Tensão entre EUA e Irã expõe fragilidades estratégicas do BRICS e da diplomacia brasileira

A presença do Irã no BRICS Plus reforça a ambição do grupo de atuar como espaço de coordenação política fora do eixo euro-atlântico. Ataque americano ao Irã colocaria essa estratégia a perder

15 jan 2026 - 18h10

A relação da diplomacia brasileira com o Irã costuma provocar leituras apressadas, frequentemente filtradas por juízos morais ou por expectativas de alinhamento automático às potências ocidentais. Essa abordagem ignora a lógica estrutural que orienta a política externa do governo Lula e subestima o peso geopolítico de um cenário marcado por disputas sistêmicas, erosão da ordem liberal e reorganização do Sul Global. O diálogo com Teerã não decorre somente da afinidade ideológica como muitos erroneamente advogam. Trata-se, principalmente, de cálculo estratégico em um ambiente internacional fragmentado.

Desde o retorno de Lula ao Planalto, a política externa brasileira retomou o eixo da autonomia estratégica, buscando ampliar margens de manobra em um sistema internacional cada vez mais hierarquizado. O fortalecimento do BRICS Plus ocupa lugar central nessa estratégia.

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A incorporação do Irã ao bloco em 2024 representa a integração de um ator regional resiliente, submetido a sanções prolongadas, dotado de capacidade de projeção geopolítica e situado em um dos principais corredores energéticos do mundo. A presença iraniana reforça a ambição do BRICS Plus de atuar como espaço de coordenação política fora do eixo euro-atlântico.

BRICS carece de instrumentos de resposta a crises

Esse arranjo, contudo, revela fragilidades estruturais. O BRICS Plus carece de mecanismos efetivos de coordenação estratégica e de instrumentos coletivos de resposta a crises de segurança. Um eventual ataque norteamericano contra o Irã funcionaria como (novo) teste crítico dessa arquitetura.

A agressão a um membro recente do bloco exporia, de forma imediata, a incapacidade do grupo de reagir de maneira coordenada, aprofundando fissuras internas entre potências globais, potências regionais e economias médias.

Nesse cenário, o impacto ultrapassaria o plano regional do Oriente Médio. A credibilidade do Sul Global como projeto político sofreria abalo significativo. A narrativa de autonomia, cooperação Sul-Sul e contestação da ordem internacional vigente perderia densidade diante da constatação de que seus membros permanecem vulneráveis à coerção militar das grandes potências.

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A lógica da dissuasão continuaria concentrada no Norte Global, enquanto os países do Sul seriam empurrados para estratégias defensivas, incluso individuais, enfraquecendo qualquer pretensão realmente efetiva de ação coletiva.

Brasil perderia confiabilidade como mediador

Para o Brasil, as consequências seriam particularmente sensíveis. A diplomacia do governo Lula investe na imagem de mediador confiável, defensor do diálogo e crítico do uso unilateral da força. Um ataque ao Irã colocaria essa estratégia sob tensão.

A condenação formal da violência entraria em choque com a limitada capacidade de influência efetiva sobre os acontecimentos, revelando os limites práticos da liderança brasileira em coalizões heterogêneas. O discurso da reforma da governança global encontraria obstáculos adicionais em um contexto demilitarização crescente das relações internacionais.

A situação também afetaria a coesão interna do BRICS Plus. Países com maior exposição econômica ao Ocidente tenderiam a adotar posturas cautelosas, enquanto Estados diretamente afetados por sanções ou ameaças militares buscariam respostas mais assertivas. Essa assimetria de interesses dificultaria consensos mínimos e reduziria a funcionalidade política do bloco. O resultado seria um BRICS Plus menos coeso, mais fragmentado e com capacidade reduzida de atuação coordenada em crises internacionais.

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Nesse ambiente, o pragmatismo brasileiro ganha contornos defensivos. O diálogo com o Irã passa a ser compreendido como instrumento de preservação de canais diplomáticos e de contenção de escaladas, não como endosso a práticas internas repressivas.

Diplomacia brasileira foge de riscos e rupturas

A diplomacia brasileira opera sob a lógica da gestão de riscos sistêmicos, buscando evitar rupturas que agravem a instabilidade global e comprometam projetos de longo prazo associados ao Sul Global.

A eventual ofensiva norteamericana contra o Irã também teria efeitos indiretos sobre a agenda econômica internacional. A volatilidade nos mercados de energia, o encarecimento de cadeias logísticas e o aumento daincerteza financeira atingiriam com maior intensidade economias periféricas.

Esse contexto reforçaria dependências estruturais e reduziria o espaço para políticas externas autônomas, exatamente no momento em que o governo Lula tenta reposicionar o Brasil como ator relevante em um mundo multipolar.

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A insistência brasileira no diálogo, na não intervenção e na mediação revela, portanto, menos idealismo do que leitura realista das assimetrias globais. O enfraquecimento do Sul Global diante de uma escalada militar no Irã não seria um efeito colateral, mas consequência direta da ausência de mecanismos coletivos de proteção e da lamentavel persistência de uma ordem internacional baseada na força. Nesse contexto, a diplomacia brasileira tenta administrar contradições, consciente de que o custo da fragmentação do BRICS Plus recairia, de forma desproporcional, sobre países que apostaram na construção de alternativas aostatus quo global.

The Conversation
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Foto: The Conversation

Armando Alvares Garcia Júnior não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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