Marcel Stevanin passava seus dias no shopping quando criança, onde sua mãe tinha uma loja. Sua família tinha acabado de se mudar da capital paulista para o litoral, em Santos (SP). Enquanto eles não tinham uma casa fixa, a maior parte do seu período de lazer era brincando nos fliperamas. Foi lá que ele conheceu o Pump It Up!, o jogo de dança que fez sucesso no início dos anos 2000. Cerca de 20 anos depois, ele voltou para o jogo – e com tudo. Já competiu em torneios internacionais como jogador profissional e leva o desafio a sério, com treinos diários. Mas Marcel também segue apaixonado pelo lado divertido da coisa e viralizou nas redes sociais fazendo graça dançando músicas populares. Estourou a bolha.
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De piseiro a músicas de abertura de jornal, Marcel, ou Masteva, como se apresenta na internet, confunde os olhares pela velocidade com que se movimenta no tapete de dança. A combinação entre as músicas emblemáticas para o povo brasileiro com passos que parecem humanamente impossíveis o fez bombar nas redes, com vídeos que já superam 1 milhão de curtidas.. Nos comentários de suas publicações, inclusive, é comum encontrar quem ache que ele é inteligência artificial.
Para ele, agora aos 34 anos, esse é o melhor elogio que poderia receber. “Imagina você fazer algo e ser tão bom num ponto que as pessoas não conseguem acreditar no que você está fazendo. Eu não levo isso para o lado pessoal. Não acho que seja maldade ou que estejam querendo me diminuir. Acho que só está acima do nível da compreensão delas. Isso é muito louco”, contou em entrevista ao Terra.
O que o fez focar no jogo quando adulto foi justamente a vontade de fazer o que poucas pessoas no mundo conseguem. Ele explica que existe uma música, chmada Paradoxx, do nível 28 do jogo – um dos mais altos do jogo, até então. Em dez anos, apenas cerca de 10 pessoas da comunidade do Pump It Up! conseguiram concluí-la. “Ainda tô me preparando para conseguir passar essa música também. Tenho certeza de que vou ficar alucinado quando eu conseguir”, contou.
Movido por sua teimosia, Marcel decidiu mergulhar de vez nesse universo. Para isso, precisou desembolsar uma boa grana. Embora já tivesse tido outros tapetes, investiu em uma máquina oficial completa do Pump It Up!, como as que ficavam em shoppings e espaços de jogos. Um modelo como o dele, já usado, custa em torno de R$ 20 mil – e é raro de encontrar. Caso alguém queira comprar uma nova, por exemplo, é preciso importá-la da Coreia. No fim, considerando o peso, dimensão e a estrutura para o transporte, a ‘brincadeira’ sai na faixa de R$ 45 mil.
A questão da máquina, inclusive, faz Marcel relembrar, mais uma vez, de sua teimosia. Ele mora no último andar de um prédio, e subiu a máquina junto com um amigo. Pelas escadas. De madrugada. Deu certo.
Marcel encara tudo em torno do Pump It Up! como uma grande filosofia de vida. No jogo, é você contra si mesmo, contra os limites do seu corpo. Para se aperfeiçoar, ele treina todos os dias de maneira intensa por cerca de três horas. Como o tapete está com a manutenção em dia e é de uso pessoal, os passos não fazem tanto barulho quanto as pessoas imaginam ao assistir aos vídeos.
“A máquina do shopping, na época, quando não tinham manutenção, faziam muito barulho porque você dava uma 'estatelada' no botão. Agora, com a máquina bem mantida, você só encosta. É por isso que eu consigo jogar músicas mais rápidas, porque os sensores estão todos ajustados”, conta. E, claro, não é só a máquina e a teimosia que o ajudam, mas também sua experiência com o parkour, prática da qual é professor há 20 anos e que o levou, inclusive, a atuar como dublê ao lado de famosos.
Pelo Pump It Up!, ele já chegou a competir no Mundial da 'modalidade' e também em campeonatos brasileiros. “Apesar de ser algo mais nichado, tanto por conta do tapete, é um jogo muito movido pela paixão das pessoas no mundo inteiro”, pontua. Nesse ano, ele chegou a ficar em sexto lugar no campeonato brasileiro. No último mundial, ficou em 12º lugar na categoria de músicas curtas, onde concorreu com cerca de 200 pessoas. No geral, as premiações são simbólicas e, considerando os gastos, quem compete acaba ficando mais no prejuízo. Mas, por jogar em comunidade, a experiência, segundo ele, vale a pena. O mundial deste ano será no México, e Marcel segue em busca de apoio para conseguir ir.
Para ele, todo esse movimento de trazer o Pump It Up! à tona novamente, fazendo o jogo “furar a bolha”, tem como propósito lembrar as pessoas de que é possível ter o jogo como um aliado de uma vida mais saudável, de que é possível se exercitar se divertindo. “Tá sendo muito mágico”, admite Marcel, que ainda tem muitos planos pela frente nesse sentido.