Às vésperas do Dia dos Pais, Gilberto Gil protagonizou um encontro repleto de afeto e reflexões no programa Saia Justa. Ao lado da filha Bela Gil e da neta Flor Gil, o artista conversou sobre as diferentes fases da paternidade, o legado construído ao longo da vida e a maneira como experiências marcantes, inclusive as mais dolorosas, moldam a forma de amar e enxergar o mundo.
No bate-papo com Eliana, Erika Januza, Juliette e Tati Machado, Gil revisitou sua história como pai de oito filhos, avô e bisavô. A conversa também passou pelas transformações sociais e familiares que testemunhou ao longo das décadas e pelas lembranças de filhos que partiram, como Pedro e, mais recentemente, Preta Gil.
A trajetória da cantora, inclusive, ganhou destaque durante o programa em meio às discussões sobre a série Meu Nome é Preta, disponível no Globoplay. A partir dessa lembrança, o grupo refletiu sobre como o tempo transforma a maneira de educar os filhos, estabelecer limites e demonstrar carinho. Também discutiram se cada filho conhece uma versão diferente do mesmo pai e como os netos costumam proporcionar uma vivência mais leve da vida em família.
Liberdade e disciplina caminham juntas
Ao falar sobre sua experiência como pai, Gilberto Gil explicou que sempre buscou equilibrar autonomia e responsabilidade na educação dos filhos, influência que, segundo ele, veio da geração à qual pertence.
"Esse traço (liberdade na criação dos filhos) é da minha própria geração, aquela coisa do hippie (risos), o cultivo das novas liberdades e tudo mais, isso se reflete no núcleo básico que é o de casa, da família. Então, criar os filhos sempre foi, pra mim, uma maneira de reproduzir um desejo meu de abertura, de liberdade, do lado transgressor necessário, mas também o lado disciplinar necessário, esse jogo, esse diálogo de pegar os parafusos e a chave de fenda e afrouxar", afirmou.
A dor como parte da transformação
A conversa ganhou um tom ainda mais profundo quando Bela Gil trouxe à tona a canção Se Eu Quiser Falar com Deus. A música serviu como ponto de partida para uma reflexão sobre espiritualidade, sofrimento e crescimento pessoal. Para Gilberto Gil, a dor faz parte da experiência humana e pode impulsionar mudanças importantes ao longo da vida.
"O sofrimento faz parte da vida. Existem várias religiões, os sistemas filosóficos que tentam dar conta desse sentido da dor. O sofrimento é o grande desafio para o sentido transformador que o indivíduo, que o ser humano, tem que adotar. É transmutação permanente, o sofrimento é como se fosse o combustível que vai movendo o carro e o prazer é o descortínio da janela desse carro, a paisagem que vai ficando para trás. A dor ensina", refletiu.
Flor Gil fala sobre o legado de Preta
Durante o programa, Flor Gil também compartilhou como a morte de Preta Gil transformou sua relação com a espiritualidade. A cantora contou que, apesar da saudade, sente que o vínculo com a tia permanece vivo de uma nova maneira.
"Venho de uma família que acredita muito na fé e na música, e eu acho a música um grande alicerce nesse lugar comigo. Eu acredito em muita coisa, mas acho que quando eu realmente tive essa conexão de conseguir ver além, foi quando a minha tia (Preta Gil) faleceu", disse.
Ela explicou que, desde então, passou a construir uma relação diferente com a artista. "Eu comecei a construir uma relação com ela pós-morte. A minha tia me ensinou muito a ressignificar os sentimentos e as dores. Ela sempre foi ocasionalmente presente nos momentos mais críticos da minha vida. E é forte, não é fácil de lidar, principalmente ela sendo uma pessoa que eu sempre idolatrei, que sempre foi o meu sonho, o meu objetivo de vida. Ela foi uma pessoa crucial para mim na vida, e continua sendo. Está sendo ainda mais agora do que antes, até para me conectar com o mistério, com o divino", afirmou.
Ao longo do encontro, a música também ocupou lugar de destaque. Entre lembranças, histórias de família e diferentes gerações compartilhando referências musicais, o programa mostrou como o legado artístico de Gilberto Gil continua atravessando o tempo e encontrando novas formas de se renovar dentro da própria família.