Câncer de colo do útero avança 14% no Brasil, indicam estimativas

País deve registrar cerca de 19,3 mil casos neste ano, segundo o Inca; vacina é aliada na prevenção da doença

27 fev 2026 - 14h22

Em plena pandemia, aos 34 anos, a apresentadora da Band Mirelle Moschella percebeu que algo estava errado após um episódio de hemorragia intensa. O sangramento fora do padrão a levou a procurar atendimento médico e realizar exames complementares. O diagnóstico foi câncer de colo do útero.

Ela mantinha acompanhamento ginecológico regular e levava um estilo de vida saudável. "Sempre fiz meu check-up ginecológico. Costumava fazer os exames uma vez por ano, mas, na época do diagnóstico, o último havia sido dois anos antes. Sempre me cuidava e praticava atividade física. Mesmo assim, aconteceu. Fiquei em choque", relembra.

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A estratégia também envolve influenciadores de diferentes áreas, como a divulgadora científica Mari Krüger, além de nomes ligados a comportamento e bem-estar. A proposta é traduzir recomendações médicas em linguagem acessível e aproximar o tema do cotidiano das famílias, incentivando a imunização e o acompanhamento clínico regular.

Para Alexandre Damasceno, diretor de Marketing e Operações de Vacinas da MSD Brasil, o desafio é transformar informação em mobilização. "Hoje, o câncer de colo do útero mata cerca de 20 mulheres por dia no Brasil. Esse cenário pode ser mudado por meio da vacinação contra o HPV, dos exames de rotina e do tratamento das lesões pré-cancerígenas. A prevenção é a principal ferramenta de combate à doença."

Segundo ele, a Casa Lilás surge com a proposta de ampliar o alcance da conscientização. "Ela é a materialização física da campanha Março Lilás. Queremos transformar conscientização em experiência, criando um espaço acolhedor, que combine informação, diálogo e mobilização social."

Proteção existe, mas cobertura é desafio

A maioria das infecções por HPV é transitória. O risco surge quando o vírus persiste e provoca alterações celulares que podem evoluir lentamente para o câncer, processo que pode levar décadas.

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Para a ginecologista Susana Cristina Aidé Viviani Fialho, presidente da Comissão Nacional Especializada em Vacinas da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), o principal desafio está na adesão à vacinação.

No Brasil, a vacina contra o HPV está disponível gratuitamente no Sistema Único de Saúde (SUS) para meninas e meninos de 9 a 14 anos. Jovens de até 19 anos que ainda não se vacinaram também podem receber a dose, assim como vítimas de violência sexual de 15 a 45 anos, pessoas vivendo com HIV, pacientes transplantados e outros grupos específicos definidos pelo Ministério da Saúde.

Na rede privada, a versão nonavalente, que amplia a proteção para nove subtipos associados ao câncer, pode ser aplicada em homens e mulheres até 45 anos.

Apesar da oferta, a cobertura vacinal permanece abaixo das metas internacionais. Pesquisa do Instituto Locomotiva mostra que seis em cada 10 mulheres desconhecem que o vírus está ligado à quase totalidade dos casos de câncer de colo do útero.

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"Temos milhares de casos todos os anos e quase 7.500 mortes estimadas em 2024. A vacina está disponível no Programa Nacional de Imunizações desde 2014 e hoje é indicada para meninas e meninos. Quando temos uma doença que pode ser prevenida, não é aceitável manter esse patamar de incidência", afirma Susana.

Em 2020, a OMS lançou uma estratégia para eliminar o câncer de colo do útero como problema de saúde pública até 2030. "É possível atingir esse objetivo, mas depende de cobertura vacinal elevada e acesso ao rastreamento", diz a ginecologista.

HPV também afeta homens

Além do colo do útero, a infecção por HPV está relacionada a tumores de pênis, vulva, vagina, canal anal e orofaringe.

"O HPV não é um problema apenas feminino. Entre os homens, ele tem impacto importante sobretudo nos casos de orofaringe, cuja incidência vem crescendo nos últimos anos. Diferentemente do tumor cervical, essas doenças não contam com rastreamento estruturado. Por isso a vacinação é fundamental", afirma Rodin de Carvalho Fernandes, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e presidente da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU).

Especialistas apontam que o aumento desses diagnósticos reflete uma mudança no perfil dos tumores de cabeça e pescoço. "Durante muito tempo, esses cânceres eram associados principalmente ao tabagismo e ao consumo de álcool", afirma Magno. "Hoje sabemos que o HPV tem papel importante, especialmente nos casos de orofaringe."

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