Uma tecnologia desenvolvida no Brasil utiliza luz infravermelha para estimular o cérebro e auxiliar no tratamento de doenças neurológicas e psiquiátricas, como depressão resistente, enxaqueca crônica e Alzheimer. O equipamento funciona por meio da fotobiomodulação transcraniana, técnica aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) que vem sendo estudada há cerca de duas décadas em diferentes países.
Receba as principais notícias direto no WhatsApp! Inscreva-se no canal do Terra
Segundo o psiquiatra Dennison Monteiro, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), da Universidade de Pernambuco (UPE) e integrante do comitê científico da HeadUp, empresa responsável pelo equipamento, a técnica utiliza comprimentos específicos de ondas de luz infravermelha capazes de atravessar o couro cabeludo e o crânio até alcançar o cérebro.
"A luz infravermelha consegue penetrar nos tecidos biológicos e é absorvida pelas mitocôndrias dos neurônios. Isso desencadeia uma série de reações celulares que aumentam a produção de energia, estimulam fatores ligados à neuroplasticidade e ajudam a modular processos inflamatórios envolvidos em diversas doenças", explica.
Entre esses mecanismos estão o aumento da produção de ATP, uma molécula responsável pelo fornecimento de energia às células, a elevação dos níveis do fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF), associado à formação de novas conexões neurais, além da melhora do fluxo sanguíneo cerebral e da redução do estresse oxidativo e da inflamação.
As evidências científicas mais consolidadas, segundo Monteiro, envolvem principalmente depressão, enxaqueca crônica e comprometimento cognitivo relacionado ao Alzheimer. O grupo de pesquisa coordenado pelo psiquiatra publicou recentemente um estudo com pacientes que apresentavam depressão resistente aos tratamentos convencionais. De acordo com os resultados, 41% dos participantes responderam positivamente à fotobiomodulação, com melhora sustentada dos sintomas por pelo menos 12 semanas.
Além da depressão, pesquisas também apontam benefícios para pacientes com enxaqueca crônica, comprometimento cognitivo leve, traumatismo cranioencefálico e até transtorno do espectro autista. Há ainda estudos em andamento para doenças como Parkinson, fibromialgia e alterações cognitivas relacionadas ao HIV, embora essas aplicações ainda estejam em fase de pesquisas.
Tratamento não substitui remédios
Apesar dos resultados promissores, Monteiro ressalta que a fotobiomodulação não substitui os tratamentos com medicamentos. "Hoje entendemos a técnica como um tratamento coadjuvante. Ela pode potencializar os efeitos da terapia medicamentosa, principalmente em pacientes que não tiveram resposta completa ou apresentam muitos efeitos colaterais com os remédios", afirma.
Na prática, as sessões variam conforme a doença tratada. No caso da depressão, por exemplo, o protocolo utilizado pelo grupo é feito em 12 sessões de aproximadamente 20 minutos, realizadas três vezes por semana durante um mês.
Como funciona o capacete
Durante o procedimento, o paciente permanece sentado, utilizando o capacete, sem necessidade de anestesia ou sedação. Segundo o psiquiatra, a maioria das pessoas sente apenas um leve aquecimento no couro cabeludo.
A técnica também apresenta baixo índice de efeitos adversos. Os mais comuns são sensação de calor durante a aplicação e, raramente, dor de cabeça leve. Já as contraindicações incluem pessoas com lesões inflamatórias ativas no couro cabeludo, tumores cerebrais em atividade e gestantes. Para as grávidas, não há risco comprovado, mas trata-se de uma precaução.
Tecnologia produzida no Brasil
A tecnologia utilizada pela HeadUp foi desenvolvida e produzida no Brasil, mas há outros países onde esse capacete também é utilizado em tratamentos há mais tempo. Além de reduzir custos em relação a equipamentos importados, o especialista acredita que a fabricação nacional pode facilitar o acesso. Segundo ele, cidades de Pernambuco já começaram a incorporar a tecnologia ao Sistema Único de Saúde (SUS), e a expectativa é que novas cidades adotem o equipamento no futuro.
"O tratamento tem um bom custo-benefício, exige treinamento relativamente simples das equipes e permite atender um grande número de pacientes. A perspectiva é ampliar esse acesso tanto na rede pública quanto, futuramente, com modelos que possibilitem o uso domiciliar, sempre com acompanhamento médico", afirma.
Apesar de novos estudos serem necessários para ampliar a indicação do capacete, e consolidar os resultados dele em diferentes doenças, a fotobiomodulação transcraniana aparece como uma alternativa que pode complementar tratamentos neurológicos e trazer uma nova perspectiva aos pacientes, segundo o médico.