A busca por cirurgias plásticas se torna problemática quando reflete uma insatisfação constante e a tentativa de sanar inseguranças emocionais, cenário agravado por filtros e redes sociais. Segundo a cirurgiã Helena Zarur, mais do que contar procedimentos, é preciso avaliar as motivações do paciente. Diante de expectativas irreais, repetição obsessiva ou indícios de sofrimento psíquico, o dever ético do médico é recusar a operação e recomendar apoio à saúde mental para priorizar o bem-estar.
Quando a vontade de mudar a aparência deixa de ser uma escolha e passa a funcionar como uma tentativa recorrente de finalmente se sentir suficiente
Uma pequena correção no nariz. Depois, um detalhe no contorno do rosto. A boca poderia ganhar um pouco mais de volume. A cintura talvez pudesse ser mais marcada. E aquela fotografia feita de perfil revela algo que até então não incomodava. Em uma época em que a câmera do celular reflete o próprio rosto diariamente, o cuidado com a aparência pode facilmente ultrapassar a fronteira do prazer e se transformar em uma procura permanente pelo próximo defeito.
A relação entre estética e bem-estar vai além de ser contra ou a favor dos procedimentos. Cirurgias plásticas e tratamentos estéticos podem melhorar incômodos reais e contribuir para a autoestima. O sinal de alerta aparece quando mudar o corpo deixa de ser uma escolha e passa a funcionar como uma tentativa recorrente de finalmente se sentir suficiente.
"Cuidar da aparência pode ser extremamente benéfico para a autoestima e para o bem-estar. Mas o sinal de alerta aparece quando a insatisfação passa a dominar a vida da pessoa ou quando existe uma busca constante por procedimentos sem que ela consiga se sentir satisfeita com os resultados", explica a Dra. Helena Zarur, cirurgiã plástica, membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) e da American Society of Plastic Surgeons (ASPS) e consultora da DMC Group.
Mais complexo do que pareça
Essa dificuldade de alcançar satisfação também ajuda a explicar por que nenhuma quantidade exata de procedimentos determina o que é excessivo. Duas pessoas podem ter realizado o mesmo número de intervenções e apresentar relações completamente diferentes com a própria imagem. Mais importante do que contabilizar procedimentos é compreender o que está levando alguém novamente ao consultório e quais expectativas estão por trás dessa decisão.
Além da motivação, existem limites que não dependem apenas da vontade do paciente. Cirurgias modificam tecidos, envolvem recuperação, riscos e possíveis complicações. Em alguns momentos, portanto, o melhor procedimento pode ser justamente aquele que o médico decide não realizar.
"Na cirurgia plástica, mais nem sempre significa melhor. Existe também um limite anatômico e de segurança. Por isso, saber dizer 'não' faz parte da responsabilidade médica. Nem todo procedimento desejado precisa ou deve ser realizado", explica Helena Zarur.
A questão se torna ainda mais delicada quando a realização de um procedimento não encerra a insatisfação. O resultado esperado é alcançado, mas, pouco tempo depois, surge uma nova característica que passa a incomodar. Em seguida, outra. A satisfação dura pouco e a aparência volta a ocupar o centro das preocupações.
Controle as expectativas
Segundo Helena Zarur, esse comportamento exige atenção justamente porque a origem da insatisfação pode ultrapassar aquilo que uma intervenção estética consegue modificar. "Quando existe uma expectativa irreal de que um procedimento vai resolver inseguranças profundas, sentimentos depressivos ou transformar completamente a forma como a pessoa se sente, precisamos conversar com mais cuidado antes de indicar qualquer intervenção", afirma.
Nesse cenário, uma nova intervenção pode até modificar mais uma característica física, mas não necessariamente será capaz de entregar aquilo que o paciente realmente está procurando. E a forma como as pessoas se veem diariamente nas telas também passou a influenciar parte dessa relação com a própria aparência.
