Dar vida a um vilão detestável não é tarefa fácil, mas Murilo Benício tem tirado de letra na pele de Ferette. No entanto, o ator não passa pano para as atitudes do personagem. Para ele, o vilão representa um Brasil estagnado em valores antigos. Com toda a certeza, Murilo acredita que o caminho da desconstrução é difícil, e ele mesmo precisou lutar contra as heranças da própria criação para não se tornar alguém tão amargurado quanto o papel que interpreta hoje.
Como o estudo de teatro transformou a visão de mundo do ator
A principal diferença entre Murilo e seu personagem está na abertura para o novo. O ator revela que cresceu nos anos 80, uma época em que o machismo e o preconceito eram a regra, e não a exceção. Segundo ele, a sua salvação foi o estudo de teatro, que abriu portas para um universo muito mais interessante e colorido. "Muito cedo, eu percebi que aquilo era muito melhor do que era ensinado para mim", contou ao portal Gshow.
Além disso, o artista destaca que o ambiente artístico foi fundamental para que ele questionasse os padrões retrógrados. Visto que o palco exige empatia e convivência com a diversidade, o estudo de teatro funcionou como um antídoto contra a ignorância. Diferente de Murilo, Ferette faz parte de um grupo de pessoas que não quer ouvir e se recusa a dar o braço a torcer, preferindo viver isolado em suas próprias convicções nocivas.
A desconstrução constante de Murilo Benício na vida real
Mesmo sendo um homem esclarecido, Murilo admite que o processo de mudança é diário. Ele reconhece que teve sorte por ter acesso à cultura, algo que ainda é negado a muitos brasileiros. Logo após entender que o mundo era mais amplo do que a sua bolha de adolescente, ele nunca mais parou de se autoavaliar. Dessa forma, o ator usa sua voz para alertar que a educação é a única saída para quem não deseja se tornar um "Ferette" na vida real.
Por fim, ele opina que a redenção do vilão de 'Três Graças' é pouco provável, justamente pela falta de vontade do personagem em mudar. Com efeito, o estudo de teatro deu a Murilo as ferramentas para ser um homem sensível e atento, enquanto Ferette permanece preso a uma época sombria. Para o público, fica a lição de que a arte não apenas entretém, mas tem o poder real de salvar e reconstruir caráteres.