A raiva e resignação com chegada de cruzeiro contaminado com hantavírus em ilha da Espanha

Moradores de Tenerife temem que receber o navio MV Hondius possa representar um risco para a saúde.

9 mai 2026 - 07h56
(atualizado às 13h41)
Manifestantes em Tenerife protestam contra a chegada do navio MV Hondius
Manifestantes em Tenerife protestam contra a chegada do navio MV Hondius
Foto: Reuters / BBC News Brasil

À medida que o navio de cruzeiro MV Hondius se aproxima de Tenerife, os habitantes da ilha espanhola aguardam com uma mistura de incerteza e, em alguns casos, raiva.

O governo espanhol autorizou os passageiros da embarcação, que registrou um surto de hantavírus, a desembarcarem no porto de Granadilla neste fim de semana, após acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). O navio viaja de Cabo Verde, onde três pessoas foram evacuadas.

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Foram confirmados cinco casos de infecção, incluindo três mortes, causadas pelo surto ocorrido no navio holandês, segundo a OMS.

Na sexta-feira (08/05), alguns trabalhadores portuários de Tenerife se reuniram em frente ao prédio do parlamento das Ilhas Canárias, na cidade de Santa Cruz, para expressar preocupação de que a chegada iminente possa representar um risco à saúde deles.

Durante o protesto, os moradores da ilha usaram apitos, tocaram vuvuzelas e exibiram faixas com frases de efeito.

"Estamos descontentes com a ideia de podermos trabalhar em um porto sem medidas especiais de segurança ou informações quando um barco infectado se aproxima", disse Joana Batista, de um sindicato local de trabalhadores portuários, que participava do protesto.

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Alguns de seus colegas ameaçaram bloquear a chegada do navio de cruzeiro caso suas reivindicações não sejam atendidas.

"Se o barco vai parar aqui, que pare, mas com as medidas necessárias em vigor", disse ela. "A população local precisa ser informada sobre como isso os afetará, como os passageiros serão transportados. Precisamos, acima de tudo, de garantias."

Perto dali, observando o protesto, estava a nutricionista María de la Luz Sedeño, que concordava com grande parte do que os manifestantes exigiam e mal conseguia conter sua fúria.

"Esta é a gota d'água em tudo o que o povo das Ilhas Canárias tem que suportar", disse ela - uma aparente referência à contínua chegada de milhares de migrantes indocumentados em barcos vindos do Norte e Oeste da África.

Para alguns habitantes das Ilhas Canárias, acolher migrantes é motivo de orgulho, enquanto para outros, como Sedeño, é motivo de frustração.

Mas todos parecem concordar que a migração torna o seu território o foco de um drama internacional.

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Mais de 3.000 pessoas morreram em 2025 tentando chegar às Ilhas Canárias, muitas vezes em botes improvisados, segundo a ONG Caminando Fronteras. O papa Leão XIII tem uma visita marcada à região em junho e deve se encontrar com migrantes e organizações dedicadas a ajudá-los.

María de la Luz Sedeño citou o fato de o governo central da Espanha ter ignorado a forte oposição à chegada do navio de cruzeiro, manifestada pelo presidente da região das Ilhas Canárias, Fernando Clavijo.

"As pessoas aqui não estão sendo ouvidas."

O navio MV Hondius (na foto) não teve permissão para atracar em Cabo Verde
Foto: Reuters / BBC News Brasil

O governo central espanhol, liderado pelos socialistas, respondeu às acusações de autoritarismo e falta de transparência, fornecendo detalhes sobre a chegada do barco neste fim de semana.

Ele não atracará diretamente em Tenerife, mas ancorará em alto mar e seus passageiros serão transportados para o vasto porto industrial de Granadilla, no sudeste da ilha, bem longe das áreas residenciais.

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Logo após a chegada, eles serão repatriados ou, no caso dos 14 espanhóis a bordo, levados para Madri para serem colocados em quarentena.

As autoridades insistem que não haverá contato entre os passageiros e os moradores locais, que "estarão absolutamente e completamente protegidos", segundo Virginia Barcones, chefe da agência de proteção civil da Espanha.

Os esforços do governo conquistaram pelo menos alguns moradores da ilha.

"Agora estou um pouco mais calma porque há mais informações", diz Marialaina Retina Fernández, uma aposentada, que descreve as instalações de saúde locais como "as melhores que existem". Ela parece resignada à ideia de compartilhar brevemente sua ilha com os passageiros do barco.

"Não é o ideal que todos acabem vindo para cá", explica ela. "Mas se [as autoridades] dizem que farão todo o possível para garantir que ninguém seja infectado, vamos torcer para que seja assim."

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Mapa mostrando a rota do navio e o histórico do surto
Foto: BBC News Brasil

A chegada do MV Hondius foi acordada com o governo espanhol, mas isso não impede o partido de extrema-direita Vox de tentar capitalizar sobre o assunto, comparando a situação atual com a chegada de imigrantes sem documentos.

A OMS e o governo espanhol têm se esforçado para minimizar as comparações epidemiológicas entre a situação atual e a pandemia de covid-19.

No entanto, para muitos habitantes das Ilhas Canárias, o navio de cruzeiro, com seus passageiros multinacionais, é uma lembrança indesejada dos primeiros dias da covid: um turista alemão na ilha de La Gomera foi o primeiro caso identificado na Espanha, e sua detecção foi logo seguida pelo confinamento de cerca de 1.000 hóspedes e funcionários em um hotel em Tenerife.

Retina Fernández vê um lado positivo das ilhas se tornarem notícia devido a crises internacionais.

"Estamos acostumados a todos os tipos de problemas ao chegarmos aqui", diz ela. "Dá para ver que somos bons em lidar com essas situações."

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