Verdun: a batalha que virou símbolo de massacre sem sentido

21 fev 2026 - 09h10
(atualizado às 09h15)

Há 110 anos, ataque alemão contra franceses, iniciava um dos confrontos mais sangrentos da Primeira Guerra: mais de 300 mil mortos e nenhum vencedor. Embate virou sinônimo da irracionalidade da guerra.Há exatos 110 anos, em 21 de fevereiro de 1916, um forte ataque abalava no início da manhã os fortes e trincheiras da pequena cidade francesa de Verdun. Os alemães levaram 300 vagões de munição e dispararam de todas as suas armas, durante horas. A 150 quilômetros de distância era possível escutar o estrondo dos canhões.

Soldados franceses na trincheira durante a Batalha de Verdun
Soldados franceses na trincheira durante a Batalha de Verdun
Foto: DW / Deutsche Welle

A ordem de atacar os franceses fora dada pelo chefe do Estado-Maior alemão, Erich von Falkenhayn. Ele queria pôr fim à guerra de posições que, desde setembro de 1914 - poucos meses após o início da Primeira Guerra Mundial -, se arrastava na frente ocidental entre a Bélgica e a França.

Publicidade

A intenção de Falkenhayn era romper o front e retornar à guerra de movimento, como explica o historiador Olaf Jessen, autor de um livro sobre a Batalha de Verdun publicado em alemão.

Mas em vez disso, alemães e franceses passariam os próximos dez meses travando uma luta feroz por cada vilarejo e cada colina.

Presos no "inferno de Verdun"

Dali em diante, a batalha tornaria‑se o símbolo de um massacre sem sentido. Durante a extenuante guerra de trincheiras, os soldados têm seus nervos consumidos por ratos, piolhos, frio e má alimentação. A morte é sua companheira constante, e o inimigo está, muitas vezes, a apenas 30 metros de distância.

Publicidade

A artilharia mais moderna deveria decidir a batalha - morteiros pesados, além de lança‑chamas e metralhadoras. Sobre os menos de 30 quilômetros quadrados de trincheiras chovem 26 milhões de granadas explosivas e 100 mil granadas de gás tóxico.

No verão, o odor pungente de cadáveres paira sobre o campo de batalha; partes de corpos em decomposição, arremessadas pela pressão das bombas, pendem dos galhos das árvores queimadas. No inverno, a água ou lama gelada alcança os soldados até os joelhos. As tropas enfrentam a fome e a sede, e bebem de poças de chuva nas quais, entre carcaças de cavalos, seus camaradas sangravam até morrer.

Ali, o ser humano era "mero material de guerra", observa Jessen. "Essa experiência desumana ficou gravada na memória coletiva com termos como 'moinho de sangue' e 'inferno de Verdun'."

O horror também transparece nas cartas de soldados a entes queridos.

"Verdun, uma palavra terrível! Incontáveis pessoas, jovens e cheias de esperança, tiveram de entregar aqui suas vidas; seus [ossos] agora apodrecem em algum lugar, entre posições, em valas comuns, em cemitérios", escreve o estudante de teologia Paul Boelicke, de 20 anos, à sua família. "O front oscila: hoje o inimigo está na colina, amanhã [seremos] nós; sempre há aqui um combate desesperado. Alguns, que ainda há pouco se alegravam com o sol quente, logo ouviam urros e choros se aproximando de algum lugar. Acabaram‑se todos os sonhos de paz e lar; o homem vira verme e procura o buraco mais profundo. Campos de bombardeio e de batalha onde nada se vê além de fumaça sufocante, gás, torrões de terra e trapos voando pelo ar, rodopiando selvagemente: isto é Verdun."

Publicidade

Uma batalha "anormalmente cruel"

A Batalha de Verdun deixou mais de 300 mil mortos e mais de 400 mil feridos.

No fim, em 18 de dezembro de 1916, passados dez meses e após incontáveis impactos de artilharia, a área parecia uma paisagem lunar.

"A batalha foi anormalmente cruel", diz Jessen. "Mesmo para os padrões da Primeira Guerra Mundial. Também os números de vítimas tão altos: que tantas pessoas tenham morrido em tão poucos quilômetros quadrados - isso não aconteceu em nenhum outro lugar naquela época."

