O marroquino Zineddine Ouria venceu neste domingo (12/07) a New Balance 42K Porto Alegre com o tempo de 2h08min49s, estabelecendo a melhor marca já registrada em uma maratona comercial realizada no Brasil. O recorde anterior pertencia ao queniano Daniel Kiprono Sang, que havia corrido 2h10min21s na 41ª Maratona Internacional de Porto Alegre, disputada em 31 de maio, pouco mais de seis semanas antes.
Apesar da chuva constante na parte inicial da prova, o nível técnico da elite masculina foi um dos grandes destaques da competição. Os cinco primeiros colocados cruzaram a linha de chegada abaixo do tempo de Sang. O também marroquino Aziz Ait Ourkia terminou em segundo, com 2h09min08s, seguido pelo queniano Thomas Kibet Maru, terceiro colocado com 2h09min16s. Os etíopes Derese Workneh (2h09min50s) e Yismaw Yitayew (2h09min58s) completaram o top 5.
Vale lembrar que a marca mais rápida já obtida em uma maratona realizada no Brasil pertence a Eliud Kipchoge, que correu 2h08min44s na conquista da medalha de ouro dos Jogos Olímpicos Rio 2016. Como a prova olímpica não é uma maratona comercial, o resultado não entra nessa comparação.
Fábio estreia nos 42 km com marca histórica de brasileiro em solo nacional
Entre os brasileiros, o grande destaque foi Fábio Jesus Correia. Em sua estreia na maratona, o baiano terminou na sexta colocação geral, com 2h10min46s, superando a marca de 2h11min19s obtida por Vanderlei Cordeiro de Lima na Maratona Internacional de São Paulo de 2002, que permaneceu por quase 24 anos como a melhor performance de um brasileiro em uma maratona disputada no país.
Antes da largada, Fábio já demonstrava confiança no trabalho realizado durante a preparação.
"É uma distância muito famosa, a mãe de todas. Já corri 19 meias maratonas e acabei de fazer minha melhor marca na distância (na meia da Maratona do Rio, em junho). Estou preparado. Sei o quanto me dediquei e treinei para isso."
O atleta também não escondeu a expectativa de dividir a largada com Eliud Kipchoge. E, depois da chegada, definiu a estreia como uma prova dividida em dois momentos. "Até os 21 estava tranquilo, mas depois é um novo jogo. É prova. Seguimos firmes no plano e conseguimos uma boa marca."
Fábio dedicou o resultado ao apoio recebido do público e da torcida baiana.
Outro brasileiro em evidência foi Wendell Jerônimo Souza, natural de Pontes e Lacerda (MT). O atleta chegou a liderar a prova em um trecho do percurso, mas acabou fechando a disputa na oitava colocação geral, com 2h11min34s, estabelecendo novo recorde pessoal. O tempo foi quase quatro minutos e meio mais rápido que sua melhor marca, os 2h15min47s registrados na vitória da Maratona Internacional de Porto Alegre de 2025.
"Hoje a prova foi em um estilo diferente. Nunca tinha corrido com uma chuva assim. Foi desafiador o tempo todo, desde o aquecimento. E o nível técnico também foi altíssimo, nível internacional", falou o atleta em entrevista pós-prova a Renan Teles, do Canal Stemma.
Wendell também ressaltou a motivação de correr ao lado de outros brasileiros de destaque. "Foi top correr ao lado do Johnatas, do Fábio e do Paulo. Isso motivou bastante o início, porque não foi fácil para ninguém."
Paulo Paula, campeão da primeira edição da NB 42K Porto Alegre, em 2024, terminou na décima colocação geral, com 2h14min26s, sendo o terceiro melhor brasileiro da prova. Aos 47 anos e com três participações olímpicas (Londres 2012, Rio 2016 e Tóquio 2020), Paulo correu parte da prova ao lado de Kipchoge.
"Correr ao lado dele foi uma estratégia. Eu sabia que ele estava ali para passar entre 2h13 e 2h15. Conheço meus limites e sabia que não teria condição de acompanhar uma mudança de ritmo, então preferi fazer a minha própria prova", falou o atleta ao final da prova também ao Canal Stemma.
