Bukassa Kabengele, ator com quase 40 anos de carreira, reflete sobre a importância da arte na transformação social. Em 2023, brilhou em produções como 'Dona Beja', 'Emergência Radioativa' e 'A Nobreza do Amor', onde interpreta José/Zambi, um príncipe africano. Ele destaca como sua ancestralidade influência sua atuação e visão artística. 🎭
Com quase 40 anos de carreira, ator está no ar em A Nobreza do Amor e segue em um 2026 agitado
Somente neste ano, Bukassa esteve no ar em nada menos que três produções de destaque na TV e no streaming. Ele deu vida ao Coronel Paulo Sampaio em Dona Beja (HBO Max); interpretou Evenildo, uma das vítimas do desastre com o Césio-137 em Goiânia, na série Emergência Radioativa (Netflix); e agora brilha como José/Zambi, o príncipe de Batanga que imigrou para o Brasil por amor na novela das seis. "Já alcancei muito pensando de onde vim. Mas ainda tenho muito a realizar. Estou maduro e mais confiante, mas não controlo o mercado nem o futuro. O aprendizado é contínuo; o movimento e a busca me alimentam", reflete.
Em entrevista exclusiva à MALU, ele conversou sobre sua carreira e sobre a importância da consciência social na arte.
Na novela, você vive o José/Zambi, um príncipe que abdica do trono por amor. O quanto a sua própria ancestralidade foi determinante para dar vida a esse personagem?
"A minha ancestralidade me guia; dela e da minha educação recebi os valores africanos. Esses princípios me sustentam e alimentam a minha criança interna, que é a base do meu brilho, aliada ao meu eu adulto, à minha força de trabalho e à minha entrega. Zambi vem de Batanga para o Nordeste. Eu cheguei ao Brasil com 10 anos de idade, vindo da República Democrática do Congo, e fui morar em Natal. Parece coincidência, não é? Somando isso à minha experiência de vida e a vários trabalhos, criei o meu Zambi/José."
Em Dona Beja, seu personagem era casado com uma mulher abertamente racista. Você costuma dizer que o racismo em casamentos inter-raciais é tão comum quanto o machismo em casamentos heteronormativos. Qual a importância do audiovisual expor essa violência dentro do próprio lar?
"Os lares são complexos e neles residem também as doenças estruturais da sociedade. A violência se solidifica em casa e se estende para a rua. É importante que a lente da ficção possa mostrar esses comportamentos e quebrar esses tabus. É de dentro das casas que muitas mulheres, por exemplo, sofrem feminicídio por parte de seus pares — um dos crimes que mais matam mulheres —, além de outros atos abusivos oriundos do machismo. E com o racismo não poderia ser diferente. O debate dá a possibilidade de criação de uma consciência reparadora e também mostra que existem problemas sérios a serem discutidos e combatidos no âmbito social."
Você mencionou que a arte pode ajudar a mudar paradigmas. Qual é o papel do ator nesse processo de transformação social?
"O ator consegue transformar seus entornos quando tem consciência política de que seu trabalho é um dos caminhos de cura para as complexas 'doenças sociais'. Ou seja, dependendo dos roteiros e das narrativas, podemos atingir as pessoas em suas questões mais sensíveis e profundas, em todos os níveis. Nesse sentido, conseguimos alcançar lugares inesperados pela sensibilização ou, simplesmente, pela sugestão a partir de ideias, narrativas e de nossa forma de interpretar personagens. Por isso a importância de usar, com responsabilidade, os conteúdos a serem apresentados."