Sudeste Asiático une forças contra cartéis de golpes online

12 ago 2026 - 15h32

Redes criminosas se enraizaram na região e cresceram demais para se limitar a assunto de polícia. Tentáculos chegam também ao Brasil, onde trabalhadores forçados foram capturados para aplicar fraudes.Por anos, governos do Sudeste Asiático trataram os fraudadores online da região principalmente como assunto para a polícia, agências de combate ao tráfico de pessoas e autoridades de fronteira. Mas esses órgãos aparentemente não conseguiram conter o crescimento dos cartéis internacionais de golpes cibernéticos.

Na mira das autoridades, indústria das fraudes cibernéticas tem como epicentro mundial o Sudeste Asiático
Na mira das autoridades, indústria das fraudes cibernéticas tem como epicentro mundial o Sudeste Asiático
Foto: DW / Deutsche Welle

A indústria ilícita utiliza cada vez mais sistemas bancários internacionais, criptomoedas, redes de telecomunicações, empresas de fachada e rotas de tráfico humano, enquanto alguns de seus centros de golpes (conhecidos como scam centers) operam sob a proteção de grupos armados ou politicamente influentes.

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Os tentáculos destas redes se estendem pelo planeta, inclusive até o Brasil. Neste ano, elas entraram na mira da Polícia Federal brasileira depois que o Itamaraty repatriou brasileiros que foram traficados até a região de fronteira entre Camboja e Vietnã. Atraídas por falsas ofertas de emprego, as vítimas eram submetidas, nestes centros de golpe, a trabalho forçado, sendo obrigadas a aplicar fraudes cibernéticas sob privação de liberdade, agressões e ameaças.

Agora, os governos da Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean, na sigla em inglês) parecem cada vez mais dispostos a enfrentar a ameaça de forma conjunta.

Conversas entre governos

Sinais dessa mudança ficaram evidentes numa reunião realizada em Bangcoc, na semana passada, entre o primeiro-ministro da Tailândia, Anutin Charnvirakul, e o presidente Min Aung Hlaing, chefe do governo militar de Mianmar.

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Os dois lados concordaram em intensificar o combate aos centros de golpes localizados ao longo da fronteira comum, trocar informações e interromper conjuntamente os fluxos financeiros criminosos.

A Tailândia também ofereceu apoio à participação de Mianmar no Grupo Egmont, uma rede internacional de unidades de inteligência financeira. O Parlamento birmanês, apoiado pelos militares, já havia aprovado a aplicação da pena de morte para pessoas flagradas operando centros de golpes na internet.

Durante visita ao Camboja no fim de julho, o vice-ministro das Relações Exteriores da Indonésia, Arif Havas Oegroseno, propusera a criação de uma força-tarefa conjunta para combater estas quadrilhas.

Já na semana passada, o presidente da Indonésia, Prabowo Subianto, e o tailandês Charnvirakul, realizaram conversas em Jacarta. Eles concordaram que seus países devem liderar os esforços para fortalecer a capacidade da Asean de resistir à atuação desses grupos.

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Ameaça à segurança econômica

Só em 2025, as fraudes cibernéticas provocaram perdas globais estimadas em algo entre 88,3 e 114,1 bilhões de dólares (R$ 457 e R$ 591 bilhões), segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). Uma parte relevante do setor tem sede no Sudeste Asiático.

Inteligência artificial, criptomoedas, comunicações criptografadas e tecnologias de deepfake tornaram essas operações mais baratas e difíceis de detectar.

"Os golpes cibernéticos no Sudeste Asiático evoluíram para além de uma questão convencional de cibercrime e devem ser vistos como uma ameaça à segurança econômica", afirma Hai Luong, professor da Escola de Criminologia e Justiça Criminal da Universidade Griffith, na Austrália.

Os governos do Sudeste Asiático já enfrentam pressão dos Estados Unidos, da União Europeia (UE) e da China, à medida que os cartéis digitais da região atraem atenção internacional.

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Impacto mundial

Em outubro de 2025, os Estados Unidos classificaram o Prince Group, um dos maiores conglomerados do Camboja, como organização criminosa transnacional e impuseram sanções a 146 pessoas e empresas ligadas ao grupo.

