A estreia de Guerreiros do Sol marca o retorno de Isadora Cruz ao horário nobre da TV Globo. Mas, para além da ficção, a atriz guarda lembranças que vão muito além das câmeras. Em entrevista, ela revelou que as gravações da novela foram atravessadas por episódios intensos, desafios físicos e até momentos que ela descreve como espirituais.
Ambientada no sertão nordestino das décadas de 1920 e 1930, a trama revisita o universo do cangaço, inspirando-se em figuras históricas como Lampião e Maria Bonita. E foi justamente essa conexão com uma história real que, segundo Isadora, trouxe um peso emocional inesperado ao processo.
Uma visita que mudou tudo
Um dos momentos mais marcantes aconteceu durante uma viagem do elenco à Grota do Angico, local histórico onde Lampião, Maria Bonita e parte do bando foram mortos. O passeio, que fazia parte da preparação para a novela, rapidamente deixou de ser apenas uma visita técnica.
Ao chegar ao local, o clima entre os atores mudou. "Ficou todo mundo calado, em silêncio. Era uma energia muito pesada", contou Isadora, em entrevista à Quem. Durante o passeio, o guia contou como tudo aconteceu, gerando comoção no grupo. "Eu chorava sem parar", relembrou.
Segundo a atriz, o ambiente despertou uma sensação difícil de explicar - como se aquele espaço ainda carregasse memórias vivas. Diante disso, decidiu conduzir uma prece. "Senti necessidade de pedir licença para aqueles espíritos, porque 100 anos, na espiritualidade, não é nada. Parecia que ainda havia presenças ali com a gente. Pedi permissão para entrar nesse universo, representar essas pessoas e honrar essas histórias", afirmou.
Música, intuição e um momento inesperado
A experiência ganhou um contorno ainda mais simbólico com a participação do músico Marco França, que também integrava o grupo. Antes mesmo da visita, ele insistiu em levar sua sanfona, apesar do calor e da dificuldade do trajeto.
No local, começou a tocar de forma espontânea - mas não da maneira que imaginava. "Ele entrou meio que em um transe. Chamava um tal de 'neném' e começou a cantar umas inelências". Contou, referindo-se aos cantos tradicionais ligados a rituais de despedida e condução das almas. O momento foi algo profundamente simbólico para o grupo.
"Quando eu perguntei que música era aquela, ele disse que queria tocar outra, mas os dedos foram para outro lugar. Ele nem sabia explicar. A gente sentiu como se aquelas almas estivessem pedindo essa libertação. Foi um início muito forte. A gente estava muito conectado, tinha intuições, sonhos, sentimentos. Foi como se a gente tivesse sido abraçado por esse sertão", relatou.
Entre o físico e o emocional
Se por um lado houve experiências espirituais, por outro, os bastidores também exigiram resistência física. Logo no início dos ensaios, Isadora enfrentou um imprevisto curioso - e doloroso. "Fui para a ambulância e não consegui gravar naquele dia. A gente aprendeu a ser muito resiliente nesse projeto", contou, ao lembrar que caiu sobre um formigueiro durante a preparação.
Segundo ela, esse tipo de situação acabou reforçando o espírito coletivo do elenco, que mergulhou na história com entrega total.
O peso de contar uma história real
Interpretando Rosa, personagem inspirada em Maria Bonita, Isadora afirma que a responsabilidade foi um dos pontos mais marcantes do trabalho. "Estava todo mundo muito envolvido de corpo e alma. Eram cenas muito densas, muito reais. E contar uma história real tem um peso muito grande", disse a atriz. Para a atriz, dar vida a personagens que existiram exigiu mais do que técnica - foi necessário acessar emoções profundas e construir uma conexão verdadeira com o contexto histórico.
Quando o sertão atravessa a ficção
Ao relembrar a experiência, Isadora resume o projeto como algo que ultrapassou o roteiro. Para ela, houve uma espécie de conexão coletiva - entre elenco, história e território - que transformou a forma de contar aquela narrativa. Mais do que interpretar personagens, o grupo viveu um processo de imersão que misturou emoção, intuição e respeito por uma história que ainda ecoa no imaginário brasileiro.