Atraídos por falsas promessas de emprego e oportunidades no exterior, habitantes de países africanos acabam indo parar na guerra na Ucrânia . Famílias de mortos sofrem por não conseguirem repatriar corpos.Caroline Mukiza enxuga as lágrimas com um lenço. A ugandense de 42 anos ajoelha-se em um banco de igreja nos arredores de Kampala, capital de Uganda. Ela está de luto. Há poucos dias, soube pelas redes sociais que seu marido havia sido morto na linha de frente da guerra na Ucrânia.
Edson Kamwesigye havia trabalhado anteriormente como segurança no Iraque e no Afeganistão, conta Mukiza enquanto caminha pelo jardim da igreja após a oração. Em dezembro, ele embarcou em um voo para Moscou, na Rússia, para o que achou que seria outro emprego como segurança.
Por muito tempo, ela não teve notícias dele. Até que, em 15 de janeiro deste ano, recebeu a seguinte mensagem: "Pessoal, preciso das suas orações. Fomos forçados a assinar contratos com o Exército."
Após um breve treinamento, o homem de 46 anos seria enviado à linha de frente, relata Mukiza, as lágrimas voltando a escorrer pelo seu rosto.
Aos soluços, ela diz ter sido procurada por conhecidos pouco tempo depois, no fim daquele mesmo mês. Queriam confirmar se as fotos circulando na internet eram mesmo do corpo de seu marido morto. Ela não teve coragem de olhar as imagens.
"Pedi que não me enviassem", diz, olhando para o cemitério abaixo da igreja.
Africanos recrutados em 36 países
Mukiza não está sozinha em sua dor. Em países como Uganda, Quênia, Camarões, Nigéria e África do Sul, há relatos de homens à procura de emprego sendo recrutados na Rússia e depois enviados pelo Exército russo para a guerra na Ucrânia.
Mais de 1,7 mil cidadãos de 36 países africanos estariam lutando nas fileiras do exército russo, afirmou nesta semana o ministro ucraniano do Exterior, Andrii Sybiha.
Meses antes, em novembro, ele alertara os governos africanos sobre mortes em massa na frente de combate. "Assinar um contrato equivale a assinar uma sentença de morte", disse, acrescentando que a maioria não sobreviveria mais de um mês.
Segundo Sybiha, a Rússia costuma usá-los em "ataques de carne", enviando-os para a morte certa no campo de batalha apenas para descobrir as posições defensivas das forças ucranianas. " O comando russo entende que não haverá responsabilização pela morte de um estrangeiro, por isso eles são tratados como material humano de segunda categoria, descartável."
Nesta quinta-feira (27/02), em visita a Kiev, o ministro do Exterior de Gana anunciou que mais de 50 de seus cidadãos teriam perecido nas linhas de frente russas após serem "atraídos" para o conflito mediante "esquemas ilegais de recrutamento na dark web, que operam fora de nossa jurisdição".
Enganados por falsas promessas de emprego
Não é segredo que a Rússia tenta atrair jovens africanos para a guerra na Ucrânia. Ainda em maio de 2024, o serviço secreto militar ucraniano alertou que Moscou estaria enviando africanos ao front em troca de um salário mensal de 2,2 mil dólares (R$ 11,3 mil, pelo câmbio atual).
Mas pouco se sabia até agora sobre a dimensão do fenômeno, os métodos de recrutamento e os destinos desses homens.
Foi só com a repercussão na imprensa africana da declaração de Sybiha no ano passado que várias famílias começaram a buscar por parentes desaparecidos que tinham viajado para a Rússia, e vídeos e fotos de africanos em combate começaram a circular nas redes sociais.
Um desses vídeos, que viralizou, mostra cerca de uma dúzia de combatentes africanos sentados na neve na linha de frente, cantando uma música dos tempos da guerra civil de Uganda nos anos 1980.
Outro vídeo, divulgado pelo Exército ucraniano no início de janeiro, mostra o ugandense Richard Akantorana dizendo que acreditava que iria trabalhar em um supermercado - até chegar a Moscou e ouvir que entraria no Exército russo.
"Quando nos recusamos, puseram uma arma na minha cabeça e me forçaram a assinar uns papéis", afirma Akantorana no vídeo.
O homem relata ter sido estacionado em Donetsk e se entregado às forças ucranianas já na primeira missão. "Meu povo africano querido", diz ele ao final, "não caiam nessa armadilha".
Para 316 africanos, o apelo de Akantorana chegou tarde demais. Seus nomes estão numa lista de corpos recuperados por militares ucranianos e divulgada pelo Inpact, grupo de pesquisa e investigação com foco na Rússia. Destes, quase cem mercenários eram de Camarões, e apenas dois de Uganda - o marido de Mukiza não está na lista.
"Para de se cag**"
Alguns dos vídeos que circulam na internet sugerem que muitos desses mercenários africanos estão sendo enviados para a morte certa.
Um deles, cuja autenticidade não pode ser verificada, mostra um africano em um bunker com uma grande mina amarrada ao corpo. "Para de se cag**", diz alguém a ele em russo. "Vai, anda. Você vai fazer a abertura hoje", insiste, depois que o homem é posto sob a mira de uma arma.
Segundo o Inpact, a maioria dos africanos é explorada pela Rússia como "bucha de canhão".
Uganda investiga recrutamento ilegal
O governo de Uganda agora investiga o recrutamento de cidadãos para lutar na guerra pela Rússia. Em agosto, nove homens foram impedidos de embarcar para Moscou. Eles confirmaram ter sido recrutados como supostos seguranças.
Dois dias depois, um russo foi preso na capital Kampala. Ele afirmou trabalhar para uma empresa de recrutamento chamada Magnit, que não tem registro formal no país.
Há muitas empresas internacionais de recrutamento atuando em Uganda. A maioria busca mão de obra barata para empregos em Dubai, Arábia Saudita ou Catar. Jovens mulheres são contratadas como empregadas domésticas para xeiques ricos, enquanto homens são recrutados principalmente como motoristas ou seguranças. Com esses países, o governo de Uganda firmou acordos.
Com a Rússia, o governo ugandense não negociou nenhum acordo, explica Joshua Kyalimpa, porta‑voz do Ministério do Trabalho de Uganda. "Há casos de ugandenses envolvidos nesse conflito [guerra na Ucrânia]. Mas, em geral, eles são recrutados online pelo TikTok e plataformas semelhantes", afirma. "Consideramos que é nosso dever, como ministério, alertar os ugandenses para não se deixarem recrutar como supostos trabalhadores migrantes para as zonas de conflito da Rússia ou da Ucrânia."
Mukiza conta que enviou uma carta pedindo ajuda à embaixada russa em Kampala para recuperar o corpo do marido a fim de enterrá-lo "segundo nossos costumes e tradições familiares", mas nunca recebeu resposta.
Do governo de Uganda, ela também não espera ajuda. O ministro do Exterior, Okello Oryem, já declarou à imprensa local que o país "não tem condições de repatriar corpos de pessoas que morrem no exterior".
"Estou desesperada", diz Mukiza. Ela ainda não contou aos dois filhos sobre a morte do pai. Eles sabem, afirma ela, que quem morre precisa ser enterrado. "Eles vão me perguntar onde ele está", soluça, voltando a enxugar as lágrimas.