Celular na mão o tempo todo, horas seguidas em jogos, dificuldade para se desconectar, irritação quando o acesso é interrompido e prejuízos cada vez mais visíveis na escola, em casa e na saúde mental. O que, por muito tempo, foi tratado apenas como excesso de tela começa a ser encarado de forma mais séria por especialistas. Em alguns casos, a relação dos adolescentes com a tecnologia deixa de ser um hábito e passa a se tornar um quadro de dependência digital.
Esse cenário tem mobilizado famílias, médicos e centros especializados. Em São Paulo, a Elibrè, referência em tratamento de saúde mental, acaba de lançar uma proposta inédita no país voltada justamente para adolescentes e jovens adultos que apresentam uso excessivo e prejudicial de tecnologias, especialmente redes sociais e jogos eletrônicos.
Batizado de Programa Elibrè para Dependências Digitais, o projeto ajuda participantes a reconstruírem uma relação mais saudável, consciente e equilibrada com as telas.
Quando o uso deixa de ser só excesso
A tecnologia faz parte da vida cotidiana e, hoje, está presente no estudo, no trabalho, no lazer e nas relações sociais. Por isso, nem todo uso intenso é um transtorno. O ponto de atenção, segundo especialistas, está na perda de controle.
De acordo com o psiquiatra Emílio G. Tazinaffo, co-coordenador do programa, o problema aparece quando a pessoa já não consegue se organizar ou se autorregular, mesmo percebendo que aquele comportamento está causando danos.
"A dependência ocorre quando o indivíduo vai perdendo a capacidade de se autorregular ou quando ele vai perdendo a capacidade de se organizar, mesmo percebendo ou tendo prejuízos por conta do comportamento", explica o psiquiatra, em entrevista ao O Globo.
Para ilustrar, ele faz uma comparação com jogadores profissionais, que passam muitas horas diante da tela, mas conseguem interromper a atividade quando necessário e manter o restante da vida funcionando. Ou seja: o número de horas, sozinho, não define o problema.
O que caracteriza a dependência é o sofrimento diante da interrupção, a dificuldade de parar e os impactos concretos na vida pessoal, escolar, familiar e social. "Em último ponto, a dependência vai gerar prejuízos funcionais pessoais e interpessoais. Ou seja, para dizermos que um uso nocivo se tornou uma dependência, há um prejuízo na vida desse indivíduo. Esse indivíduo não precisa necessariamente ter a crítica sobre o prejuízo, mas todo mundo percebeu. Ele foi mandado embora do trabalho. As notas dele começaram a cair. Ele está brigando com os pais, está isolado. Isso é uma dependência", completa o médico.
Famílias muitas vezes não sabem como agir
O uso problemático da tecnologia ainda é um fenômeno relativamente recente, e isso ajuda a explicar por que tantas famílias se sentem perdidas quando começam a notar que algo saiu do eixo. Hoje, o celular passou a ocupar um lugar quase inseparável da rotina dos jovens - e o problema está justamente quando essa relação se torna patológica.
Em alguns casos, os adolescentes chegam ao ponto de brigar e até agredir os pais quando ficam sem o aparelho. A equipe da instituição relata que tem visto crescer a chegada de pacientes adoecidos por esse tipo de comportamento, inclusive com situações extremas.
Como vai funcionar o programa
A primeira edição do programa está prevista para abril de 2026, em São Paulo, e terá duração total de 90 dias. Poderão participar adolescentes a partir de 12 anos e jovens adultos. O caminho começa com uma triagem individual, etapa em que a equipe avalia se o participante se encaixa no perfil do tratamento e quais são suas necessidades específicas. Depois disso, o processo será dividido em duas fases.
A primeira é uma imersão intensiva de três dias, realizada em um hotel boutique próximo à capital paulista, em um ambiente cercado por natureza e longe das telas. A proposta é criar uma pausa real na rotina hiperconectada e abrir espaço para novas experiências, reflexões e intervenções clínicas.
