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Com transtorno alimentar desde os 8 anos, ela transformou trauma em coletivo que une saúde física e mental: ‘Luta de uma vida’

Bertha Salles, criadora de conteúdo e podcaster, fundou o ‘Bucinho Suado’, que reúne centenas de pessoas em treinos “acessíveis e possíveis"

19 jan 2026 - 04h59
Bertha Salles conta sobre relação com o corpo e como questão -- que mais a causava dor -- acabou se tornando em seu novo propósito de vida
Bertha Salles conta sobre relação com o corpo e como questão -- que mais a causava dor -- acabou se tornando em seu novo propósito de vida
Foto: Arquivo pessoal/Bertha Salles

Foi aos 8 anos de idade que Bertha Salles teve seu primeiro episódio de bulimia. Aos 11 anos, deixou o balé que tanto amava, porque a professora disse que ela estava muito gorda para as aulas. Assim, entre altos e baixos, ela seguiu tendo o corpo como um fardo. Até que, próxima dos 30 anos, passou por um grande susto de saúde e descobriu um caminho possível para se exercitar – longe da busca pela magreza extrema e da ‘marmita de frango e batata doce’ dos marombas. Assim, de pouco em pouco, ela transformou algo que sempre foi duro em beleza ao formar um coletivo que une saúde física e mental e que é um espaço seguro para todos os corpos.

Bertha agora tem 32 anos. Ela é criadora de conteúdo, apresentadora, podcaster e, desde 2024, fundadora do Bucinho Suado, comunidade que promove treinões mensais e que tem um videocast semanal próprio. Em entrevista ao Terra, Bertha contou sobre sua relação com seu corpo ao longo dos anos, como tudo se transformou e de que forma o projeto acabou se tornando um novo propósito de vida.

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A comida sempre foi sua maior linguagem de amor. “Sou muito taurina, eu amo comer, sempre amei”, conta. E ela era uma criança feliz, marcada por lembranças afetivas de refeições como um momento de família e união. Até que, aos oito anos, seus pais se separaram e a forma como conseguiu se expressar também foi por meio da comida. “Foi o jeito que eu consegui botar pra fora na época”, relembra.

Quando passou a lidar com isso, transtornos alimentares e de imagem não eram um assunto conversado. Mas a violência que sofreu em torno disso sempre a marcou. “Era uma pressão bizarra com relação ao meu corpo, e ninguém olhava pro que de fato estava acontecendo”, conta Bertha, que seguiu oscilando entre momentos de crise e de melhora.

“Aos 13, uma pediatra virou pra mim e ela falou: ‘Olha, se você não emagrecer, você não vai ter amigos na escola’. É uma violência gigante, sabe, de ouvir muito jovem esses comentários. Sempre foi uma pauta na minha vida e eu sempre me senti deslocada quando eu ia fazer exercício físico, ou numa situação social. Meu corpo ou estava muito magro ou tava muito fora. Nunca tava bom”, conta.

"Foto da idade em que medica disse que se eu não emagrecesse não iria beijar na boca, nem ter amigos ou me relacionar"
Foto: Arquivo pessoal/Bertha Salles

Conforme os anos foram se passando, Bertha encontrou espaço para compartilhar sobre essa dor em seus trabalhos. Por meio da newsletter onde era colunista, na Associação Sem Carisma criada por Camila Fremder, e do podcast Ppkansada, que mantinha com Isabela Reis e Taizze Odelli, se sentiu acolhida pelo público e também teve muito retorno das pessoas, como conta. E isso a deu forças.

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“É muito doido, né. Quando você começa a falar, você realmente vê que não é uma situação individual, ela é coletiva. E ela é muito direcionada para nós mulheres. Nunca tá bom. É um nível de violência bizarro”, comenta.

Foi durante a pandemia que tudo se intensificou. Bertha conta que sua compulsão alimentar se transformou em um quadro de compulsão alcoólica, o que diz ser comum de acontecer, por mais que não seja muito comentado. Nessa fase seu corpo estava fraco, e ela chegou a desmaiar sozinha em casa. Quando procurou por ajuda médica, para entender o que estava acontecendo, o primeiro comentário dele foi: ‘você precisa emagrecer’”. Como sempre ocorria. 

Na época diagnosticada com pré-obesidade, para lidar com a compulsão, Bertha começou a se exercitar. Com acompanhamento de psicóloga, psiquiatra e cortando o álcool, primeiro ela chegou a utilizar caneta emagrecedora durante um ano e, na sequência, precisou lidar com o desmame. “Independente disso tudo, fiquei muito comprometida a começar de fato a me exercitar”, relembra.

