Restrições em escolas, investigações sobre design algorítmico e evidências educacionais indicam uma virada global na relação entre crianças e telas
O ano de 2026 pode ser um divisor de águas na relação entre a proteção da infância e o mundo digital. Em Los Angeles, nos Estados Unidos, denúncias sobre o uso desregulado do público 'sub-13' como estratégia de crescimento levaram as gigantes Google e Meta a julgamento. A educadora parental Priscilla Montes aponta a importância do debate sobre o controle de conteúdo das plataformas e como ele lança luz também sobre a responsabilidade dos adultos responsáveis.
A especialista em Neuroeducação e Desenvolvimento Infantil defende que a discussão vai além do viés econômico, moral ou geracional. Montes vê a situação como estrutural, envolvendo um processo de aprendizagem pedagógico não só das crianças. Mas, principalmente, de quem os cria e deveria preencher esses momentos livres com atividades frutíferas.
"É terrível imaginar que esta prática predatória está ocorrendo, mas é fundamental também pontuar como essas crianças e jovens estão condicionados ao uso de redes sociais desde tão cedo. A criança não tem maturidade neurológica e emocional para sustentar a própria exposição digital; quem tem essa responsabilidade são os adultos. Quando falamos de crianças em redes sociais e do uso de celulares, não estamos falando apenas de uma foto fofa compartilhada de forma pontual — estamos falando de identidade e rastro digital, de consequências, de privacidade e de segurança. Proteção digital também é um cuidado emocional. O nosso papel, como adultos e responsáveis, não é colocar a criança em um palco digital, mas garantir que ela tenha uma infância segura dentro e fora das telas".
Sociedade pode contribuir
Para Priscilla Montes, a questão não é afastar crianças da tecnologia, mas estabelecer mediação qualificada e limites consistentes. A construção de ambientes digitais mais seguros envolve, sim, regulação e responsabilidade das empresas, mas principalmente a participação ativa das famílias e escolas. Após completar um ano, a Lei 15.100/2025, que proíbe o uso de celulares nas escolas brasileiras, tem resultado em impactos concretos na rotina escolar.
Dados da Rede Marista indicam aumento de 68% no uso de pátios e quadras após a restrição, além de crescimento de 40% na frequência às bibliotecas durante os intervalos. Levantamentos internos também apontam que 72% dos estudantes passaram a interagir mais com colegas presencialmente.
O movimento acompanha evidências educacionais internacionais: o relatório do PISA associa o uso frequente do celular a menor rendimento acadêmico, com 80% dos alunos afirmando que notificações prejudicam a concentração. Hoje, a distração digital é considerada uma das principais barreiras ao aprendizado efetivo.
"O sucesso da medida não é mensurado apenas por uma ação imposta por regulamentos, é um compromisso assumido entre as famílias, as escolas e a sociedade. Os pais entenderam que o uso dessas tecnologias em ambiente escolar não agregam para os jovens e tem tomado medidas eficazes para isso não se multiplicar. Com o uso das redes sociais também é preciso haver esse comprometimento familiar, pois é principalmente fora do ambiente controlado das instituições de ensino que essa criança ou adolescente está sendo afetado", conclui Priscilla Montes.