Um estudo da Universidade Johns Hopkins revelou que idosos que cochilam diariamente ou adormecem de forma involuntária têm um risco até 48% maior de desenvolver demência. O padrão foi observado após dez anos de análise com quase mil participantes. Os cientistas ressaltam que o hábito não é uma causa comprovada, mas pode ser um sinal precoce de degeneração cerebral ou de outros problemas de saúde, recomendando atenção médica se as sestas diurnas e não planejadas se tornarem frequentes.
Cientistas acompanharam quase mil idosos por até dez anos. Seus cochilos revelaram um padrão que pode oferecer pistas sobre riscos à saúde.A sesta tem fama de ser um prazer inofensivo, uma pausa agradável na rotina. Quase um direito conquistado com o avançar da idade. No entanto, é possível que esse descanso diário tenha mais nuances. Um estudo recente liderado pela Escola Bloomberg de Saúde Pública da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, sugere que certos hábitos relacionados ao cochilo pós-almoço podem dar pistas sobre o risco de desenvolver demência.
Para investigar a questão, os cientistas acompanharam, por até dez anos, 995 idosos com 65 anos ou mais que não apresentavam demência possível ou provável no início do estudo, em 2013. Eles analisaram a frequência das sestas, se eram planejadas ou involuntárias e quanto tempo duravam. Durante o acompanhamento, 417 participantes, cerca de 42% do total, foram classificados como casos de demência possível ou provável.
Sesta frequente e demência
Ao dividir os participantes de acordo com seus hábitos de sesta, surgiram diferenças. Segundo os dados brutos compilados pelo StudyFinds, 51% daqueles que cochilavam com frequência foram classificados como casos de demência possível ou provável, ante 42% dos que cochilavam ocasionalmente e 38% dos que nunca ou raramente descansavam durante o dia.
Mas esses números mostram apenas a proporção de casos em cada grupo. Os pesquisadores também realizaram uma análise estatística que levou em conta fatores demográficos, de saúde e relacionados ao sono. Segundo os resultados publicados no The Journals of Gerontology, quem cochilava na maioria dos dias ou diariamente apresentava um risco estimado de demência 48% maior do que aqueles que nunca ou raramente faziam sesta. Já os cochilos ocasionais não mostraram associação clara.
Sestas involuntárias e duração
Mas não era apenas a frequência que importava. Também foram encontradas diferenças entre quem planejava suas sestas e quem, ao menos ocasionalmente, adormecia sem querer. Neste último grupo, o risco estimado de demência foi 39% maior do que entre aqueles que nunca ou raramente cochilavam. Em contrapartida, os pesquisadores não encontraram uma associação clara no caso dos descansos planejados após ajustar os resultados pelas condições de saúde e pelos hábitos de sono.
Segundo o StudyFinds, as pessoas que adormeciam involuntariamente também apresentavam mais doenças crônicas, mais sintomas de depressão e maior risco de apneia do sono. Além disso, sofriam mais sonolência diurna, o que levanta a possibilidade de que esses cochilos sejam reflexo de outros problemas de saúde.
Quanto à duração, o resultado foi menos intuitivo. Em comparação com quem nunca ou raramente cochilava, descansos de 30 minutos ou menos foram associados a um risco estimado 40% maior.
No caso das sestas mais longas, a associação perdeu força quando foram considerados o descanso noturno, a sonolência diurna e o risco de apneia do sono. Segundo o StudyFinds, os autores sugerem que esses cochilos mais prolongados podem servir para compensar noites mal dormidas, de modo que sua relação com a demência poderia estar ligada, ao menos em parte, a problemas de sono noturno.
Fator de risco ou sinal precoce?
Tudo isso leva a uma pergunta inevitável: a sesta é causa ou sintoma?
Adam Spira, um dos principais pesquisadores do estudo, advertiu, em comunicado divulgado pela Johns Hopkins, que cochilar mais pode ser um indicador de alterações no cérebro, e não necessariamente sua causa.
Ainda assim, a relação pode funcionar nos dois sentidos. Isso porque a degeneração das regiões cerebrais que regulam o estado de vigília, processo que pode começar nas fases iniciais da demência, também poderia favorecer a sonolência diurna.
Para investigar essa possibilidade, os pesquisadores repetiram a análise excluindo os casos de demência detectados durante os cinco primeiros anos. A associação com as sestas frequentes persistiu, com uma estimativa de risco 75% maior, segundo o StudyFinds. Já os resultados relacionados às sestas curtas e involuntárias mostraram-se menos consistentes. Ainda assim, não foi possível estabelecer uma relação de causa e efeito.
Limites do estudo
Há outras razões para interpretar os resultados com cautela. Por se tratar de um estudo observacional, ele não permite concluir que as sestas provoquem demência. Além disso, os hábitos de descanso foram registrados a partir das respostas dos participantes em um único momento, e os possíveis casos de demência foram identificados por meio de um algoritmo validado, sem confirmação clínica individual como parte da pesquisa.
Soma-se a isso o fato de que estudos anteriores tampouco oferecem uma resposta unânime. E, segundo levantamento da Universidade Johns Hopkins, os resultados são divergentes, variando de associações com maior deterioração cognitiva a possíveis benefícios dos cochilos curtos. Diferenças metodológicas e culturais podem explicar parte dessas contradições.
Devo abrir mão da soneca?
Não necessariamente. Os resultados não mostram um aumento claro do risco entre aqueles que dormem durante o dia apenas de vez em quando. O que pode ser útil, segundo Kening Jiang, primeiro autor do estudo, é prestar atenção aos hábitos de sesta como um possível sinal precoce para identificar pessoas idosas com maior risco e orientar medidas de prevenção.
O StudyFinds vai um passo além e recomenda conversar com um médico caso os cochilos passem a ocorrer quase todos os dias ou aconteçam involuntariamente, especialmente quando também houver dificuldades para dormir à noite.
Por enquanto, permanecem várias questões em aberto. Os pesquisadores defendem acompanhamentos mais longos e medições do sono diurno e noturno para compreender melhor essa relação e verificar se mudanças nos hábitos de sesta poderiam retardar ou prevenir a demência. Segundo o resumo do estudo, as sestas podem representar um fator de risco, embora ainda faltem evidências que confirmem essa hipótese.