Um comportamento curioso registrado por câmeras surpreendeu pesquisadores na Espanha: fêmeas de lince-ibérico foram flagradas mergulhando suas presas em água antes da refeição, algo até então nunca documentado para carnívoros.
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As imagens foram captadas por armadilhas fotográficas instaladas em áreas naturais do centro do país, próximo a pontos de água. Em um dos registros, uma fêmea aparece levando um coelho recém-capturado até um bebedouro e submergindo o animal antes de se alimentar.
Embora comportamentos semelhantes, como "lavar" comida, já tenham sido observados em espécies como primatas, aves e até guaxinins, eles costumam ocorrer entre animais com dietas mais variadas. No caso de predadores, a regra é outra: a presa geralmente é consumida logo após a captura, sem esse tipo de manipulação.
O que chamou ainda mais a atenção dos cientistas foi a repetição do comportamento. Nos Montes de Toledo, diferentes fêmeas foram registradas fazendo o mesmo gesto ao longo dos anos. Desde o primeiro caso, em 2020, já foram identificados ao menos oito episódios, envolvendo cinco animais distintos em locais diferentes.
A recorrência levanta uma série de hipóteses, mas nenhuma foi confirmada até o momento. Os pesquisadores descartam, por exemplo, que a prática esteja ligada a condições climáticas, como calor extremo ou seca, já que não houve padrão nas temperaturas nos dias dos registros. Também não há relatos semelhantes em outras populações da espécie.
"Todos os eventos registrados envolveram fêmeas, seja em territórios vizinhos aos de outras fêmeas que já apresentavam esse comportamento, seja entre suas descendentes, onde ele foi documentado de forma independente", explicam os autores do estudo publicado pelo Ecology Society of America.
Uma das possibilidades é que o comportamento represente uma forma rara de "cultura animal", transmitida entre indivíduos com algum grau de proximidade, mesmo em uma espécie conhecida por hábitos solitários. Outra hipótese considera o papel das fêmeas na criação dos filhotes: mergulhar a presa poderia facilitar a transição do leite para alimentos sólidos, especialmente em períodos mais secos.
Para investigar, os cientistas realizaram testes experimentais com carcaças de coelho, avaliando a retenção de água após a imersão. "A imersão também resultou em retenção mensurável de água: após um mergulho de 15 segundos seguido de exposição ao sol direto, a água retida caiu de 1,91% para apenas 0,3% do peso corporal em 20 minutos. Em condições de sombra e com um mergulho mais longo, de 30 segundos (semelhante ao observado na natureza), a retenção diminuiu mais lentamente, de 5,14% para 3,7% após 40 minutos", explicam.
Apesar dos resultados, os próprios pesquisadores destacam que o experimento é inicial e não permite afirmar com certeza a função do comportamento.