Satisfeito com o desempenho, Paulo destacou a diferença entre o atleta que foi e o corredor que é hoje. "Foi 2h14, mas tenho 47 anos. Quando era mais novo, buscava 2h10, 2h11, porque tinha perna e fôlego para isso. Hoje faço do atletismo uma forma de sempre chegar e entregar o meu melhor."
O próximo objetivo do maratonista será a Maratona de Berlim, no final de setembro, onde tentará uma boa marca.
Marrocos também domina entre as mulheres
No feminino, a marroquina Kaoutar Kahhaz venceu com 2h33min01s, seguida pela etíope Sadiya Awel Shure(2h34min22s) e pela australiana Tara Melissa Palm (2h34min42s).
Marina Richwin fez sua estreia em uma maratona no Brasil e terminou na quinta colocação geral, com 2h36min58s, sendo a melhor brasileira da prova. "Foi uma prova mais dura do que eu imaginava. Pegamos bastante vento e largamos debaixo de chuva", relatou após cruzar a linha de chegada.
Ela correu mais da metade do percurso em um grupo formado por cinco quenianas e uma australiana, que integravam o pelotão das líderes até o quilômetro 30. "Fiquei observando como elas trabalhavam em equipe. Foi uma experiência única como atleta."
Porto Alegre também marcou sua primeira maratona disputada pensando em colocação, e não em tempo, como havia acontecido em suas participações internacionais. Foi justamente no quilômetro 30 que Marina percebeu a mudança de ritmo das africanas. "Achei estranho. Pensei que aquele pace estava esquisito para elas. Mas, quando chegou no 30, vi que era a estratégia de prova. Elas abriram."
A partir daí, seguiu sozinha, enfrentando vento forte e perdendo velocidade até reencontrar uma queniana nos quilômetros finais. "No quilômetro 40, vi que estava mais veloz. Não olhei para trás, passei ela e cheguei na frente." O resultado garantiu à brasileira a quinta colocação geral.
A gaúcha Marlei Willers, de 47 anos, de Morro Reuter (RS), terminou em oitavo lugar, com 2h45min46s, sendo a segunda melhor brasileira e a primeira atleta do Rio Grande do Sul entre as mulheres da elite. "Cruzar a linha de chegada sempre é um grande prazer. Representar o povo gaúcho e beliscar um pódio numa prova tão forte, só tenho a agradecer. É um trabalho que a gente vem fazendo há muitos anos."
Marlei dedicou o resultado aos pais e aos patrocinadores."A gente está vivendo um dia histórico dentro da corrida de rua. Só por fazer parte já é grandioso."
Com o resultado, ela mantém o planejamento da temporada: disputa a Maratona da Fila, em São Paulo, em agosto, e encerra o ano na Maratona de Valência, em dezembro, onde tentará superar seu recorde pessoal de 2h40min59s, conquistado na vitória da Maratona Internacional de Porto Alegre de 2023. "Vou tentar bater meu RP. Hoje foi dentro do que eu tinha programado."
Dez anos depois, Kipchoge volta ao país do primeiro ouro olímpico
A edição também marcou o retorno de Eliud Kipchoge ao Brasil dez anos após conquistar, no Rio de Janeiro, sua primeira medalha de ouro olímpica. A participação em Porto Alegre foi a segunda etapa da World Tour, projeto criado pelo próprio atleta que prevê a disputa de uma maratona em cada um dos sete continentes ao longo de dois anos.
A jornada começou em maio, com sua estreia em solo africano, na Maratona de Cape Town, e terá sequência em outubro, na Maratona de Melbourne, na Austrália. O principal objetivo é arrecadar recursos para a Fundação Eliud Kipchoge, dedicada à construção de escolas, bibliotecas e projetos de reflorestamento.
