Trump e Lula na Casa Branca: uma relação baseada no pragmatismo e um cálculo regional mais amplo

A reunião bilateral entre os dois presidentes enviou um sinal claro ao público interno de Lula: a relação com Washington não está rompida e não precisa de um Bolsonaro para ser consertada

7 mai 2026 - 23h30
O presidente brasileiro Lula da Silva cumprimenta o presidente dos EUA, Donald Trump, na chegada à Casa Branca: viagem também tem uma segunda função, igualmente importante para Lula, já que cada ponto da agenda bilateral se relaciona diretamente com uma questão eleitoral interna. Ricardo Stuckert/PR, CC BY
O presidente brasileiro Lula da Silva cumprimenta o presidente dos EUA, Donald Trump, na chegada à Casa Branca: viagem também tem uma segunda função, igualmente importante para Lula, já que cada ponto da agenda bilateral se relaciona diretamente com uma questão eleitoral interna. Ricardo Stuckert/PR, CC BY
Foto: The Conversation

Durante as cerca de três horas de conversas reservadas entre o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente americano Donald Trump na Casa Branca nesta quinta-feira, 7 de maio de 2026, muitos observadores nos dois países ficaram de prontidão. Como não houve declaração conjunta oficial nem coletiva de imprensa, ninguém sabia o que esperar. Apesar da "química" entre os dois presidentes desde o breve encontro na Assembleia Geral das Nações Unidas em setembro passado, as tensões bilaterais estavam longe de resolvidas.

O encontro poderia ter tomado muitos rumos: na superfície, Brasil e Estados Unidos se encontram hoje mais como rivais geopolíticos do que como aliados. Nos últimos meses, Lula não poupou críticas ao que enxergava como um renovado unilateralismo americano. O governo Trump, por sua vez, pareceu receptivo às demandas da família Bolsonaro em relação à liberdade de expressão e ao crime organizado.

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Mas Lula queria que a conversa desse certo — não tanto por preocupações diplomáticas, mas porque enfrenta uma batalha difícil antes das eleições gerais de outubro. Sua viagem a Washington foi, acima de tudo, uma operação política doméstica. Mesmo que o encontro tenha carecido de resultados concretos, a atmosfera positiva relatada por ambos os presidentes representou uma vitória para Lula no contexto de uma corrida presidencial que já se anuncia como uma das mais decisivas da história recente do Brasil.

Flávio Bolsonaro, o filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro, apresenta um desafio eleitoral considerável. As pesquisas o mostram em empate técnico com Lula num eventual segundo turno — posição notável para um candidato cuja herança política inclui um pai condenado por tentativa de golpe de Estado.

O senador de extrema-direita fez diversas viagens aos Estados Unidos nos últimos meses, incluindo uma participação na conferência conservadora do CPAC, projetando-se como o candidato capaz de restaurar a relação do Brasil com Washington após anos do que descreve como o anti-americanismo de Lula. Sua mensagem ao eleitorado brasileiro é simples e poderosa: só um Bolsonaro consegue trabalhar com Trump.

Essa narrativa encontrou terreno fértil num eleitorado brasileiro cada vez mais atento aos alinhamentos geopolíticos. Este não é o Brasil dos ciclos eleitorais anteriores, onde a política externa era uma nota de rodapé.

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Tábua de salvação para Bolsonaro

Desde o retorno de Trump à Casa Branca, o movimento bolsonarista passou a retratá-lo como uma tábua de salvação — capaz não apenas de manter Jair Bolsonaro fora da prisão, mas também de impulsionar o renascimento do bolsonarismo. Flávio teria prometido concessões significativas a Washington em minérios de terras raras, designações de narcoterrorismo e comércio, apresentando-as como prova de lealdade a um governo que a família Bolsonaro considera amigável e ideologicamente próximo.

Se Trump retribuirá ou não essa lealdade de forma concreta é quase irrelevante. A imagem de membros da dinastia Bolsonaro em Washington, recebidos com entusiasmo pelo establishment MAGA, já é, por si só, um ativo eleitoral.

Lula viajou a Washington justamente para neutralizar essa narrativa. Ao garantir um encontro na Casa Branca, o presidente brasileiro enviou um sinal claro ao seu público doméstico: a relação com Washington não está rompida, e não precisa de um Bolsonaro para ser reparada. A coletiva de imprensa exclusivamente brasileira que se seguiu ao encontro só serviu para reforçar esse ponto.

Mas a viagem cumpre uma segunda função, igualmente importante. Cada item da agenda bilateral corresponde diretamente a uma linha de fratura eleitoral doméstica para Lula. Em relação ao comércio e às tarifas, o presidente volta para casa podendo afirmar que lutou para proteger exportadores e consumidores brasileiros das pressões inflacionárias de uma guerra comercial. Em relação ao crime organizado — especificamente a possível designação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras pelos EUA — Lula pode se apresentar como defensor da soberania brasileira e da autonomia judicial, resistindo à interferência externa na política de segurança doméstica. Em relação aos minérios de terras raras e recursos estratégicos, o presidente pode ressignificar o que é, em essência, uma negociação sobre dependência econômica como uma narrativa de crescente protagonismo geopolítico do Brasil.

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E no que diz respeito à própria democracia, o contraste com a família Bolsonaro não poderia ser mais flagrante: enquanto o pai encontra-se em prisão domiciliar por ter conspirado um golpe, eles não conseguiram impedir que Lula fosse recebido em Washington como um chefe de Estado legítimo — e bem-vindo.

Pragmatismo político

Seria um erro, no entanto, reduzir a disposição de Trump em receber Lula a mera cortesia diplomática. O governo Trump tem demonstrado um pragmatismo consistente por baixo de sua postura ideológica. Sua gestão das relações com o México de Claudia Sheinbaum, seu engajamento intermitente com a Venezuela e, agora, sua recepção a Lula sugerem que a Casa Branca é capaz de trabalhar com adversários ideológicos quando os interesses estratégicos assim o exigem.

O Brasil, a maior economia da América do Sul e um país com reservas substanciais de minerais críticos que Washington cobiça para suas cadeias de suprimento industrial e de defesa, é importante demais para ser refém de simpatias eleitorais pela família Bolsonaro. Há também um cálculo regional mais amplo: à medida que os Estados Unidos afirmam sua primazia na América Latina por meio do que ficou conhecido como "Corolário Trump", ter um governo brasileiro cooperativo é consideravelmente mais útil do que um país desestabilizado.

Nada disso significa que a aposta de Lula em Washington terá sucesso eleitoral. Flávio Bolsonaro tem se mostrado um candidato mais disciplinado e adaptável do que seu pai, e as redes transnacionais que animam o movimento bolsonarista se estendem muito além de Washington. Uma única foto na Casa Branca tem peso limitado.

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O que a viagem ilustra, no entanto, é o grau em que a política eleitoral brasileira se tornou inseparável da disputa global por alinhamento, soberania e patrocínio das grandes potências. Nessa disputa, Lula fez seu movimento. Dificilmente mudará a cabeça de quem, à esquerda ou à direita, já decidiu em qual candidato votar. Mas mostra ao eleitor de centro, se é que mostra algo, que uma defesa pragmática da soberania brasileira pode ser muito mais eficiente do que a submissão ideológica a interesses estrangeiros.

The Conversation
Foto: The Conversation

Guilherme Casarões não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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