Você já reparou que muitos portões, grades de ferro e fachadas antigas pelo Brasil carregam formas geométricas e figuras intrigantes? Longe de serem meros ornamentos estéticos, esses sinais são Adinkras: uma poderosa linguagem filosófica e ancestral, que foi criada originalmente pelos povos Akan e Ashanti, das regiões onde hoje ficam Gana, Costa do Marfim, Burkina Faso e Togo.
Cada figura guarda um provérbio, valor ético, verdade espiritual ou trecho da história de seu povo. Trazidos ao Brasil durante o período colonial pela população escravizada, esses símbolos funcionaram como uma forma silenciosa, porém poderosa, de resistência cultural.
Hoje, essa escrita visual continua viva e pulsando ao nosso redor:
-
Nas portas, janelas e portões de ferro batido;
-
Nas sacadas, varandas e balaústres de casas históricas;
-
Na arquitetura popular de cidades portuárias;
-
Na memória e na identidade da diáspora africana.
O que é a tecnologia dos símbolos Adinkra?
Mais do que arte, primeiramente, os Adinkras representam uma autêntica tecnologia ancestral focada na linguagem e na comunicação. Trata-se de um conjunto de ideogramas que expressam conceitos filosóficos, normas sociais e códigos de conduta.
A palavra Adinkra possui um significado profundo na língua Twi. O sufixo "Kra" traduz-se como alma, fazendo de Adinkra uma espécie de "adeus à alma". Originalmente, esses símbolos eram gravados em tecidos usados em cerimônias fúnebres como uma mensagem de despedida aos que partiram. Com o passar do tempo, o uso desses grafismos se expandiu para vestimentas do dia a dia, joias, pinturas murais e elementos arquitetônicos pelo mundo.
Os significados dos Adinkras mais populares no Brasil
Entre os símbolos que cruzaram o oceano e se consolidaram na cultura brasileira, alguns se destacam com facilidade em portões, estampas e até em tatuagens.
1. Sankofa (A sabedoria do passado)
O mais famoso dos Adinkras é representado por um pássaro que caminha para a frente, mas olha para trás carregando um ovo no bico. Ele traduz a ideia de "voltar para buscar", ensinando a importância de aprender com a história e com o passado para construir um futuro consciente.
2. Ananse Ntontan (Sabedoria e criatividade)
Nas tradições Akan, a aranha Ananse é a guardiã de todas as histórias do mundo. Além disso, o símbolo que a representa lembra uma teia de aranha e carrega o significado de astúcia, criatividade e sabedoria diante das complexidades da vida.
3. Aya (Resistência e independência)
Inspirado na folha da samambaia, uma planta capaz de brotar e prosperar nos solos mais difíceis, o Aya simboliza a perseverança, independência e capacidade de superar adversidades.
4. Akoma e outros símbolos do cotidiano
Por fim, até mesmo o tradicional formato de coração tem sua versão ancestral: o Akoma, que expressa paciência, fidelidade, carinho e tolerância. Outro destaque é o Duafe, um pente de madeira que evoca beleza, amor e o cuidado feminino, além do Mpatapo, o nó que representa a pacificação e a reconciliação.
O resgate da escrita e do conhecimento africano
Entender o significado dos Adinkras ajuda a desmistificar um estereótipo histórico. Embora a tradição oral seja de fato um pilar fundamental no continente africano, a escrita material sempre esteve presente. Dessa forma, assim como os hieróglifos egípcios (Medu Neter), os ideogramas Adinkra provam a riqueza de registros gráficos desenvolvidos muito antes da chegada dos colonizadores.
Então notar a presenças dessas figuras cravadas nas grades das cidades brasileiras nos convida a refletir sobre os ferreiros e artesãos negros que, com extrema habilidade, deixaram sua marca na arquitetura nacional. Afinal, ao moldar o ferro, eles perpetuaram uma escrita visual de liberdade, união e consciência ancestral que atravessa séculos.
*Esta matéria foi inspirada no vídeo abaixo: