A partir da releitura de Memórias Póstumas de Brás Cubas, Magno Ribeiro relembra o tempo de ginásio e dos primeiros contatos com Machado de Assis. Entre memórias escolares e reflexões amadurecidas pelo tempo, o texto mergulha nas ilusões humanas, no orgulho, na dificuldade de reconhecer os próprios erros e na profundidade do perdão. Mais do que uma homenagem à literatura machadiana, a prosa revela um olhar íntimo sobre a necessidade de abandonar certezas absolutas para aprender, finalmente, a compreender mais e julgar menos.
Houve dias recentes em que voltei a Memórias Póstumas de Brás Cubas, como quem retorna à antiga casa da adolescência apenas para perceber que já não é o mesmo garoto que atravessava aqueles corredores da escola. E enquanto lia Machado de Assis outra vez, vieram-me também as lembranças do tempo em que o ensino ainda se dividia em primário, ginasial e colegial; uma época em que a escola parecia caminhar mais devagar, e os dias tinham a calma simples das coisas que ainda não sabiam a velocidade do mundo. Era o tempo dos trabalhos em grupo feitos à mão, das cartolinas espalhadas sobre a mesa, das folhas pautadas preenchidas com capricho, e das primeiras descobertas dos grandes autores brasileiros, quando talvez acreditássemos que compreender um livro era apenas resumir suas páginas.
Mas hoje sei que Machado de Assis nunca foi um escritor de resumos.
Ele era um homem que escrevia espelhos.
E entre tantas ironias e abismos de Brás Cubas, aquele defunto autor que narra a própria vida depois da morte, expondo as vaidades humanas, os egoísmos elegantes e as ilusões que sustentam os homens, uma frase me atravessou com a força silenciosa das verdades tardias: "O pior não é o erro, é a ilusão de estar certo."
Há frases que apenas passam pelos olhos.
Outras se assentam dentro da gente como uma pedra no fundo de um rio.
Percebi, então, quantas vezes a vida não nos derrota pelos erros cometidos, mas pela arrogância invisível de não admitirmos que podemos estar equivocados. O erro, por si só, ainda respira humildade: ele permite retorno, revisão, aprendizado. A ilusão da certeza, não. Ela fecha portas por dentro. Ela endurece o espírito. Ela transforma opiniões em muralhas e faz do orgulho uma espécie de prisão elegante.
Talvez seja por isso que tanta gente envelheça sem amadurecer.
Porque mudar exige primeiro duvidar de si.
E como é difícil.
Difícil reconhecer que nossas convicções, às vezes, são apenas medos bem argumentados. Que muitos julgamentos que fazemos dos outros nascem de feridas mal cicatrizadas em nós mesmos. Que insistimos em certas razões não porque sejam verdadeiras, mas porque sustentam a imagem que criamos de quem somos.
Machado sabia disso.
Por trás de sua ironia havia uma tristeza lúcida: a de perceber que o ser humano frequentemente prefere o conforto da certeza ao desconforto da verdade.
E eu fiquei pensando quantas relações se perderam porque alguém precisava vencer uma discussão. Quantos silêncios nasceram do orgulho. Quantas oportunidades de recomeço morreram sufocadas pela frase íntima e perigosa: "eu estou certo".
E mais do que isso: quantos perdões não foram dados porque já não se acreditava na sinceridade do pedido. Como se a desconfiança tivesse endurecido tanto o coração, que até a dor do outro passasse a parecer encenação tardia.
Mas talvez exista algo ainda mais raro, e mais grandioso do que pedir perdão: oferecê-lo.
Porque pedir, às vezes, nasce do peso da culpa.
Mas oferecer perdão nasce de um lugar muito mais profundo: da capacidade de interromper a corrente silenciosa da mágoa. É quase um gesto de quem decide não continuar carregando um cadáver emocional dentro de si.
Há pessoas que passam anos esperando um pedido perfeito, palavras exatas, arrependimentos completos… e, enquanto esperam, a alma vai adoecendo devagar. O orgulho se fantasia de justiça, mas por dentro é apenas dor querendo permanecer viva.
Perdoar não é absolver o erro.
É libertar-se da necessidade de permanecer ferido.
E talvez alguns pedidos nunca sejam suficientes mesmo. Talvez certas pessoas realmente não saibam se arrepender como deveriam. Mas ainda assim, em alguns momentos da vida, oferecer perdão torna-se menos um ato para o outro e mais um ato de misericórdia consigo mesmo. Porque há pesos que continuam existindo apenas porque insistimos em segurá-los.
Talvez viver com sabedoria não seja colecionar certezas.
Talvez seja aprender a caminhar com perguntas.
E então compreendi que Memórias Póstumas de Brás Cubas me ensinou agora, muitos anos depois, algo que eu jamais poderia ter aprendido no meu tempo de ginásio. Naquela época, eu lia para responder perguntas da escola; hoje percebo que certos livros existem para fazer perguntas dentro de nós.
Por isso, desejo guardar comigo como um pequeno compromisso interior a busca por trocar a necessidade de ter razão pela coragem de compreender. Talvez eu não consiga sempre. Talvez o orgulho ainda fale alto em alguns dias, talvez certas feridas ainda me façam reagir antes de refletir. Mas quero ao menos caminhar nessa direção silenciosa de ouvir mais antes de concluir, de admitir meus enganos sem sentir que isso diminui quem sou.
Porque a verdade não humilha.
Ela lapida.
E no fim, talvez o homem cresça menos quando acerta do que quando encontra humildade suficiente para rever a si mesmo.