A certeza de que a vida neste plano acaba é, talvez, a única verdade comum a todos nós. No entanto, a forma como escolhemos olhar para o fim da linha diz muito sobre como decidimos viver o presente.
Para o gaúcho Tiago Martins Pitthan, de 49 anos, essa reflexão ganhou um contorno profundamente tocante e singular. Ele decidiu que queria estar presente no momento de dizer adeus. Por isso, organizou uma festa para o próprio velório enquanto ainda está vivo.
O evento, planejado com muito afeto, aconteceu neste sábado (30) em Campo Grande (MS), ganhou uma programação musical vibrante com bossa-nova, samba e rock. Essa ideia fora do comum nasceu após ele acompanhar o funeral de seu pai. Naquela ocasião, ao notar a beleza da união das pessoas, ele concluiu que gostaria de vivenciar esse carinho. "Naquele momento, decidi: não vou faltar no meu."
O alívio do diagnóstico e a aceitação do destino
A jornada de Tiago Pitthan mudou de rumo de forma definitiva em março de 2024. Após meses enfrentando sintomas incômodos e realizando uma bateria de exames, veio o diagnóstico de câncer de estômago. No primeiro momento, a descoberta trouxe um sentimento inesperado.
"A descoberta do câncer foi um alívio", contou ele em entrevista ao portal de notícias g1. Afinal, dar um nome ao sofrimento traz um pouco de luz na escuridão. Inicialmente, a equipe médica tinha a expectativa de realizar uma cirurgia. Contudo, a descoberta posterior de metástases inviabilizou qualquer procedimento curativo.
Logo depois, veio a confirmação mais dura de todas: "Eu descobri que não tinha cura. Que teria de viver com aquilo; provavelmente, morrer daquilo."
A força entender a finitude da vida
Com o avanço natural da doença, o cotidiano de Tiago passou a exigir dele uma resiliência gigante. Ele começou a enfrentar uma severa perda de peso, redução da capacidade pulmonar e os incômodos efeitos colaterais da quimioterapia, como a neuropatia nas extremidades.
Ainda assim, mesmo com o corpo cansado, ele manteve suas atividades dentro do que era possível. Foi nesse cenário de superação que ele começou a desenhar a sua festa de despedida, contando com o apoio essencial de um grupo de amigos fiéis.
Paralelamente aos preparativos da celebração, o gaúcho também demonstrou uma lucidez admirável ao organizar os aspectos práticos. Ele deixou organizadas as suas senhas, a divisão de bens e orientações claras para os familiares, poupando-os de burocracias no futuro. Atualmente, ele segue firme em tratamento paliativo, com o objetivo de retardar a doença e garantir o máximo de qualidade de vida.
A música, o céu e o mistério da passagem
Nos intervalos entre as sessões médicas, ele escolhe preencher o tempo com aquilo que alimenta a sua alma. Ele tem se dedicado com paixão a aprender a tocar guitarra e a realizar as pequenas atividades cotidianas que seu corpo ainda permite.
Ao refletir sobre a beleza dessas experiências simples e sobre o que o espera no porvir, ele compartilha uma visão reconfortante: "Lá em cima não tem câncer. Só tem eu e aquele mundão".
Com o objetivo de traduzir o que sente diante do mistério da nossa existência, ele busca apoio na poesia popular. Ao falar sobre a morte, ele cita uma famosa frase do cantor Gilberto Gil: "Não tenho medo da morte, mas de morrer, sim".
Essa distinção sensível nos lembra que o fim em si é apenas uma passagem, mas o processo exige coragem. Desse modo, ao transformar a sua despedida em um hino de amor e música, ele nos deixa uma lição eterna sobre a finitude: aceitar que a vida é um sopro não significa esperar o fim na sombra. Mas sim dançar sob o sol enquanto a música ainda estiver tocando.