Ainda no Quênia, antes do embarque para o Brasil, o bicampeão olímpico deixou claro que o foco não era o cronômetro. "Não vou a Porto Alegre para quebrar recordes ou correr abaixo de 2 horas. Vou para valorizar as pessoas, correr ao lado delas e mostrar que a corrida faz parte das nossas vidas."
Foi exatamente essa postura que marcou sua passagem pela capital gaúcha, entre treinos, compromissos com patrocinadores e atividades com corredores. Kipchoge completou a prova em 2h18min39s, terminando na 12ª colocação, sob aplausos durante praticamente todo o percurso.
O queniano não veio sozinho. Sua esposa, Grace Sugut, também participou da prova. Foi apenas sua segunda maratona, depois da estreia em Cape Town, em maio. Em Porto Alegre, completou os 42,195 km em 4h26min26s.
Números da edição
Além do alto nível técnico da elite, a NB 42K Porto Alegre 2026 também se destacou pela expressiva participação. Na maratona, prova principal do fim de semana, 5.182 corredores completaram os 42, km, incluindo 21 participantes da categoria PCD (15 homens e seis mulheres). No total, foram 3.774 homens (72,8%) e 1.408 mulheres (27,2%).
Na meia maratona, a distância com maior número de concluintes do evento, 7.545 corredores cruzaram a linha de chegada, sendo 3.916 homens (51,9%) e 3.629 mulheres (48,1%).
Nos 10 km, 2.466 atletas completaram a prova, com predominância feminina (1.522 mulheres e 944 homens). Já nos 5 km, foram 1.394 concluintes, também com maioria de mulheres (866 contra 528 homens).
Ao todo, 16.587 corredores concluíram as quatro provas do fim de semana.
Foi a primeira edição disputada no novo percurso, com largada no Parque Farroupilha e chegada no Parque Harmonia. A maratona integra o Ranking Contra-Relógio, e os resultados passam a valer na próxima atualização da classificação.
Duas maratonas em Porto Alegre. Qual foi mais rápida?
A comparação com a Maratona Internacional de Porto Alegre, disputada seis semanas antes, também na capital gaúcha, mostra que a NB 42K teve um pelotão geral mais veloz.
No masculino, o tempo médio foi de 3h43min31s, contra 3h49min11s registrados na prova de maio, uma diferença de quase seis minutos.
Entre as mulheres, a vantagem também foi da NB 42K: média de 4h11min26s, diante de 4h14min16s na Internacional.
A distribuição entre homens e mulheres foi semelhante nas duas provas. Na de maio, dos 7.445 concluintes, 5.318 eram homens (71,4%) e 2.127 mulheres (28,6%), percentuais próximos aos registrados na NB 42K (72,8% e 27,2%, respectivamente), embora a prova de maio tenha reunido um número maior de concluintes (7.445 contra 5.182).
*Dados coletados no site Open Results.
Falhas operacionais ofuscam edição histórica da NB 42K
Se dentro das quatro linhas a NB 42K Porto Alegre entregou uma prova histórica, com recordes, elite internacional de alto nível e a presença de Eliud Kipchoge, fora delas a organização acumulou uma série de problemas operacionais que geraram muitas reclamações dos corredores e acabaram ofuscando parte do sucesso do evento.
Até a manhã de domingo, a avaliação dos participantes era bastante positiva. A Expo funcionou sem maiores intercorrências e a entrega de kits ocorreu de forma organizada. Os problemas começaram com a largada da maratona.
Diferentemente das demais distâncias, que tiveram largada e chegada no Parque Harmonia, os atletas dos 42 km largaram do Parque Farroupilha (Redenção). Com a chuva que atingiu Porto Alegre durante a madrugada, a área de concentração ficou tomada pela lama, situação bastante criticada pelos corredores.
O maior transtorno, entretanto, aconteceu após a chegada da maratona. Como os pertences dos atletas precisavam ser transportados da largada até o Parque Harmonia, corredores enfrentaram uma longa espera para receber suas bolsas. Muitos permaneceram por mais de uma hora e meia expostos ao frio, ainda molhados da prova.
