O artigo denuncia a sobrecarga e o apagamento da mulher ao se tornar mãe, processo no qual suas vontades, saúde e identidade são constantemente anuladas em nome de um ideal fantasioso de amor incondicional. A maternidade não anula as necessidades humanas básicas de descanso, realização e amparo. Assim, combater a exaustão materna e garantir que essas mulheres continuem vivendo de forma plena e com dignidade é um dever coletivo urgente de toda a sociedade.
Mulheres mães sucumbem todos os dias.
Adoecem. Se vão. Desistem de si. Desistem de viver inteiras. Cedem ao abandono. Ao medo. Ao ideal compulsório do amor incondicional: aquele que tudo provê. Encaminha. Resolve. Administra. Enfrenta.
Um ideal fantasioso.
Por quê?
Porque mulheres mães são mulheres. Depois, mães.
Têm desejos, depois são mães. Têm vontades e planos, depois são mães. Têm discos e filmes favoritos, depois são mães. Têm urgências internas, depois são mães. Têm contas a pagar, depois são mães. Têm sonhos profissionais, depois são mães. Têm amor de sobra pelos filhos, depois são mães. Têm vidas a serem vividas, depois são mães.
Mas existe uma espécie de desaparecimento consentido quando uma mulher se torna mãe.
Aos poucos, quase tudo o que diz respeito a ela passa a ser considerado menor, adiável e negociável.
O sono pode esperar. O trabalho pode esperar. O encontro pode esperar. O banho pode esperar. O médico pode esperar. O dinheiro para ela pode esperar. A vontade pode esperar. O desejo pode esperar.
Ela, enfim, pode esperar.
Os filhos, não.
E assim vamos naturalizando uma conta impossível: uma pessoa inteira dedicada a garantir que outra pessoa viva inteira.
Chamamos isso de amor.
Muitas vezes é exaustão.
Porque amar um filho não deveria exigir de uma mulher a renúncia permanente à própria vida. Não deveria significar deixar para depois, durante anos, tudo aquilo que também a constitui. Não deveria transformar necessidades humanas elementares em luxo, culpa ou egoísmo.
Nenhuma mulher deixa de precisar porque virou mãe. Nenhuma mulher deixa de cansar porque virou mãe. Nenhuma mulher deixa de desejar, querer, sonhar, adoecer, temer, precisar de dinheiro, de companhia, de silêncio, de descanso, porque virou mãe.
E nenhuma deveria precisar chegar ao limite para que alguém perceba isso.
Mulheres mães precisam de amparo. De cuidado. De tempo. De café com bolo. De corrida no parque. De uma noite fora. De uma manhã sem hora. De trabalho. De dinheiro. De conversa. De silêncio. De companhia.
De alguém que se lembre delas sem que seja aniversário, Dia das Mães ou emergência.
Precisam de testemunho.
Alguém que conheça seus medos. Que saiba do que gostam. Que pergunte o que querem. Que se lembre de quem são.
E essa é uma construção social. Diária.
Minha. Sua. Nossa.