TEA no radar: pesquisa brasileira pode abrir uma nova categoria de produto

*Por Guillermo Glassman

11 fev 2026 - 05h53

O caso da polilaminina chamou a atenção da comunidade científica e do mercado para o potencial do Brasil para a inovação radical em saúde no TEA. Mais do que o produto em si, o caso virou um símbolo de que há espaço para inovação de alto potencial no país, inclusive em áreas onde o mundo ainda está carente de soluções. É nessa mesma direção que se encaixa a pesquisa liderada por Deivis O. Guimarães, voltada ao desenvolvimento de uma aplicação específica para o manejo de sintomas do Transtorno do Espectro Autista. A proposta combina um mix probiótico com nanotecnologia proprietária que demostraram melhoria expressiva nas manifestações de TEA, com publicação recentemente aprovada pela Springer Nature, uma das revistas científicas mais respeitadas no mundo . O potencial aqui é duplo, porque toca um campo com enorme demanda por soluções específicas e, ao mesmo tempo, estrutura um ativo intangível brasileiro com vocação de escala.

Deivis O. Guimarães
Deivis O. Guimarães
Foto: Divulgação / Perfil Brasil

A pesquisa é especialmente relevante porque o TEA continua sendo um dos terrenos mais difíceis para o desenvolvimento de intervenções específicas. Há grande variação entre pacientes, com perfis muito distintos de comunicação, comportamento e comorbidades, e o transtorno envolve múltiplas camadas biológicas que podem se manifestar de formas diferentes em cada indivíduo. Isso torna mais difícil definir quem deve ser incluído nos estudos, como estratificar a amostra e, sobretudo, o que exatamente deve ser medido como resultado clínico relevante.

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A consequência prática é conhecida por quem acompanha o setor. Ensaios clínicos em TEA tendem a ser longos e custosos, exigem desenho cuidadoso, sofrem com taxas elevadas de descontinuidade e, não raro, produzem resultados ambíguos. Além disso, mesmo quando há algum sinal de benefício, a tradução desse sinal em aprovação regulatória e em adoção clínica ampla é complexa, porque a mensuração de melhora nem sempre é linear. Por isso, o mercado acaba se apoiando principalmente em terapias comportamentais e em medicamentos que foram concebidos para outras indicações sem atacar o problema com uma proposta desenhada especificamente para o TEA.

Além do caráter disruptivo do ponto de vista científico, essa pesquisa apresenta um potencial econômico expressivo. O mercado global relacionado ao TEA movimenta bilhões de dólares por ano e cresce de forma consistente. Proteger e estruturar juridicamente ativos intangíveis dessa natureza, desenvolvidos no Brasil, é um desafio adicional. O país ainda possui poucos precedentes de tecnologias verdadeiramente disruptivas em saúde que tenham percorrido todo o caminho entre a "bancada" e o mercado global.

Quando a base tecnológica envolve probióticos, a estratégia precisa ser ainda mais cirúrgica. Há limites jurídicos e práticos para reivindicar, de forma ampla, seres vivos e combinações microbianas. Isso empurra a proteção para aquilo que é efetivamente "engenharia" da solução, como composição, parâmetros de processo, condições de cultivo e estabilização. O ponto sensível é que o valor industrial do probiótico quase nunca está só na lista de microrganismos, mas no conjunto que torna o produto reproduzível, escalável e estável ao longo do tempo.

O que se vê aqui é o início de uma trajetória com potencial para redefinir um segmento que ainda carece de alternativas específicas. Em tecnologia de saúde, as oportunidades realmente relevantes raramente surgem "prontas". Elas se formam quando a evidência começa a se consolidar, quando os próximos marcos ficam claros e quando o caminho de escala passa a ser desenhado com mais nitidez. Por isso, vale acompanhar de perto a evolução dessa pesquisa e os produtos que devem emergir a partir dela.

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*Por Guillermo Glassman - sócio da área de Life Sciences do L.O. Baptista

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião de Perfil Brasil.
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