Oferecimento

Por que a culpa ainda é sempre da mãe?

Série "All her fault" escancara a carga mental da mulher contemporânea e reacende debate sobre parentalidade

14 jan 2026 - 20h10

Sucesso recente no streaming, a série "All her fault" tem provocado identificação imediata ao retratar a rotina de uma mãe moderna. Uma profissional ativa, emocionalmente sobrecarregada e responsabilizada por tudo o que envolve a vida dos filhos. Para a educadora Carol Campos, fundadora do Vozes da Educação, a trama toca em uma ferida coletiva da culpa. "De como as mães em 2026 estão exaustas. De como elas carregam toda a carga mental de uma família." Segundo ela, o impacto da série vai além do suspense e revela um retrato fiel da maternidade contemporânea.

Série All Her Fault reacende o debate sobre maternidade, culpa e sobrecarga feminina ao retratar a exaustão das mães na vida moderna
Série All Her Fault reacende o debate sobre maternidade, culpa e sobrecarga feminina ao retratar a exaustão das mães na vida moderna
Foto: Reprodução: Canva/soleg / Bons Fluidos

A culpa que sempre recai sobre a mãe

Ao longo dos episódios, a narrativa explicita um padrão social conhecido por muitas famílias: a mãe é quem sabe, lembra e responde por tudo. Carol destaca uma das cenas mais simbólicas da série, em que até informações básicas sobre a criança recaem sobre a figura materna: "Ela é a mãe. Ela sabe de tudo, ela lembra de tudo e ela tem culpa de tudo." Para a educadora, essa lógica atravessa também a relação família-escola, reforçando cobranças, julgamentos e uma cultura de culpa que adoece mulheres.

Publicidade

Números da sobrecarga feminina

Em dezembro de 2025, a Sempreviva Organização Feminista, em parceria com a Gênero e Número e com apoio do Ministério das Mulheres, apresentou a pesquisa "Sem Parar 2025: O trabalho e a vida das mulheres cinco anos depois do início da pandemia". Os dados revelam que os impactos da crise sanitária permanecem presentes no cotidiano das brasileiras. Hoje, 43% das mulheres são as únicas responsáveis pelo trabalho doméstico, enquanto 48% cuidam de alguém sem remuneração, majoritariamente familiares. 

Mesmo quando compartilham tarefas, as mulheres ainda assumem a maior parte, o que impacta negativamente seu acesso ao mercado de trabalho, formação, saúde, lazer e qualidade de vida. Além disso, 57% trabalham mais de 40 horas semanais e 60% relatam cansaço e dores físicas, evidenciando que a sobrecarga de trabalho e cuidado segue desproporcional e afeta diretamente a saúde, o bem-estar e a autonomia econômica das mulheres. 

Parentalidade em crise e a urgência do debate público

Em meio a esse cenário, Carol lembra que o alerta já foi dado internacionalmente. O ex-cirurgião geral dos Estados Unidos, Vivek Murthy, afirmou em 2024 que "a parentalidade estava em crise". Para a educadora, no entanto, os efeitos dessa crise são desproporcionais. "Vamos precisar falar sobre isso este ano, sem falta".

Sobre a especialista

Carol Campos é educadora, especialista em educação nas emergências, advogada e mestre em Políticas Públicas. Atuou em instituições como MIT e Teachers College (Columbia), estudou na Harvard Extension School, e liderou projetos em Sobral e em redes municipais de ensino. Atualmente, é Diretora Executiva do Vozes da Educação, Conselheira do Movimento pela Base e Consultora da UNESCO junto ao MEC e ao Banco Mundial. 

Publicidade

*Fontes: Tatiana Bertoni  e Andresa Boni

Fique por dentro das principais notícias
Ativar notificações