Ainda no domingo, a organização divulgou um comunicado explicando o atraso na operação de transporte dos pertences e pedindo compreensão aos participantes.
Outro problema ocorreu no encontro dos percursos dos 5 km com as provas de 10 km e 21 km. Em vários momentos, corredores relataram que não havia separação entre os fluxos, fazendo com que participantes dos 5 km tivessem que desviar dos atletas das distâncias maiores, gerando riscos e dificultando a passagem de quem ainda disputava posições.
Na chegada dos 21 km também houve momentos de grande tumulto. A área de dispersão rapidamente ficou congestionada por corredores que permaneceram próximos ao pórtico para receber amigos ou produzir fotos e vídeos, enquanto atletas continuavam cruzando a linha de chegada. Segundo relatos de participantes, havia poucos staffs orientando a dispersão do público e liberando o espaço para quem concluía a prova.
A falta de pessoal em alguns pontos do percurso também esteve entre as principais reclamações. Embora a Run Sports informe ter mobilizado cerca de 3 mil profissionais para atuar no evento, corredores relataram ausência de orientação em cruzamentos e trechos considerados críticos. Diversos atletas da maratona erraram o percurso por falta de sinalização suficientemente clara ou de orientação. O episódio mais marcante envolveu justamente o vencedor da prova, Zineddine Ouria, que foi conduzido pelo batedor da motocicleta por um caminho incorreto antes de retornar ao percurso oficial. Embora o erro não tenha alterado o resultado final, custou segundos preciosos ao marroquino, que poderia ter registrado uma marca ainda melhor.
Falhas desse tipo não comprometem apenas o desempenho esportivo, mas também a segurança e a experiência dos participantes, e deverão ser um dos principais pontos de atenção para as próximas edições.
Organização reconhece falhas e anuncia mudanças para 2027
Na segunda-feira (13/07), a Run Sports divulgou um novo comunicado reconhecendo os problemas operacionais registrados durante a prova, pedindo desculpas aos corredores e anunciando mudanças para a edição de 2027. Entre elas estão a unificação da largada e da chegada da maratona no mesmo local, a realização das provas em dois dias — com os 5 km, 10 km e 21 km no sábado e os 42 km no domingo —, além do reforço no número de staffs, melhorias na sinalização do percurso e a criação de um canal exclusivo de ouvidoria. O comunicado da organização está reproduzido na íntegra a seguir.
COMUNICADO OFICIAL
Nós, da Run Sports, agradecemos os feedbacks recebidos após o encerramento da prova. Há mais de 17 anos entregamos provas para os brasileiros, onde pudemos acompanhar de perto o crescimento do mercado de corrida ano a ano. Estamos cientes dos problemas operacionais apontados pelo público nesta edição da NB 42K Porto Alegre e lamentamos muito qualquer transtorno.
Todas as ocorrências estão sendo analisadas para implementar melhorias concretas nas próximas edições.
Nos comprometemos em trazer um evento fiel aos nossos padrões e entregar uma experiência superior aos corredores. Por isso, desde já anunciamos as seguintes mudanças para a edição de 2027:
▪ Largada unificada: todas as categorias, incluindo os 42 km, largarão e chegarão no mesmo local, otimizando a logística e o atendimento ao público e aos atletas.
▪ Novo cronograma: o evento passará a ser realizado em dois dias. O primeiro contará com as provas de 5 km, 10 km e 21 km. O segundo será dedicado exclusivamente à maratona.
▪ Reforço na estrutura: haverá aumento no número de staffs e aprimoramento da sinalização dos percursos para garantir mais segurança e fluidez.
▪ Canal de ouvidoria: para manter esse diálogo aberto e acolher sugestões de forma ainda mais eficiente, foi criado um canal exclusivo de atendimento pelo e-mail 42kpoa@runsports.com.br.
Agradecemos todos os feedbacks e críticas construtivas recebidos neste momento. Sabemos o quanto esse evento era esperado e reconhecemos que este não era o desfecho que desejávamos para uma prova tão querida.
Atenciosamente,
Run Sports
Organização NB 42K Porto Alegre