O que Bertha fez foi buscar um equilíbrio de fazer o que era possível com relação aos exercícios físicos e manter uma boa alimentação. “É muito injusto numa vida que a gente trabalha tanto e que tem tantas responsabilidades e tantos medos, inseguranças, ter ainda mais essa cobrança de um corpo perfeito, ou de uma rotina perfeita de exercício físico, de alimentação cara… Não, a gente faz o que é possível”, acredita.

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Essa relação, com conversas com profissionais responsáveis ao longo do processo, a fez olhar de outra forma para tudo que engloba saúde. Nisso, o que começou com posts de “bucinho suado” nos stories do Instagram quando ia treinar – em “deboche ao tá pago dos hétero tops” – acabou se transformando em uma comunidade inspirada nesses ideais.

Perfil no Instagram do @bucinhosuado reúne mais de 14 mil seguidores
Foto: Reprodução/Instagram/@bucinhosuado

Furando bolhas

O Bucinho Suado começou com encontros com 10, 15 pessoas, e hoje conta com treinões coletivos com participantes na casa das centenas -- e um corre corre para garantir os ingressos, que esgotam rapidamente. Há pessoas de idades variadas e corpos diversos que se reúnem para se exercitar com consciência, da forma que conseguem, com muito acolhimento em todo o processo.

“Ouvir os relatos, sentir o abraço das pessoas e a troca na nossa comunidade é muito emocionante. Eu queria que existisse um Bucinho Suado e Chapadinha de Endorfina [projeto do ‘Bom dia, Obvious’ que a inspirou] quando eu era adolescente. Acho que teria sido mais fácil”.

Hoje ela já vê o projeto “furando a bolha” e se tornando um movimento independente de sua imagem. O projeto se tornou seu principal trabalho e a deu um novo propósito de vida. O que, para ela, é extremamente necessário considerando o movimento de retorno do culto à magreza presente na sociedade. 

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“Muitos corpos com que a gente se correlacionava, que pensava: ‘pô, esse é um corpo real’, entre muitas aspas, parece que pararam de existir. As pessoas banalizaram muito o processo de emagrecimento, não falando a real: de que muitas vezes esse corpo é sobre acesso”, acredita Bertha.

O que fazem no ‘Bucinho’ é tentar reforçar o contrário. “Ser até meio cricri, sabe? Meio pedante. É que esse discurso tá tão naturalizado de ‘tá magra, tá bonita’, ‘tá magra, tá saudável. A gente retrocedeu muito nesse lugar, e me preocupa muito. Eu acho que é uma luta meio de resistência de não cair nisso e é difícil pra caramba”.

No seu íntimo, por mais que agora à frente de um movimento que cresce cada vez mais, os altos e baixos seguem. “Eu oscilo muito. Eu oscilo muito entre o ‘dane-se tudo, é isso mesmo, procedimento’. E depois eu caio na real e falo assim: ‘meu, o que que eu tô fazendo, é uma luta de uma vida inteira pra tentar encaixar e ter um corpo que simplesmente não é o meu, que não é o meu biotipo’. Então é um diálogo interno que eu tenho constantemente”, desabafa.

É flutuante, tenta nomear Bertha. O que a ancora, além das trocas, é escrever, falar sobre o assunto em seu podcast e buscar profissionais responsáveis. “Tô sempre tentando me ancorar”.

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A questão do emagrecimento segue tendo um papel delicado na sua vida. Com um passado agressivo, de punição. E que hoje ela tenta olhar com outros olhos. “Quando eu comecei a fazer academia, a fazer ginástica, foi muito especial porque eu entendi muito sobre força, sobre o que é músculo no seu corpo, o que é uma massa magra, entender o meu biotipo.. E que o peso, de fato, fod*-se. Fod*-se grandão".

Terra Verão

O Bucinho Suado é um dos parceiros do projeto Terra Verão 2026: O Verão se Vive Junto, evento que acontece nos dias 24, 25 e 31 de janeiro, além de 1º de fevereiro, das 8h às 18h, no Parque Burle Marx. As inscrições gratuitas já estão abertas e os convites devem ser retirados on-line.  

O Terra Verão 2026 contará com atividades de diversas modalidades com a Bluefit, incluindo treinos exclusivos de Body Combat, Body Balance, Body Attack e Fit Dance. Além do Bucinho Suado, outras comunidades digitais também estarão presentes no evento, como os grupos Yoga Adventure, Domingo ON e Vem Com Nóis.

O público também poderá participar de encontros do The Coffee Party e The Coffee Beats, com direito a pista de dança com DJs. O evento ainda conta com opções do espaço gastronômico, com diversos food trucks. Água será disponibilizada gratuitamente ao longo de todo o evento pela Sabesp.

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Fonte: Portal Terra
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