Comparações
Se antes a relação com a própria imagem acontecia principalmente diante do espelho, hoje ela acompanha a pessoa durante praticamente todo o dia. Selfies, vídeos, chamadas, filtros e redes sociais criaram uma exposição ao próprio rosto difícil de comparar com qualquer outro período. Além disso, a comparação deixou de acontecer apenas com outras pessoas. É possível comparar o rosto real com uma versão digitalmente modificada de si mesmo.
"As redes sociais colocam as pessoas em contato permanente com padrões estéticos que muitas vezes não correspondem à realidade. Hoje temos filtros, edição de imagens, inteligência artificial, iluminação e diferentes recursos que podem modificar completamente a percepção de um rosto ou de um corpo", afirma Helena.
O problema começa quando essa imagem fabricada deixa de ser entretenimento e se transforma em objetivo para uma intervenção real. "Isso pode fazer com que o paciente chegue ao consultório querendo reproduzir uma imagem que, na verdade, nem sequer existe daquela forma na vida real. O objetivo de um procedimento não deve ser transformar alguém em outra pessoa ou reproduzir um padrão de internet, mas buscar uma melhora estética que faça sentido para aquele indivíduo e preserve sua identidade", acrescenta a cirurgiã.
Sinais de risco
Por isso, o especialista precisa analisar comportamentos aparentemente comuns, como tirar muitas selfies ou rejeitar determinada fotografia, dentro de um contexto mais amplo. Isoladamente, essas atitudes não caracterizam um transtorno. A preocupação aumenta quando comportamentos relacionados à aparência se tornam repetitivos, provocam sofrimento ou começam a interferir na vida cotidiana.
Olhar constantemente para uma pequena característica no espelho, ampliar fotografias para procurar imperfeições, comparar-se de maneira contínua, depender de filtros para publicar uma imagem ou evitar encontros porque não está satisfeito com o próprio rosto são alguns dos comportamentos que podem justificar uma avaliação mais cuidadosa.
Isso não significa que cabe ao cirurgião plástico estabelecer sozinho um diagnóstico de saúde mental. Significa reconhecer que, em determinadas situações, realizar imediatamente o procedimento solicitado pode não ser a melhor conduta. Por isso, antes de falar sobre técnica, tamanho de prótese, quantidade de produto ou resultado esperado, compreender por que aquela mudança se tornou tão importante pode revelar muito sobre a indicação.
Helena explica que uma decisão consciente costuma vir acompanhada de uma queixa objetiva e de expectativas compatíveis com as possibilidades do tratamento. "O paciente entende os benefícios, as limitações e os riscos e consegue tomar a decisão sem uma sensação de urgência. Já quando a pessoa chega com uma lista interminável de mudanças, não consegue identificar exatamente o que a incomoda ou acredita que o procedimento vai resolver questões que vão muito além da estética, é preciso ter cautela."
Grupo de risco
Também merecem atenção pacientes com histórico de sucessivos procedimentos acompanhados de insatisfação persistente, preocupação desproporcional com características discretas ou desejo de reproduzir exatamente o rosto e o corpo de outra pessoa. Nesses casos, a avaliação precisa considerar não apenas o que pode ser modificado fisicamente, mas também o impacto que essa relação com a própria imagem está causando na vida do paciente.
"Diante de sinais de sofrimento psíquico ou suspeita de transtorno dismórfico corporal, o mais responsável pode ser não operar naquele momento e orientar avaliação por um profissional de saúde mental. O compromisso do cirurgião plástico não é realizar tudo o que o paciente pede, mas indicar aquilo que pode ser feito com segurança, ética e benefício real", afirma Helena.
Quando percebe que existe uma questão emocional importante envolvida ou expectativas que não considera saudáveis, a cirurgiã também recomenda cautela. "Prefiro conversar e, se necessário, orientar o paciente a buscar também uma avaliação psicológica ou psiquiátrica antes de qualquer procedimento."
Em uma era que oferece cada vez mais possibilidades para modificar o corpo, talvez a discussão mais contemporânea sobre estética não seja até onde a medicina consegue transformar alguém, mas quando ela deve escolher não transformar. Autocuidado pressupõe escolha, benefício e respeito à própria identidade. Quando nenhuma mudança parece suficiente, o problema talvez já não esteja mais diante do espelho.