Autoridades americanas também acusaram Chen Zhi, presidente do Prince Group e nascido na China, de fraude eletrônica e conspiração para lavagem de dinheiro. Posteriormente, o Camboja revogou a cidadania de Chen e o extraditou para o seu país natal.

O império empresarial do Prince Group abrangia os setores imobiliário, financeiro e outros segmentos da economia cambojana. Autoridades americanas alegam que receitas obtidas por meios criminosos eram misturadas a atividades comerciais legítimas por meio de uma rede internacional de empresas.

O governo dos EUA também aplicou sanções contra outras pessoas e empresas do Sudeste Asiático, acusadas de investir em complexos usados para golpes online e em esquemas de lavagem de dinheiro.

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A UE seguiu o mesmo caminho em julho, impondo sanções ao Prince Group e ao Jin Bei Group, no Camboja, além do Exército Democrático Karen Benevolente, em Mianmar, por suposto envolvimento com golpes cibernéticos.

Camboja contra bancos punidos pelos EUA

Em 2024, o Instituto de Paz dos Estados Unidos estimou que a indústria de golpes cibernéticos do Camboja gerava mais de 12,5 bilhões de dólares (R$ 65 bilhões) por ano, valor equivalente a cerca de um terço da economia formal do país.

O colapso de vários conglomerados ligados a fraudes levantou preocupações sobre os efeitos econômicos que poderiam atingir o restante do Camboja. Alguns afirmam que a publicidade negativa associada aos golpes está prejudicando o setor de turismo e afastando investidores estrangeiros.

O primeiro-ministro cambojano, Hun Manet, reconheceu que a economia ilícita dos golpes está prejudicando negócios legítimos. Ele declarou a intenção de sistematicamente reprimir as redes de fraude online, incluindo maior fiscalização do setor financeiro.

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O Banco Nacional do Camboja fechou pelo menos seis instituições financeiras desde o início de 2026. Três bancos comerciais que perderam suas licenças em agosto haviam sido sancionados pelos Estados Unidos por supostas ligações com redes de golpes.

Em 4 de agosto, o governo de Cingapura apresentou uma legislação que ampliaria o compartilhamento de informações entre a polícia e prestadores de serviços, permitiria às autoridades desativar contas suspeitas de facilitar golpes e reforçaria restrições sobre serviços financeiros, de telecomunicações e digitais fornecidos a suspeitos.

Foco na infraestrutura financeira

A maior fraqueza dos países da Asean continua sendo sua fragmentação, diz Sophal Ear, professor associado da Thunderbird School of Global Management, da Universidade Estadual do Arizona, nos EUA.

Segundo o especialista, a infraestrutura financeira usada para movimentar e ocultar recursos provenientes do crime muitas vezes se mostra mais resiliente do que os mecanismos de aplicação da lei destinados a desmontá-la. "As organizações criminosas operam sem dificuldades através das fronteiras, enquanto os governos continuam respondendo por meio de órgãos separados, com mandatos diferentes e coordenação limitada".

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Mas os governos da região parecem estar reagindo, a julgar pelo novo Plano de Ação da Asean para o Combate ao Crime Transnacional no período de 2026 a 2035, que prevê melhorias no compartilhamento de inteligência entre agências nacionais de segurança e unidades de inteligência financeira, investigações conjuntas, melhor coordenação transfronteiriça e fortalecimento da capacidade dos órgãos responsáveis pelo combate à lavagem de dinheiro.

"O objetivo comum deve ser identificar e desmantelar as lideranças das organizações criminosas, suas redes financeiras e a infraestrutura que lhes dá suporte, e não apenas prender mulas financeiras ou realizar operações contra centros isolados de golpes no Camboja e em Mianmar", afirma Asha Hemrajani, da Universidade Tecnológica de Nanyang, em Cingapura.

Isso incluiria uma fiscalização mais rigorosa de estruturas corporativas consideradas de alto risco e da origem dos recursos financeiros, além de uma postura mais dura contra a lavagem de dinheiro. A Asean também criou recentemente um grupo de trabalho conjunto para combater este crime.

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