Oferecimento

Homem que percorre passagens subterrâneas em Chernobyl tem o trabalho 'mais perigoso do mundo'; entenda

Sob o reator 4, destruído em 1986, cientistas ainda monitoram combustível nuclear e áreas altamente contaminadas

30 abr 2026 - 08h39

Quase quatro décadas depois do acidente nuclear de Chernobyl, a usina ainda exige vigilância constante. Sob o reator 4, destruído pela explosão de 26 de abril de 1986, existe uma rede subterrânea de salas e corredores onde a radiação continua presente - e onde pesquisadores ainda precisam entrar para monitorar os riscos.

Entenda como pesquisadores entram nas passagens subterrâneas de Chernobyl para monitorar radiação e os perigos do trabalho
Entenda como pesquisadores entram nas passagens subterrâneas de Chernobyl para monitorar radiação e os perigos do trabalho
Foto: Reprodução: Canva/Vladimir Zapletin / Bons Fluidos

Um deles é Anatolii Doroshenko, pesquisador do Instituto de Problemas de Segurança das Centrais Nucleares, na Ucrânia. Pelo menos uma vez por mês, ele desce às passagens subterrâneas do reator para verificar equipamentos, instalar medidores, coletar amostras e acompanhar o estado do combustível nuclear. "É como um grande labirinto embaixo do reator", explica à BBC.

Publicidade

O que existe sob o reator de Chernobyl?

A cerca de 10 metros de profundidade, ficam áreas que sobreviveram ao desastre nuclear. O espaço, porém, está longe de ser seguro: paredes, pisos, equipamentos e até o ar carregam contaminação radioativa.

Em algumas salas, Doroshenko tem menos de quatro minutos para concluir suas tarefas e sair. Em outras, os níveis de radiação são tão altos que não é possível nem permanecer parado.

Por isso, cada movimento precisa ser calculado. Os cientistas usam mapas de contaminação, lanternas e roupas de proteção para atravessar corredores estreitos, escuros e, em alguns pontos, parcialmente bloqueados por escombros.

O combustível nuclear que ainda preocupa

Segundo a Agência Internacional de Energia Atômica, cerca de 200 toneladas de combustível nuclear permanecem no interior da unidade 4. Parte desse material se transformou em cório, uma substância criada quando o combustível derreteu em temperaturas extremas e se misturou à estrutura do reator.

Publicidade

Essa massa radioativa se espalhou pelas ruínas como lava solidificada. Uma das formações mais conhecidas é a chamada "pata de elefante", famosa por seus altos níveis de radiação.

O grande desafio é que boa parte desse combustível está em áreas inacessíveis, cobertas por concreto desde os primeiros esforços para conter a contaminação após o acidente. "Se pudéssemos retirar amostras do reator destruído, poderíamos determinar precisamente seu nível de risco nuclear", explica Doroshenko.

Segurança começa pelo controle do medo

Para entrar no local, os pesquisadores usam várias camadas de proteção, incluindo respiradores, protetores para braços e sapatos e, em regiões mais difíceis, trajes especiais de polietileno.

Na saída, o processo também é rigoroso: eles passam por áreas de controle, retiram as roupas contaminadas, tomam banho obrigatório e fazem medições para garantir que não haja partículas radioativas no corpo.

Publicidade

Mesmo acostumado ao trabalho, Doroshenko afirma que o medo não deve desaparecer. "O medo ajuda a manter o controle e seguir as orientações para garantir baixas doses de radiação", explica ele.

Para o pesquisador, o perigo está justamente em se habituar demais ao ambiente. Quando isso acontece, a atenção diminui - e qualquer objeto, como uma luva ou uma peça metálica, pode representar risco de contaminação.

O sarcófago que protege o mundo da radiação

Hoje, o reator 4 está coberto por um sarcófago e pelo Novo Confinamento Seguro, uma enorme estrutura de aço criada para isolar a radiação por cerca de 100 anos. Ainda assim, isso não elimina a necessidade de monitoramento constante.

Como o acesso direto ao núcleo destruído é impossível, os cientistas fazem medições indiretas para entender o comportamento do combustível nuclear e evitar reações inesperadas. "Se pessoas como nós deixarmos de descer ali, será iniciado um processo sem controle, o que é perigoso", afirma ele.

Publicidade

Chernobyl não deve ser esquecida

Apesar dos riscos, Doroshenko diz gostar do trabalho. Segundo ele, entrar no reator provoca uma sensação de "quase euforia", comparável à emoção de escalar o Everest. Mas o fascínio nunca pode superar a prudência. "O principal é não entrar em pânico. O pânico leva você a cometer erros". Para ele, Chernobyl não é apenas uma tragédia do passado. É uma responsabilidade permanente. Enquanto o combustível radioativo continuar ali, será preciso vigiar, medir, estudar e conter.

Fique por dentro das principais notícias
Ativar notificações