A Venezuela apresenta uma vulnerabilidade bem documentada a terremotos. O país está situado na fronteira entre as placas tectônicas do Caribe e da América do Sul, o que pode resultar em tremores frequentes e já provocou catástrofes históricas decorrentes de terremotos. Mas a experiência de um "duplet", um par de terremotos de magnitude 7,2 e 7,5 com 40 segundos de intervalo, em 24 de junho, foi uma tragédia rara.
Partindo de um epicentro na cidade de San Felipe, no noroeste do país, o impacto varreu a costa caribenha da Venezuela com força devastadora. A histórica cidade portuária e turística de La Guaira, onde vivem cerca de 200 mil pessoas, foi declarada zona de desastre.
Na capital Caracas, que fica a aproximadamente 30 km de La Guaira, prédios desabaram nos subúrbios outrora prósperos de Altamira, San Bernardino, Baruta e Chacao. O aeroporto nacional, Maiquetia, também foi fechado devido aos danos extensos.
Embora tenha havido alguns focos de resiliência, estima-se que dois terços dos residentes venezuelanos vivam em assentamentos informais. Isso é resultado da rápida urbanização da Venezuela nas décadas de 1960 e 1970 e da escassez de moradias que se seguiu.
Oficialmente, pelo menos 235 pessoas morreram e outras 30 mil estão desaparecidas. O Serviço Geológico dos Estados Unidos estima que até 10.000 pessoas possam ter morrido em um desastre dessa magnitude.
Os dois terremotos atingiram o noroeste da Venezuela, com o impacto sentido ao longo da costa caribenha do país.Peter Hermes Furian / ShutterstockOs terremotos acrescentam uma nova e trágica dimensão à crise humanitária já existente no país — uma crise que esgotou gravemente a capacidade do Estado e da sociedade venezuelanos de se prepararem e responderem a desastres naturais.
Os anos da presidência de Nicolás Maduro, que se estenderam de 2013 até sua destituição pelos EUA sob a mira de armas em janeiro de 2026, foram marcados pelo colapso econômico. A hiperinflação, a escassez de produtos e a repressão autoritária a protestos contribuíram para uma situação em que aproximadamente um quarto da população fugiu do país nos últimos anos.
A fragilidade econômica da Venezuela é, em última instância, resultado da incompetência política e da corrupção. Mas ela foi agravada pelas sanções financeiras e petrolíferas esmagadoras impostas pelos EUA durante o primeiro mandato de Donald Trump.
O regime abrangente de sanções fez com que, nos últimos nove anos, a Venezuela ficasse isolada dos mercados financeiros e de energia. Muitas de suas exportações e importações foram posteriormente bloqueadas.
Somado à contínua má gestão e ao subinvestimento em infraestrutura e serviços públicos que foram nacionalizados pelo antecessor de Maduro, Hugo Chávez, isso levou a um acúmulo de problemas que se estendem por todo o setor público. Entre eles estão hospitais com falta de medicamentos, pessoal, energia elétrica e água.
No momento, a energia e a atenção estão voltadas para os esforços de busca e resgate. Mas este é um momento politicamente delicado para a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez. Cada etapa da resposta humanitária traz sérios desafios logísticos.
Há escassez de equipamentos mecânicos para auxiliar nas operações de recuperação, em grande parte devido à falta de peças de reposição e de diesel. Há poucas ambulâncias, os hospitais estão sobrecarregados e os abrigos seguros para os deslocados são limitados. O acesso a alimentos e água potável está gravemente comprometido, e são previstas chuvas fortes.
Ao mesmo tempo, as Forças Armadas, a polícia e a guarda nacional da Venezuela estão em estado de alerta desde o retorno de Trump ao cargo. Seu foco principal tem sido respostas defensivas ao que, pelo menos até a captura de Maduro, era uma invasão militar dos EUA amplamente antecipada.
Isso ocorreu em detrimento do aprimoramento das habilidades necessárias para implementar a estrutura global "WASH" de resposta a desastres naturais, por meio do fornecimento de água potável, da construção de latrinas de emergência e da promoção de práticas de higiene seguras. Existe, portanto, um risco muito real de doenças e escassez de alimentos nos próximos dias e semanas, sem apoio externo urgente.
A possibilidade de desordem, saques e uma degradação ainda maior da situação de segurança é outra grave preocupação. Desde a destituição de Maduro, o setor de segurança pró-governo da Venezuela não foi testado por protestos ou manifestações da oposição.
Mas as cadeias de comando foram interrompidas na turbulência da mudança política, e a confiança do público nas Forças Armadas é baixa.
Os EUA têm a chave
Os EUA são o árbitro final da capacidade de resposta da Venezuela. Tendo assumido o controle da receita de exportação de petróleo da Venezuela após a tomada do poder com a captura de Maduro e ainda mantendo um regime de sanções, os EUA ditam quais recursos podem ser recebidos e como devem ser gastos.
E embora a Venezuela tenha exportado cerca de 100 milhões de barris de petróleo desde a destituição de Maduro, no valor estimado de US$ 8 bilhões (cerca de R$ 41 bilhões), o governo Trump não revelou publicamente quanto de receita realmente arrecadou.
Também não divulgou quanto dessa receita foi repassado aos poucos para Caracas. O acesso restrito a esses fundos impedirá o desembolso de ajuda financeira e humanitária às áreas afetadas pelo terremoto.
Trump anunciou que US$ 150 milhões em assistência serão mobilizados para a Venezuela e que os Departamentos de Guerra e de Estado dos EUA estão coordenando o apoio humanitário. Esses recursos têm que ser recebidos rapidamente para que a frustração popular com o processo de mudança de regime promovido pelos EUA não se transforme em revolta generalizada, e para que os planos dos EUA de deportar migrantes venezuelanos continuem em andamento.
Daqui para frente, sem dúvida haverá grande atenção voltada para o legado de corrupção e subinvestimento que tornou a Venezuela tão catastroficamente vulnerável e debilitada diante dos terremotos.
Isso inclui a qualidade dos edifícios entregues no âmbito da Gran Misión Vivienda Venezuela, a missão de construção de moradias lançada por Chávez em 2011, que afirma ter entregue mais de 1 milhão de novas moradias. Mas tal investigação será complexa, enfrentará resistência política e, atualmente, está bem baixo na lista de prioridades.
Julia Buxton não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.