tristeza leve e passageira que atinge até 80% das mulheres. No entanto, o que Key Alves descreveu vai muito além disso.
"Estou tomando um remedinho para controlar a ansiedade neste puerpério porque comecei a endoidar real. Eu chorava todos os dias e estava ficando muito depressiva, no nível extremo", confessou a atleta em entrevista à Quem.
Ela revelou que o ponto de ruptura aconteceu quando percebeu pensamentos intrusivos e um distanciamento involuntário da recém-nascida.
A jogadora admitiu que chegou a colocar o carrinho da bebê de lado para não ter que olhar para ela, um sinal claro de que sua mente estava operando em modo de sobrevivência.
Key enfatizou que não se tratava de rejeição à filha, mas de um colapso mental provocado pela perda total da sua autonomia e da sua identidade como atleta. Para alguém acostumada com a disciplina rígida do esporte, a imprevisibilidade dos primeiros dias com um bebê em casa foi o gatilho para uma crise profunda.
2. O impacto da perda de rotina na saúde mental da atleta
Um dos pontos centrais do relato de Key Alves foi a dificuldade de adaptação à nova realidade. "Sou atleta de dez anos e não ter rotina acabou comigo", afirmou. Profissionais do esporte de alto rendimento vivem sob calendários rigorosos, horários de sono controlados e metas claras.
No puerpério, essa estrutura desaparece, sendo substituída por noites em claro e uma demanda constante que ignora qualquer planejamento.
A sensação de que a "vida tinha acabado" é um sintoma comum de transtornos de humor no pós-parto. A medicação, prescrita por seu médico há cerca de dez dias, foi o que permitiu que Key voltasse a se sentir minimamente funcional. "O remédio está controlando a minha ansiedade e eu nunca mais chorei. Me ajudou demais. Voltei ao normal", explicou.
O caso de Key ilustra como a química cerebral pode ser severamente alterada após o parto devido à queda brusca de hormônios como estrogênio e progesterona, exigindo, por vezes, suporte farmacológico.
3. Maternidade real vs. Expectativa das redes sociais
Além da saúde mental, Key Alves aproveitou o espaço para questionar a "perfeição" exibida por outras influenciadoras digitais no pós-parto. Em um tom de desabafo que gerou identificação com milhares de mães, ela criticou a pressão por estar sempre arrumada enquanto se vive o caos do puerpério.
"Olha o estado do cabelo, unha… Fico impressionada com essas blogueiras que ficam lindas toda vez. Será que a internet está enganando a gente?", questionou.
A atleta descreveu sua rotina atual longe do glamour: suja de leite, com o cabelo desalinhado e sem tempo para cuidados básicos como manicure ou sobrancelhas.
Esse choque entre a "maternidade real" e a "maternidade de Instagram" é apontado por especialistas como um dos grandes agravantes da depressão pós-parto, pois gera um sentimento de culpa e insuficiência nas mães que não conseguem atingir esse padrão inalcançável de beleza imediata após dar à luz.
4. Quando o remédio se torna necessário no puerpério?
Muitas mulheres sentem medo ou vergonha de tomar medicamentos durante a amamentação, temendo prejudicar o bebê.
No entanto, o uso de antidepressivos e ansiolíticos no puerpério é uma prática segura quando orientada por profissionais, pois existem diversas opções de medicamentos que não passam pelo leite materno ou passam em quantidades insignificantes.
O risco de manter uma mãe em estado de depressão extrema ou ansiedade generalizada é muito maior do que os riscos potenciais da medicação. Uma mãe doente tem dificuldades em estabelecer o vínculo afetivo, essencial para o desenvolvimento cognitivo e emocional do bebê.
No caso de Key Alves, a intervenção médica foi crucial para interromper o ciclo de choro e pensamentos negativos, permitindo que ela voltasse a exercer a maternidade com presença e amor.
5. Sinais de alerta: Depressão pós-parto
A depressão pós-parto e os transtornos de ansiedade grave, como os relatados por Key, apresentam sinais mais intensos:
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Choro persistente e sem motivo aparente;
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Sentimento de incapacidade ou culpa excessiva;
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Falta de interesse no bebê ou pensamentos de rejeição;
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Insônia (mesmo quando o bebê está dormindo);
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Pensamentos intrusivos de que algo ruim vai acontecer ou de que a vida "acabou".
Ao identificar esses sintomas, a orientação é buscar ajuda médica imediata, assim como fez a atleta. O tratamento pode envolver psicoterapia, ajuste de rede de apoio e, em casos como o dela, o uso de psicotrópicos para estabilizar o humor.
Acompanhe a maternidade de Key Alves:
6. O papel da rede de apoio e a volta ao normal
Key Alves mencionou que o remédio a ajudou a "voltar ao normal", mas a saúde mental materna também depende de uma rede de apoio sólida. Para uma mulher que viveu dez anos focada em sua performance física, o acolhimento de parceiros, amigos e familiares é o que permite que ela retome, aos poucos, sua identidade para além da maternidade.
O relato de Key serve como um abraço em outras mulheres que estão passando pelo mesmo e sentem que "estão endoidando". A coragem de expor o uso de medicamentos humaniza a figura da atleta e reforça que a saúde mental não é uma escolha, mas uma condição que precisa de tratamento adequado.
A maternidade real é exaustiva, suja e, por vezes, silenciosamente desesperadora, e falar sobre isso é o primeiro passo para a cura.