Durante anos, aquele barulho insistente em um dos ouvidos parecia apenas mais um incômodo da rotina. Mas, quando finalmente decidiu investigar o problema, Paige Footner saiu da consulta com uma notícia que jamais imaginou ouvir. Havia um tumor de cerca de quatro centímetros no cérebro.
A australiana, de 31 anos, moradora de Adelaide, levava uma vida intensa. Ao The Sun, ela contou que dividia o tempo entre o trabalho como paramédica e apresentações como acrobata de circo, o que a fazia viajar com frequência.
Por cerca de três anos, conviveu com um zumbido pulsátil em um dos ouvidos.
No início, acreditou que fosse consequência do estresse. Depois, mesmo percebendo que o sintoma estava cada vez mais frequente, continuou adiando uma avaliação médica.
Quando resolveu procurar um clínico-geral, não imaginava que pudesse haver algo sério. Ainda assim, o médico preferiu investigar e a encaminhou para um especialista em ouvido, nariz e garganta.
Como passava longos períodos viajando por causa do circo, a consulta demorou mais de um ano para acontecer.
Quando finalmente foi atendida, o especialista acreditava que a perda auditiva poderia ter uma causa simples, como uma infecção antiga ou pequenos traumas.
Como Paige batia a cabeça com certa frequência durante os treinos, essa hipótese fazia sentido.
Mesmo assim, ele pediu uma ressonância magnética apenas para descartar problemas mais graves.
Foi esse exame que mudou completamente sua vida.
As imagens revelaram um grande tumor cerebral com características incomuns.
Naquele momento, os médicos não conseguiam dizer se ele era benigno ou maligno. Havia até a possibilidade de se tratar de um câncer ou de um linfoma. A única forma de descobrir seria por meio de uma cirurgia.
Paige contou que, ao receber a notícia, sentiu como se o tempo tivesse parado.
Como paramédica, ela estava acostumada a acompanhar pessoas em momentos decisivos da vida e a ouvir os arrependimentos de quem enfrentava doenças graves.
Pela primeira vez, porém, era ela quem ocupava esse lugar.
Foi então que percebeu o quanto também carregava seus próprios arrependimentos.
Aos 30 anos, nunca havia vivido um relacionamento amoroso, nunca tinha namorado nem sequer dado um beijo romântico.
Também lamentou ter dedicado tanto tempo ao trabalho, deixando de viver experiências importantes com amigos e priorizando guardar dinheiro em vez de criar memórias.
Sinais que pareciam ter explicações simples
Curiosamente, os médicos acreditam que o tumor provavelmente nem era o responsável pelo zumbido.
A lesão foi considerada um achado incidental, ou seja, um problema descoberto por acaso durante a investigação de outro sintoma.
Olhando para trás, Paige percebeu que havia outros sinais que também tinham passado despercebidos.
Ela sofria com dores de cabeça frequentes, mas atribuía o problema aos plantões e ao ritmo intenso de trabalho.
Também tinha dificuldade para manter a atenção, esquecia compromissos, perdia objetos com frequência e enfrentava mudanças de humor.
Como já havia recebido o diagnóstico de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) na vida adulta, acreditava que tudo fazia parte dessa condição.
Mais tarde, o neurocirurgião explicou que o tumor estava localizado justamente no lobo frontal, região do cérebro responsável por funções como atenção, comportamento e controle das emoções.
A pressão provocada pela massa poderia estar intensificando ou até imitando esses sintomas.
Tumor cerebral: Paige Footner lamentou ter dedicado tanto tempo ao trabalho, deixando de viver experiências importantes / Crédito: Paige Footner
A cirurgia trouxe alívio, mas a recuperação foi muito mais difícil
Diante da suspeita de um tumor potencialmente agressivo, a cirurgia passou a ser urgente.
Paige precisou cancelar apresentações de circo, interromper o trabalho e enfrentar semanas de incerteza.
Depois da retirada do tumor, veio a boa notícia.
Os exames confirmaram que se tratava de um meningioma grau 1, um tipo de tumor geralmente benigno e de crescimento lento.
Ainda assim, os médicos identificaram características que aumentam o risco de ele voltar no futuro, motivo pelo qual ela seguirá sendo acompanhada regularmente.
A recuperação, porém, esteve longe de ser simples.
Poucos dias após a cirurgia, ela perdeu força, passou a cair ao tentar caminhar, teve dificuldade para comer e quase não conseguia movimentar o braço esquerdo.
Em alguns momentos, conseguia ouvir tudo ao redor, mas era incapaz de responder ou falar.
Ela contou que um dos médicos chegou a dizer que talvez nunca mais voltasse a trabalhar como paramédica nem a fazer acrobacias, algo que a abalou profundamente.
Mais tarde, a equipe descobriu que parte dessas complicações estava relacionada a crises convulsivas provocadas pelo inchaço no cérebro após a cirurgia.
Uma nova forma de enxergar a vida
Durante a recuperação, ela precisou aprender a encontrar alegria nas pequenas conquistas do dia a dia.
Ao mesmo tempo, passou a valorizar tudo o que já havia vivido.
Lembrou das apresentações realizadas em vários países, das amizades construídas ao longo da carreira e das experiências que antes pareciam comuns.
Hoje, um dos objetivos que estabeleceu para si é viver aquilo que antes deixava para depois. Ela diz que está em busca de um amor e decidiu se abrir para novas experiências.
Inspirada pelo próprio neurocirurgião, também sonha em cursar Medicina.
Para ela, a maior lição deixada por toda essa experiência é simples: o arrependimento por não viver pode ser muito mais doloroso do que o medo de tentar.
A história também serve de alerta.
Sintomas persistentes, como zumbidos constantes, dores de cabeça que mudam de padrão, alterações de comportamento ou dificuldades cognitivas, nem sempre indicam uma doença grave.
No entanto, quando persistem ou pioram, merecem avaliação médica para que qualquer problema seja identificado o quanto antes.