Nos últimos dias, um campeonato de "farmar aura" viralizou nas redes sociais. Jovens se reuniram para disputar quem conseguia transmitir mais presença, mais carisma e mais "aura". Para isso, alguns caminhavam lentamente, outros faziam expressões sérias, olhares distantes, poses calculadas, movimentos coreografados e gestos considerados "estilosos" ou extremamente caóticos. Em muitos vídeos, a cena parece tão exagerada que provoca riso imediato. A reação da internet foi previsível: memes, piadas, críticas e comentários dizendo que "essa geração está perdida".
Mas talvez o aspecto mais interessante desse fenômeno não esteja na brincadeira em si. Afinal, quase todo meme que se torna gigantesco acaba funcionando como um retrato do momento histórico em que vivemos. E, nesse caso, o campeonato de "farmar aura" parece revelar muito mais do que um grupo de adolescentes tentando parecer misteriosos. Ele revela uma sociedade cada vez mais preocupada em administrar a própria imagem.
A expressão "farmar aura" nasceu no universo dos videogames. Nos jogos, "farmar" significa repetir uma determinada atividade para acumular recursos e fortalecer um personagem. Quanto mais se "farma", mais poderoso aquele personagem se torna. A internet simplesmente adaptou essa lógica para a vida real. Em vez de acumular moedas, experiência ou equipamentos, a proposta passou a ser acumular algo invisível: respeito, admiração, carisma ou uma imagem de alguém naturalmente interessante. Como se a personalidade pudesse ser construída da mesma forma que se evolui um personagem em um jogo.
A ideia parece absurda, mas talvez não seja tão diferente da maneira como todos nós passamos a nos comportar. Hoje, não administramos apenas nossa vida. Administramos também a impressão que causamos. Escolhemos cuidadosamente a foto do perfil, pensamos no que publicar, apagamos aquilo que não representa mais quem gostaríamos de parecer e, muitas vezes, organizamos nossa rotina considerando como ela será percebida pelos outros. Em alguma medida, todos passamos a gerenciar uma versão pública de nós mesmos.
O curioso é que esse fenômeno ganhou força justamente em uma geração que cresceu completamente conectada. Pela primeira vez na história, milhões de adolescentes desenvolveram sua identidade diante de uma plateia permanente. Cada roupa, cada opinião, cada música, cada expressão facial e até a maneira de caminhar podem ser gravadas, avaliadas, curtidas ou ridicularizadas em poucos segundos. Aquilo que antes fazia parte de um processo íntimo de amadurecimento passou a acontecer sob observação constante.
Do ponto de vista da psicologia, existe uma explicação bastante consistente para isso. A adolescência é o período em que o cérebro está profundamente envolvido na construção da identidade. É a fase em que experimentamos estilos, grupos sociais, formas de falar, gostos, valores e diferentes maneiras de nos apresentar ao mundo. É justamente testando possibilidades que o jovem começa, aos poucos, a descobrir quais características realmente fazem sentido para ele.
Essa experimentação sempre existiu. A diferença é que, décadas atrás, ela acontecia de outra forma, como por exemplo a criação de tribos entre, vestimentas especificas para cada "estilo" e "identificação" e isso acontecia entre colegas da escola, amigos do bairro ou familiares. Hoje, cada tentativa pode alcançar milhões de pessoas. O erro deixa de ser privado. A dúvida deixa de ser silenciosa. E a necessidade de pertencimento encontra um ambiente que recompensa visibilidade, curtidas e aprovação imediata.
Talvez seja exatamente isso que o meme do "farmar aura" represente. De forma quase caricata, ele mostra pessoas tentando produzir uma impressão específica. Não basta simplesmente existir. É preciso parecer confiante, parecer profundo, parecer inabalável, parecer interessante. Aos poucos, a preocupação deixa de ser descobrir quem se é e passa a ser construir uma versão que desperte admiração.
Esse talvez seja um dos maiores desafios psicológicos da atualidade. Em vez de desenvolvermos uma identidade sólida para depois apresentá-la ao mundo, muitas vezes fazemos o caminho inverso: primeiro tentamos construir uma imagem admirável e só depois descobrimos se ela realmente nos representa. É como se a aparência da personalidade passasse a ser mais importante do que a própria personalidade.
