Além da decoração: o significado ancestral dos símbolos escondidos em portões e grades pelo Brasil

Criados pelos povos Akan e Ashanti, os símbolos Adinkra atravessaram séculos e a diáspora para comunicar sabedoria, liberdade e preservação da memória em nosso cotidiano

29 jul 2026 - 09h22

Você já reparou que muitos portões, grades de ferro e fachadas antigas pelo Brasil carregam formas geométricas e figuras intrigantes? Longe de serem meros ornamentos estéticos, esses sinais são Adinkras: uma poderosa linguagem filosófica e ancestral, que foi criada originalmente pelos povos Akan e Ashanti, das regiões onde hoje ficam Gana, Costa do Marfim, Burkina Faso e Togo.

Descubra o que são os Adinkra, técnica ancestral africana presente em portões e fachadas pelo Brasil. Entenda os significados de símbolos
Descubra o que são os Adinkra, técnica ancestral africana presente em portões e fachadas pelo Brasil. Entenda os significados de símbolos
Foto: Canva Equipes/Laurie Lammey Photography de Getty Images / Bons Fluidos

Cada figura guarda um provérbio, valor ético, verdade espiritual ou trecho da história de seu povo. Trazidos ao Brasil durante o período colonial pela população escravizada, esses símbolos funcionaram como uma forma silenciosa, porém poderosa, de resistência cultural.

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Hoje, essa escrita visual continua viva e pulsando ao nosso redor:

  • Nas portas, janelas e portões de ferro batido;

  • Nas sacadas, varandas e balaústres de casas históricas;

  • Na arquitetura popular de cidades portuárias;

  • Na memória e na identidade da diáspora africana.

O que é a tecnologia dos símbolos Adinkra?

Mais do que arte, primeiramente, os Adinkras representam uma autêntica tecnologia ancestral focada na linguagem e na comunicação. Trata-se de um conjunto de ideogramas que expressam conceitos filosóficos, normas sociais e códigos de conduta.

A palavra Adinkra possui um significado profundo na língua Twi. O sufixo "Kra" traduz-se como alma, fazendo de Adinkra uma espécie de "adeus à alma". Originalmente, esses símbolos eram gravados em tecidos usados em cerimônias fúnebres como uma mensagem de despedida aos que partiram. Com o passar do tempo, o uso desses grafismos se expandiu para vestimentas do dia a dia, joias, pinturas murais e elementos arquitetônicos pelo mundo.

Os significados dos Adinkras mais populares no Brasil

Entre os símbolos que cruzaram o oceano e se consolidaram na cultura brasileira, alguns se destacam com facilidade em portões, estampas e até em tatuagens.

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1. Sankofa (A sabedoria do passado)

O mais famoso dos Adinkras é representado por um pássaro que caminha para a frente, mas olha para trás carregando um ovo no bico. Ele traduz a ideia de "voltar para buscar", ensinando a importância de aprender com a história e com o passado para construir um futuro consciente.

2. Ananse Ntontan (Sabedoria e criatividade)

Nas tradições Akan, a aranha Ananse é a guardiã de todas as histórias do mundo. Além disso, o símbolo que a representa lembra uma teia de aranha e carrega o significado de astúcia, criatividade e sabedoria diante das complexidades da vida.

3. Aya (Resistência e independência)

Inspirado na folha da samambaia, uma planta capaz de brotar e prosperar nos solos mais difíceis, o Aya simboliza a perseverança, independência e capacidade de superar adversidades.

4. Akoma e outros símbolos do cotidiano

Por fim, até mesmo o tradicional formato de coração tem sua versão ancestral: o Akoma, que expressa paciência, fidelidade, carinho e tolerância. Outro destaque é o Duafe, um pente de madeira que evoca beleza, amor e o cuidado feminino, além do Mpatapo, o nó que representa a pacificação e a reconciliação.

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O resgate da escrita e do conhecimento africano

Entender o significado dos Adinkras ajuda a desmistificar um estereótipo histórico. Embora a tradição oral seja de fato um pilar fundamental no continente africano, a escrita material sempre esteve presente. Dessa forma, assim como os hieróglifos egípcios (Medu Neter), os ideogramas Adinkra provam a riqueza de registros gráficos desenvolvidos muito antes da chegada dos colonizadores.

Então notar a presenças dessas figuras cravadas nas grades das cidades brasileiras nos convida a refletir sobre os ferreiros e artesãos negros que, com extrema habilidade, deixaram sua marca na arquitetura nacional. Afinal, ao moldar o ferro, eles perpetuaram uma escrita visual de liberdade, união e consciência ancestral que atravessa séculos.

*Esta matéria foi inspirada no vídeo abaixo:

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