As pesquisas mais recentes sobre o tratamento do câncer foram apresentadas durante o congresso anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (Asco, na sigla em inglês), considerado o principal encontro mundial da especialidade. A edição deste ano ocorreu entre os dias 29 de maio e 2 de junho, em Chicago, nos Estados Unidos, reunindo cerca de 35 mil profissionais de saúde de diversos países.
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Entre eles estava o oncologista Fernando Maluf, diretor médico associado do Centro de Oncologia da Beneficência Portuguesa de São Paulo, integrante do Comitê Gestor do Centro de Oncologia do Einstein Hospital Israelita e cofundador do Instituto Vencer o Câncer. Ao jornal O Globo, o especialista afirmou que os resultados apresentados colocam esta edição entre as mais relevantes dos últimos anos.
"Foi um dos melhores eventos dos últimos congressos que participei", afirma. Segundo ele, além da chegada de novas terapias, o encontro evidenciou uma compreensão cada vez mais aprofundada sobre o comportamento dos tumores e o desenvolvimento de tratamentos personalizados.
Nova droga para câncer de pâncreas reduz risco de morte
Um dos estudos que mais chamaram a atenção de Maluf envolveu uma nova medicação para câncer de pâncreas. O tratamento atua sobre a proteína KRAS, alteração genética presente em mais de 90% dos casos da doença e considerada uma das principais responsáveis pelo crescimento tumoral.
De acordo com os resultados apresentados, a droga experimental, chamada daraxonrasib, foi comparada à quimioterapia em pacientes que já haviam apresentado falha após tratamentos anteriores. Nesse grupo, o medicamento reduziu o risco de morte em 60%, além de triplicar a taxa de resposta ao tratamento.
Outro diferencial observado foi a menor incidência de efeitos colaterais em comparação às terapias convencionais. Segundo Maluf, a expectativa é que o medicamento esteja disponível para os pacientes em um futuro próximo.
Avanços em câncer de bexiga e próstata
O congresso também trouxe resultados animadores para pacientes com câncer de bexiga. De acordo com o médico, um dos estudos mostrou que a combinação de imunoterapia com anticorpos conjugados a drogas -- medicamentos desenvolvidos para reconhecer e se ligar especificamente às células tumorais -- foi capaz de eliminar sinais da doença em até 60% dos pacientes com tumores avançados.
Os resultados foram tão expressivos que levantaram discussões sobre a necessidade da retirada cirúrgica da bexiga em alguns casos, procedimento que atualmente faz parte da rotina terapêutica para determinados pacientes.
Na área do câncer de próstata, os destaques ficaram por conta dos radiofármacos, uma classe de medicamentos administrados pela corrente sanguínea que se fixa nas células tumorais e libera radiação diretamente sobre elas. A estratégia busca destruir o câncer de forma mais direcionada, preservando os tecidos saudáveis ao redor.
Terapias celulares e medicina personalizada
Outra frente de pesquisa que apresentou resultados promissores foi a das terapias celulares, especialmente o CAR-T Cell, conforme explica o especialista ao jornal. Embora a tecnologia já seja utilizada com sucesso em doenças hematológicas, como leucemias e mieloma múltiplo, os estudos apresentados mostraram avanços importantes na aplicação da técnica contra tumores sólidos, um dos principais desafios da área nos últimos anos.
Além dos novos tratamentos, pesquisadores apresentaram dados sobre biomarcadores capazes de indicar quais terapias têm maior probabilidade de funcionar para cada paciente. Para Maluf, esse é um dos caminhos mais promissores da oncologia moderna.
"O avanço das drogas foi impressionante. Mas, para mim, o mais incrível foi o entendimento de como o tumor cresce em cada paciente e como desenvolver drogas inteligentes capazes de silenciar esse crescimento de forma individualizada", diz o oncologista.