Existe um conceito clássico da psicologia que ajuda a entender esse fenômeno: o "falso self". Em determinadas circunstâncias, aprendemos a apresentar ao mundo uma versão altamente adaptada às expectativas externas. Em pequenas doses, isso faz parte da convivência social. Todos ajustamos nosso comportamento dependendo do contexto. O problema surge quando essa versão cuidadosamente construída começa a ocupar o lugar daquilo que realmente sentimos, pensamos ou desejamos. Aos poucos, a pessoa pode receber cada vez mais reconhecimento... e, paradoxalmente, sentir que está sendo admirada por alguém que ela não é.
Entretanto, seria injusto atribuir esse comportamento apenas aos adolescentes. Talvez essa seja a parte mais desconfortável da história. Muitos adultos fazem exatamente a mesma coisa, apenas de formas mais sofisticadas. Uns precisam parecer extremamente produtivos. Outros cultivam a imagem de sucesso absoluto, felicidade permanente, equilíbrio emocional ou inteligência acima da média. Há quem transforme o próprio sofrimento em identidade e quem transforme a perfeição em obrigação. Mudam os cenários, mudam as plataformas, mas permanece a mesma lógica: administrar cuidadosamente a percepção que os outros terão de nós.
As redes sociais não inventaram essa necessidade de aceitação. Ela faz parte da condição humana. Nosso cérebro evoluiu vivendo em grupos, e ser aceito sempre foi importante para a sobrevivência. O que mudou foi a escala. Nunca tivemos acesso a uma plateia tão grande, tão imediata e tão disponível para aprovar ou rejeitar nossas escolhas. Cada curtida funciona como uma pequena recompensa. Cada comentário positivo reforça um comportamento. Aos poucos, nosso cérebro aprende que ser visto parece quase tão importante quanto ser.
Existe ainda um paradoxo interessante. Quanto mais alguém tenta transmitir autenticidade, mais difícil se torna parecer genuíno. A verdadeira presença raramente nasce de um cálculo. Ela costuma aparecer quando alguém está tão envolvido em viver seus próprios valores que deixa de organizar cada gesto pensando no impacto que causará sobre os outros. A autenticidade não pode ser ensaiada. Ela aparece justamente quando a necessidade de representar diminui.
Talvez seja por isso que o meme tenha provocado tanta identificação. Ele parece absurdo porque exagera um comportamento que, em maior ou menor grau, todos nós praticamos. O adolescente que tenta "farmar aura" talvez não seja tão diferente do adulto que vive tentando parecer bem-sucedido, espiritualmente evoluído, intelectualmente brilhante ou emocionalmente impecável. Ambos estão, de alguma maneira, tentando convencer uma plateia de quem são.
No fim, talvez a maior ironia do "farmar aura" seja justamente esta: a verdadeira presença dificilmente é construída para impressionar alguém. Ela costuma surgir quando a necessidade de impressionar deixa de comandar nossas escolhas. Pessoas que realmente transmitem segurança, autenticidade e carisma geralmente não estão preocupadas em parecer interessantes. Elas estão ocupadas vivendo de forma coerente com aquilo em que acreditam.
Talvez seja essa a principal reflexão deixada por um meme que, à primeira vista, parecia apenas mais uma brincadeira passageira. Em uma época em que passamos tanto tempo tentando construir uma imagem, vale a pena perguntar: estamos usando as redes sociais para descobrir quem somos ou estamos, cada vez mais, aprendendo apenas a interpretar um personagem? Porque existe uma diferença enorme entre ser visto e ser conhecido. E, às vezes, passamos tanto tempo tentando parecer alguém que acabamos nos afastando justamente da pessoa que estamos tentando encontrar.
Sobre a autora
Jéssica Martani é médica psiquiatra, especialista em TDAH, saúde mental e regulação emocional. Coordena a pós-graduação em TDAH do Instituto TDAH, reconhecida pelo MEC, em parceria com a Universidade Anhanguera. É colunista da Bons Fluidos (Editora Caras) e criadora do canal Brilhantemente, onde traduz temas complexos e reflexões acessíveis para quem busca equilíbrio emocional e transformação pessoal. Saiba mais em Instagram e YouTube.