A ciência por trás do medo: como o infrassom pode influenciar a sensação de lugares 'assombrados'

Estudo mostra que sons abaixo da audição humana podem aumentar o estresse e provocar sensações que muitos associam ao sobrenatural

5 mai 2026 - 09h39

A sensação é familiar para muita gente: um arrepio sem explicação, um incômodo repentino em um ambiente silencioso ou aquela inquietação difícil de justificar em lugares antigos, considerados "assombrados".

Pesquisa revela que o infrassom, inaudível ao ouvido humano, pode afetar o humor, elevar o cortisol e explicar sensações estranhas
Pesquisa revela que o infrassom, inaudível ao ouvido humano, pode afetar o humor, elevar o cortisol e explicar sensações estranhas
Foto: Reprodução: Canva/Vicentia Olariu's Images / Bons Fluidos

Durante muito tempo, experiências assim foram associadas ao sobrenatural. Hoje, porém, a ciência começa a oferecer uma explicação mais concreta - e invisível aos nossos sentidos. A hipótese envolve o chamado infrassom: vibrações sonoras tão graves que estão abaixo do limite da audição humana, mas que, ainda assim, podem ser percebidas pelo corpo.

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O som que você não ouve, mas o corpo sente

O infrassom corresponde a frequências inferiores a 20 hertz - ou seja, sons que nossos ouvidos não conseguem captar conscientemente. Apesar disso, ele está presente em diversas situações do dia a dia, vindo de fontes como trânsito, sistemas de ventilação, equipamentos industriais e até fenômenos naturais, como tempestades e terremotos.

Mesmo imperceptível, esse tipo de vibração pode provocar respostas físicas e emocionais. É o que sugere um estudo recente publicado na revista científica Frontiers in Behavioral Neuroscience.

O experimento que revelou o "desconforto invisível"

Para entender melhor esse fenômeno, pesquisadores canadenses reuniram 36 voluntários e os colocaram sozinhos em uma sala. Durante alguns minutos, eles ouviram músicas - algumas relaxantes, outras mais intensas. O detalhe é que parte dos participantes foi exposta, sem saber, a um infrassom de 18 Hz, emitido por equipamentos escondidos no ambiente.

Os resultados chamaram atenção: quem esteve em contato com o infrassom relatou maior irritação, percebeu as músicas como mais tristes e demonstrou menos interesse pela experiência. Além disso, exames mostraram níveis mais elevados de cortisol, hormônio associado ao estresse. E o mais intrigante: ninguém conseguiu identificar a presença do som.

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Quando a mente não percebe, mas o corpo reage

Um dos pontos mais relevantes da pesquisa é justamente esse: as reações ocorreram independentemente da consciência dos participantes. Nem mesmo acreditar que estavam sendo expostos ao som alterou os resultados. Isso indica que o corpo pode responder ao ambiente de formas sutis, mesmo quando a mente não consegue explicar o que está acontecendo.

A ligação com o "sobrenatural"

Essas descobertas ajudam a entender por que certos lugares despertam sensações estranhas. Ambientes antigos, por exemplo, podem produzir vibrações de baixa frequência por meio de encanamentos, estruturas ou sistemas de ventilação. Segundo os pesquisadores, quando alguém entra em um espaço assim e já carrega a ideia de que ele é "assombrado", o desconforto físico pode ser interpretado como algo paranormal.

Um fenômeno já observado antes

A relação entre sons de baixa frequência e sensações incomuns não é totalmente nova. Em um experimento realizado na Inglaterra, centenas de pessoas assistiram a apresentações musicais que, em alguns momentos, incluíam infrassom sem aviso. Cerca de 22% dos participantes relataram efeitos como tristeza, calafrios, medo e mal-estar - mesmo sem perceber conscientemente a presença do som.

"Os resultados sugerem que o som de baixa frequência pode fazer com que as pessoas tenham experiências incomuns, mesmo que não consigam detectar conscientemente o infrassom", comentou o psicólogo Richard Wiseman na época.

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Nem tudo é explicação, mas já é um caminho

Apesar dos achados, os cientistas são cautelosos. O infrassom pode contribuir para sensações de desconforto, mas não explica experiências mais complexas, como visões ou crenças profundas. "Contudo, isso não significa que o infrassom explique tudo". Além disso, os estudos ainda são iniciais. A pesquisa recente, por exemplo, contou com um número reduzido de participantes e avaliou apenas uma frequência específica.

Mesmo com limitações, os resultados levantam uma reflexão importante: estamos constantemente expostos a estímulos que não percebemos conscientemente, mas que podem influenciar nosso humor, nosso corpo e até nossa sensação de segurança. E isso muda a forma como interpretamos certas experiências.

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