Saída da Argentina da OMS expõe as implicações de uma abordagem meramente econômica da saúde

Com abordagens apenas econômicas, políticas de saúde tendem a ser formuladas isoladamente, com menor acesso a redes internacionais e à troca de informações sobre doenças, o que dificulta respostas rápidas em pandemias

7 mai 2026 - 12h15

A saída da Argentina da Organização Mundial da Saúde, anunciada em março de 2026 por Javier Milei, reacendeu o debate sobre a autonomia sanitária.

À primeira vista, a ideia parece simples: um país é autônomo quando toma suas próprias decisões em saúde. Na prática, porém, isso é mais complexo. O debate não trata apenas de capacidade técnica ou institucional. Envolve também como os problemas de saúde são definidos e discutidos no espaço público.

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Como explica Deborah Stone, referência na análise da formulação de políticas públicas, a definição dos problemas não é neutra. Eles não existem de forma objetiva nem única. São construídos por atores que escolhem o que enfatizar e como interpretar a realidade. Por isso, a forma de apresentar um problema influencia quais soluções parecem possíveis.

Essa lógica pode ser observada no caso argentino. A decisão do governo de Javier Milei seguiu a dos Estados Unidos, que deixaram a Organização Mundial da Saúde em janeiro de 2026, e foi apresentada como uma crítica aos organismos internacionais, vistos como custosos e com resultados limitados.

Nesse sentido, o governo argentino sustenta que, embora os organismos sanitários internacionais sejam financiados pelos Estados, a atuação da OMS pode interferir na autonomia sanitária dos países.

Essa interferência afetaria a tomada de decisões e nem sempre atenderia às suas necessidades. O governo também criticou as quarentenas prolongadas durante a pandemia de COVID-19, que considerou excessivas e associadas a impactos econômicos relevantes.

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Mais do que o conteúdo dessas afirmações, chama a atenção a forma como o problema é apresentado. A saúde pública deixa de ser vista como uma questão técnico-científica e passa a ser tratada sob uma lógica econômica. Diante disso, surge uma pergunta central: o que acontece quando um problema de saúde pública é interpretado em termos de política econômica?

Esse tipo de abordagem não é novo. A literatura sobre saúde global mostra que, em crises, a distribuição de recursos tende a reproduzir desigualdades. Na pandemia de H1N1 em 2009, por exemplo, a distribuição de vacinas favoreceu países de alta renda. Regiões da América Latina, África e Ásia receberam doses mais tarde e em menor quantidade.

Esse padrão reapareceu durante a pandemia de COVID-19, quando muitos países de renda média e baixa permaneceram dependentes de fornecedores externos e sujeitos a atrasos ou entregas insuficientes, evidenciando limites estruturais de um sistema global de saúde altamente interdependente.

Nesse contexto, a noção de autonomia sanitária ganhou centralidade no debate público argentino. Durante o governo de Alberto Fernández, essa ideia foi associada ao fortalecimento de capacidades nacionais e à produção local de vacinas.

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O enfoque incluiu o desenvolvimento de laboratórios como mAbxience, que participou da produção do princípio ativo da vacina AstraZeneca. Também envolveu Laboratorios Richmond, responsável pela produção local da vacina Sputnik V e por acordos ligados à vacina Convidecia.

No entanto, essa estratégia também revelou um limite importante: a redução da dependência externa esbarrava em restrições produtivas concretas. Construir capacidades em setores complexos exige investimento, tempo e integração a cadeias globais já estabelecidas. Na prática, isso limitava a autonomia sanitária.

O que muda quando a saúde vira um problema econômico?

Quando a saúde é definida em termos econômicos, as consequências não se limitam às soluções adotadas. Elas também afetam quais problemas ganham visibilidade. Nesse contexto, custos, eficiência e capacidade produtiva passam ao centro do debate. Como resultado, outras dimensões, como cooperação internacional e coordenação técnica, podem perder espaço.

Esse deslocamento muda a forma de avaliar decisões políticas. As políticas de saúde deixam de ser julgadas apenas por resultados sanitários e passam a ser avaliadas também por impactos econômicos.

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Desse modo, a busca por autonomia pode ter efeitos ambíguos. Ela reforça a capacidade de decisão nacional, mas também pode afastar o país de espaços de coordenação global, onde se definem regras comuns e se organizam respostas a crises sanitárias.

Como resultado, as políticas de saúde tendem a ser formuladas de forma mais isolada, com menor acesso a redes internacionais e à troca de informações sobre doenças, o que, em situações de emergência, como pandemias, pode dificultar respostas rápidas e coordenadas.

Nesse cenário, a dependência não desaparece, mas se transforma. Quando a saúde passa a ser vista como um problema econômico, as soluções tendem a seguir essa lógica. Isso reconfigura prioridades, a alocação de recursos e o papel do Estado e da cooperação internacional.

No fim, o debate não é sobre autonomia pura, mas sobre gerir interdependências. Ignorá-las é tão arriscado quanto depender demais. O desafio é equilibrar a lógica econômica com a dimensão técnico-científica da saúde.

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O desafio, portanto, é reconhecer que a autonomia sanitária não elimina a interdependência. Ela deve ser pensada dentro desse contexto. Isso vale tanto para formuladores de políticas públicas quanto para quem participa do debate público.

The Conversation
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Foto: The Conversation

Maria Alejandra Costa recebe financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.

Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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