Google remove mais de 40 canais com falsos médicos de IA após reportagens da BBC News Brasil

Ministério da Saúde analisou perfis que prometem curas e promovem produtos sem comprovação científica. Conteúdos, revelados pela BBC News Brasil, também motivaram boletim de ocorrência e investigação policial.

1 out 2026 - 09h30
Resumo
Após notificação da AGU motivada por reportagens da BBC Brasil, o Google removeu 46 canais e 11 vídeos do YouTube que usavam inteligência artificial para criar falsos médicos. Os conteúdos promoviam tratamentos sem comprovação e clonavam a imagem de profissionais reais, acumulando milhões de visualizações e atraindo idosos à automedicação perigosa. O caso gerou inquéritos na Polícia Federal e Civil por fraude e falsidade ideológica, integrando uma força-tarefa governamental de combate a golpes.
Reportagem da BBC News Brasil mostrou que vídeos gerados por IA com médicos viralizam entre idosos no Brasil e superam 70 milhões de visualizações
Reportagem da BBC News Brasil mostrou que vídeos gerados por IA com médicos viralizam entre idosos no Brasil e superam 70 milhões de visualizações
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

O Google informou à Advocacia-Geral da União (AGU) que removeu do YouTube 46 canais e 11 vídeos com falsos médicos criados por inteligência artificial.

A retirada ocorreu após uma notificação extrajudicial enviada pelo governo no início de setembro.

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Segundo a AGU, os conteúdos divulgavam informações falsas sobre saúde, promessas de cura e tratamentos sem comprovação científica.

Em resposta encaminhada na segunda-feira (28/9), o Google disse que outros 32 canais e quatro vídeos listados na notificação já estavam indisponíveis quando a recebeu. Dois canais foram desmonetizados (ou seja, deixaram de dar dinheiro aos seus criadores por meio de anúncios na plataforma).

A medida ocorre dois meses após reportagens da BBC News Brasil revelarem uma indústria de canais que utiliza personagens fictícios — e até imagens clonadas de médicos reais — para alcançar principalmente o público idoso.

A empresa afirmou, de acordo com a AGU, que excluiu os canais por violações às regras do YouTube, fraude e roubo de identidade.

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O ministério alertou que as publicações poderiam estimular a automedicação, o uso de terapias sem eficácia comprovada e a interrupção de tratamentos reais. As informações também foram encaminhadas à Polícia Federal e ao Conselho Federal de Medicina.

Rede alcançou milhões de visualizações

O rosto e a voz são gerados por inteligência artificial; roteiros podem ser escritos por plataformas como o ChatGPT, a narração é produzida por ferramentas de voz sintética e as imagens também são criadas por IA
Foto: Reprodução/Youtube / BBC News Brasil

Em julho, uma investigação da BBC News Brasil mostrou que 29 canais em português dedicados a falsos médicos de IA acumulavam mais de 70 milhões de visualizações.

O levantamento, feito a partir de dados da organização sem fins lucrativos CTRL+Z, encontrou uma produção em escala industrial, com cerca de dez vídeos novos por dia.

A BBC analisou aproximadamente 27 mil comentários e encontrou relatos de idosos que afirmavam ter colocado em prática as orientações. Entre eles, havia pessoas que disseram ter substituído medicamentos prescritos por alimentos, plantas ou tratamentos caseiros.

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Uma mulher de 82 anos contou à reportagem que acreditava estar assistindo a um médico verdadeiro. "Não percebi que era inteligência artificial. Achei que fosse um médico de verdade, até porque o que ele falava parecia plausível", afirmou.

Após ser procurado pela BBC, o Google removeu alguns dos maiores canais presentes no levantamento, que somavam cerca de 41 milhões de visualizações. Outros permaneceram disponíveis.

Na ocasião, a empresa afirmou que todo conteúdo publicado no YouTube, inclusive aquele gerado por IA, deve seguir suas diretrizes. Segundo o Google, as regras proíbem informações incorretas sobre prevenção e tratamentos capazes de causar danos graves no mundo real.

Imagem de médico real foi clonada

Uma segunda reportagem da BBC revelou que ao menos cinco canais utilizaram, sem autorização, o rosto e a identidade do otorrinolaringologista Hélio Brasileiro. Os vídeos reproduziam artificialmente sua aparência para recomendar supostos tratamentos naturais e fazer afirmações alarmistas sobre saúde.

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Brasileiro descobriu os clones ao ver sua imagem na primeira reportagem da BBC. Depois da publicação, denunciou os vídeos ao YouTube e registrou um boletim de ocorrência na Polícia Civil de São Paulo.

O caso foi encaminhado ao 3º Distrito Policial de Sorocaba, que abriu investigação para identificar os responsáveis pelos canais. A apuração considera, entre outras possíveis infrações, falsidade ideológica, falsa identidade, falso alarme e tentativa de difamação.

Em despacho, a delegada Alessandra Silveira afirmou que a disseminação de desinformação médica por meio de simulação biométrica exigia atuação imediata da polícia e poderia gerar risco de envenenamento ou automedicação.

Além desse inquérito conduzido pela Polícia Civil, o novo relatório do Ministério da Saúde foi enviado à Polícia Federal.

A notificação ao YouTube faz parte de uma força-tarefa que reúne o Ministério da Saúde, AGU e Secretaria de Comunicação Social da Presidência.

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O governo recomenda que usuários confirmem orientações sobre prevenção, diagnóstico e tratamento em fontes oficiais e denunciem conteúdos que possam colocar a saúde de outras pessoas em risco.

Youtuber mostra canal de médico gerado por IA
Foto: Reprodução/Youtube / BBC News Brasil
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