Fé no divã: cristãos evangélicos podem fazer terapia? Entenda

Enquanto lideranças religiosas divergem sobre a eficácia da terapia, o Conselho Federal de Psicologia reforça o caráter laico da profissão

7 mai 2026 - 14h36

A discussão sobre a legitimidade da psicoterapia para fiéis cristãos tem ganhado novos contornos e gerado divisões profundas no cenário religioso brasileiro. A ideia de que o aconselhamento psicológico poderia ser substituído exclusivamente por suporte espiritual, ou que o atendimento deve ser restrito a profissionais confessos, é uma tendência crescente em certos grupos evangélicos.

Cristão pode fazer terapia? Entenda a polêmica
Cristão pode fazer terapia? Entenda a polêmica
Foto: Canva / Bons Fluidos

Para muitos estudiosos, esse embate histórico nasce de uma disputa fundamental pela jurisdição sobre a alma humana, onde a ciência e o dogma muitas vezes colidem em campos de batalha ideológicos. Em reportagem publicada pela BBC Brasil, o pastor Rodrigo Mocellin, da Igreja Resgatar, afirma que "é óbvio que a fé cristã não pode ter parceria com a psicologia. São como água e óleo. Não tem como andar junto". Além disso, Mocellin classifica a ciência como uma "doutrina de demônios", argumentando que "a Bíblia diz que ansiedade é pecado. A psicologia diz que é transtorno".

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Cristãos evangélicos podem fazer terapia? Entenda a polêmica

Esse posicionamento encontra eco em outras vertentes que, embora menos radicais, ainda priorizam a figura divina como o recurso terapêutico definitivo. César Augusto, da Igreja Apostólica Fonte da Vida, também à BBC, sugere aos seus seguidores que, antes de buscarem auxílio profissional, experimentem uma consulta com o que ele denomina como o "maior psicólogo do mundo, que é Jesus". Já o bispo Walter McAlister, da Igreja Cristã Nova Vida, reconhece a utilidade da ciência para o bem-estar humano, mas impõe uma ressalva importante: ele orienta que o cristão busque exclusivamente um profissional que compartilhe de sua fé.

Para McAlister, essa preferência se justifica pelo fato de que certos dilemas humanos não seriam meramente comportamentais, mas de natureza metafísica, afirmando que "esses conflitos não resolvidos não podem ser fundamentados apenas em comportamento, traumas de infância ou desejos enrustidos. Alguns são de ordem espiritual".

O que diz o Conselho Federal de Psicologia?

Por outro lado, o Conselho Federal de Psicologia mantém uma postura rígida em defesa da laicidade da profissão. O órgão argumenta que o uso do termo "psicólogo cristão" pode induzir o paciente ao erro. Além disso, sugere uma prática exclusivista que fere a universalidade científica. Assim, a instituição ressalta que o exercício profissional não deve ser pautado por dogmas, respeitando a diversidade de crenças sem permitir que a religião interfira na técnica.

Por fim, o debate permanece como um reflexo das tensões contemporâneas entre a ciência moderna e a interpretação literal das escrituras. Assim, a busca pela cura da mente torna-se um território complexo de negociação. Há sempre o paradoxo entre o que é considerado transtorno e o que é interpretado como dilema espiritual. Com mais de 350 palavras de reflexão, o cenário atual mostra que a integração dessas áreas depende, acima de tudo, do diálogo respeitoso entre as necessidades psíquicas e as convicções da alma.

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