No início, os alemães até lograram avançar, mas "depois os franceses reconquistaram quase todo o terreno que os alemães haviam conquistado durante meses com grandes perdas", afirma Jessen.

"Depois de 300 dias e 300 noites, o lado alemão estava praticamente de volta ao ponto em que a ofensiva havia começado, em 21 de fevereiro de 1916." Um dos motivos foi a longa permanência dos soldados alemães no front: "A moral de combate dos alemães estava arrasada pelo esgotamento."

Publicidade

O adversário de Falkenhayn, Philippe Pétain, o defensor de Verdun, adotou desde o início um sistema de rotação dos soldados. Ele envolveu literalmente toda a nação na batalha no leste da França. Quase todo soldado francês foi enviado às trincheiras diante de Verdun - mas pôde deixá‑las novamente após poucos dias, explica Jessen, para "evitar que o cansaço e a desmoralização surgissem tão rapidamente".

Deixar o inimigo "sangrar"

Como a estratégia ofensiva de Falkenhayn fracassou, ele foi deposto em 29 de agosto de 1916 como chefe do Estado-Maior alemão. No lugar dele, assumiu o general Paul von Hindenburg. Tropas alemãs já eram necessárias em outros lugares, especialmente na frente de batalha em Somme, onde tropas britânicas haviam iniciado uma ofensiva em junho de 1916 para aliviar os franceses em Verdun.

Finda a Batalha de Verdun, Falkenhayn ainda tentaria, anos mais tarde, atenuar sua inglória atuação e o fracasso das tropas alemãs. Em suas memórias, o oficial escreveu que pretendia fazer o exército francês "sangrar": "Se, para dois soldados alemães mortos, cinco franceses tivessem de sangrar, isso seria algo bom e promissor."

Para os veteranos sobreviventes, aquela declaração era uma "traição", relata Jessen. "Tiveram de ler que um de seus principais generais os via apenas como material humano", afirma.

Publicidade

Ponto de virada na Primeira Guerra

Segundo Jessen, apesar de não ter sido uma batalha decisiva, Verdun foi um "marco muito, muito importante na história da Primeira Guerra Mundial", "uma espécie de ponto de virada rumo à derrota alemã" que, além disso, "deslocou o equilíbrio de poder na Alemanha em direção a uma ditadura militar e acelerou a entrada dos Estados Unidos na guerra".

O confronto em Verdun também alimentou a chamada "lenda da punhalada nas costas" (em alemão: Dolchstosslegende), espalhada deliberadamente pelo comando militar - que para não admitir sua responsabilidade pelo fracasso alemão na Primeira Guerra propagou, a partir de 1918, a imagem de um exército invencível traído por social-democratas e judeus.

Símbolo da irracionalidade da guerra

Hoje, Verdun é para os alemães sinônimo da absoluta falta de sentido da guerra; já na França, a batalha é lembrada com um sentimento de união nacional e até de vitória — embora, na realidade, tenha sido um impasse militar pago com sofrimento desumano.

Em 1932, foi inaugurado na cidade um monumento onde repousam os ossos de inúmeros soldados desconhecidos. Desde 1967, o Memorial de Verdun lembra os mortos no confronto.

Publicidade

Em 1914, no início da Primeira Guerra Mundial, o autor britânico H. G. Wells cunhou a frase "The war that will end war" ("A guerra que acabará com a guerra"). Mas se algum dos soldados franceses ou alemães que caíram em Verdun acreditava nisso, enganou‑se.

Mais de cem anos depois, voltam a surgir imagens de uma guerra estagnada na Europa — não em fotos históricas em preto e branco, mas em registros modernos da Ucrânia.

"Ao olhar imagens atuais do Donbass, veem-se grandes paralelos", diz Jessen.

Em Verdun, a insistência de alemães e franceses na vitória foi uma aposta levada às últimas consequências porque cada lado acreditava precisar dela para "compensar as perdas horrendas" em seus exércitos, enquanto apostava no "colapso psicológico e político do adversário".

"Isso lembra muito a situação na Ucrânia e na Rússia. Também ali, no momento, não vejo como romper [o impasse]", compara o historiador.

Publicidade

Antes inimigos mortais, Alemanha e França são hoje bons amigos. Jessen diz esperar que as pessoas aprendam com a história.

A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
TAGS
Fique por dentro das principais notícias
Ativar notificações