No caso dos menores de idade, os responsáveis acompanham todas as etapas, inclusive durante a imersão. Depois desse período inicial, os participantes retornam para suas rotinas, mas seguem em tratamento com uma equipe multidisciplinar, em um plano adaptado às demandas de cada caso.
Detox digital, natureza e reconexão presencial
O programa foi estruturado com base em estratégias já estudadas e validadas no cuidado com transtornos ligados ao uso problemático da tecnologia. A ideia da equipe foi justamente reunir, em um único percurso, diferentes intervenções que costumam ser aplicadas de forma separada.
"Queríamos fazer o melhor possível. Então, basicamente, tentamos colocar intervenções que já têm evidências científicas comprovando que elas ajudam nesse tratamento das dependências digitais mas que, muitas vezes, elas são validadas de formas isoladas. Então, criamos um novo tratamento que juntasse essas intervenções isoladas em um único caminho para esse paciente", completa Tazinaffo.
Durante o fim de semana de imersão, adolescentes, jovens e familiares participarão de atividades como psicoeducação, detox digital, mindfulness, conversas mediadas por psicólogos e psiquiatras e jogos de tabuleiro. A psicoeducação tem papel central nesse começo, principalmente porque muitos adolescentes ainda não reconhecem que estão adoecendo.
Os jogos de tabuleiro também fazem parte da proposta por estimularem interação presencial, raciocínio, resolução de problemas e contato real. Isso é uma espécie de contraponto ao funcionamento do ambiente digital. Já o contato com a natureza foi escolhido porque ambientes com menos estímulos visuais e auditivos tendem a reduzir o estresse e favorecer a abertura para o tratamento.
O tratamento não busca proibir as telas
Um dos pontos mais importantes ressaltados pelos especialistas é que o objetivo do programa não é defender abstinência total de celular, computador ou internet. No mundo atual, isso seria inviável (e até irrealista). O foco está em recuperar autonomia e criar uma relação mais saudável com a tecnologia.
"Você não vai ver nenhum estudo dizendo para fazer abstinência de celular ou de computador porque isso seria impossível no mundo atual. O grande objetivo, quando falamos de dependência digital é criar uma relação saudável e de autonomia desse uso", avalia Tazinaffo.
Ao longo da fase de acompanhamento, os participantes terão acesso a psicoterapia individual e em grupo, tanto para eles quanto para os familiares. Caso existam comorbidades, como TDAH, ansiedade e depressão, essas questões também terão tratamento.
Um problema que vai além da tela
Especialistas destacam que a dependência digital não surge por um único motivo. Embora redes sociais, jogos e aplicativos tenham sido desenvolvidos com mecanismos que favorecem repetição e engajamento, o quadro costuma envolver também sofrimento emocional, dificuldade de regulação, isolamento social e fragilidade nas dinâmicas familiares.
Por isso, o programa aposta não apenas em intervenções clínicas, mas também no fortalecimento de vínculos e na reconexão presencial entre adolescentes e suas famílias.
A preocupação faz sentido. O uso excessivo de telas tem associado-se a distúrbios do sono, dores de cabeça, problemas oculares, sedentarismo, piora da alimentação, ansiedade, depressão e prejuízos no rendimento escolar e nas relações sociais. Em outras palavras: o problema não está só no tempo conectado, mas no que vai sendo perdido no caminho.
Um olhar mais cuidadoso para uma realidade nova
À medida que a vida digital se intensifica, cresce também a necessidade de diferenciar o uso comum daquilo que já virou sofrimento. A criação de programas específicos para dependências digitais mostra que esse debate está amadurecendo - e que o cuidado em saúde mental precisa acompanhar as mudanças do mundo real.
A expectativa da equipe é que, depois dessa primeira edição, a iniciativa também chegue às escolas - um passo importante para ampliar informação, prevenção e acolhimento. No fim, a proposta não é demonizar a tecnologia, mas ensinar algo que tem se tornado cada vez mais necessário: como viver conectado sem se perder de si.