Presença de todos os componentes básicos do DNA e do RNA no asteroide Ryugu, explorado por sonda japonesa, reforça teoria de que ingredientes da vida vieram do espaço.Desde 1999 o asteroide Ryugu (162173) fascina não apenas astrônomos. Esse corpo celeste de cerca de 1 km de diâmetro e aparência angular pertence aos asteroides do tipo C, ricos em carbono (a classe de asteroides mais comum no Sistema Solar) e é considerado um candidato promissor na busca por blocos químicos a partir dos quais as primeiras formas de vida teriam se desenvolvido.
Para investigar essa possibilidade, a sonda espacial japonesa Hayabusa-2 iniciou sua missão a Ryugu em 3 de dezembro de 2014. Ela coletou amostras na superfície do asteroide e abaixo dela, iniciou a viagem de retorno em novembro de 2019 e entregou cerca de 5,4 gramas de material no sul da Austrália em dezembro de 2020.
Desde então, as amostras têm sido amplamente analisadas, e agora foram divulgados os primeiros resultados.
A equipe de pesquisa liderada pelo cientista Toshiki Koga, da Agência Japonesa para Ciência e Tecnologia Marinho-Terrestre, relata na revista Nature Astronomy que, nas amostras de Ryugu, foram encontradas pela primeira vez todas as bases nitrogenadas - os blocos também chamados de nucleobases que formam o DNA e o RNA e são, portanto, a base da vida. Além da uracila, já detectada em 2023, foram identificadas também a adenina, a guanina, a citosina e a timina.
Koga, porém, alerta contra conclusões precipitadas. "Isso não significa que já tenha existido vida em Ryugu", afirma. Em vez disso, o achado mostra "que asteroides primitivos puderam gerar e preservar moléculas que são importantes para a química relacionada à origem da vida".
Os resultados se encaixam no quadro geral: nucleobases já haviam sido encontradas no material do asteroide Bennu, pesquisado pela Nasa, bem como nos meteoritos Orgueil e Murchison. No entanto, o novo estudo fornece a evidência mais abrangente sobre a distribuição dessas moléculas no Sistema Solar, pois, pela primeira vez, foram realizadas comparações sistemáticas com Bennu, Orgueil e Murchison.
Uma relação inesperada
A equipe também comparou as quantidades das nucleobases nos variados tipos de rochas espaciais e constatou que asteroides e meteoritos apresentam "misturas" muito diferentes desses compostos. Ryugu, por exemplo, possui uma proporção quase equilibrada dessas moléculas, enquanto outros corpos celestes são dominados por alguns tipos específicos. Isso mostra que cada um tem uma história química própria.
Além disso foi identificada uma relação entre a composição das nucleobases e a concentração de amônia - outra substância importante para a vida - nas amostras. Ainda não está claro por que essa relação existe, mas ela pode indicar a existência de um processo ainda desconhecido, por meio do qual esses blocos químicos podem ter surgido muito cedo no Sistema Solar, explica Koga.
A astrobióloga Morgan Cable, da Victoria University of Wellington, na Nova Zelândia, que não participou do estudo, descreve o achado como "único". Ele abre novas perspectivas sobre "como moléculas biologicamente importantes podem ter se formado e contribuído para o surgimento da vida na Terra".
Laboratórios químicos cósmicos
Missões como Hayabusa-2 e Osiris-Rex (que trouxe à Terra material do asteroide Bennu) estão fornecendo cada vez mais indícios de que asteroides podem ter funcionado como laboratórios químicos cósmicos, possivelmente fornecendo os ingredientes para o surgimento da vida na Terra.
O astrobiólogo César Menor-Salván, da Universidade de Alcalá, na Espanha, contextualiza os achados da seguinte forma: tais moléculas aparentemente se formam com facilidade sob condições pré-bióticas - ou seja, antes de existir vida - provavelmente em todo o universo. Contudo, isso não significa que a vida tenha surgido no espaço. É mais provável que asteroides tenham fornecido as matérias-primas orgânicas a partir das quais os primeiros processos bioquímicos se desenvolveram na Terra.