Palestinos vão às urnas em Gaza pela 1ª vez em 20 anos

25 abr 2026 - 11h50

Eleição municipal em Gaza e na Cisjordânia ocupada é a primeira desde o início da guerra entre Israel e Hamas, em teste de popularidade para a Autoridade Palestina.Palestinos na Cisjordânia e no centro de Gaza votaram neste sábado (25/04) em eleições municipais, as primeiras desde o início da guerra entre Israel e o grupo palestino Hamas.

Gaza, sob controle do Hamas desde 2007, registra sua primeira votação desde as eleições legislativas de 2006, vencidas pelo movimento islamista.

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Cerca de 1,5 milhão de pessoas estão registradas para votar na Cisjordânia, e outras 70 mil pessoas na região de Deir el-Balah, em Gaza, segundo a Comissão Central de Eleições, com sede em Ramallah.

Em disputa estão cadeiras nos conselhos municipais, que supervisionam água, saneamento e infraestrutura local, mas não aprovam leis.

Ainda assim, com eleições presidenciais ou legislativas congeladas desde 2006, os conselhos se tornaram um dos últimos mecanismos democráticos remanescentes sob a Autoridade Palestina (AP), que governa as partes da Cisjordânia que não estão sob controle israelense.

No comando da AP está a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), entidade representada em fóruns internacionais pelo presidente Mahmoud Abbas, do movimento secular-nacionalista Fatah. O Fatah é um grupo rival do Hamas, e foi expulso de Gaza em 2007.

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Pleito boicotado

A participação foi baixa nas primeiras horas, em meio a um campo político limitado e desânimo com as lideranças políticas.

Até as 13h do horário local (7h de Brasília), 25,3% do eleitorado haviam comparecido às urnas na Cisjordânia, e apenas 13,8% em Gaza, informou a comissão eleitoral. A votação termina às 19h na Cisjordânia, e às 18h em Deir el-Balah.

A participação pode refletir o nível de confiança pública em um sistema mais amplo, liderado por dirigentes envelhecidos na Cisjordânia, enquanto Gaza se prepara para uma transição esperada do governo do Hamas - condição imposta por Estados Unidos e Israel para o avanço de um plano de paz e consequente recuperação do território devastado pela guerra.

Segundo a agência de notícias AFP, algumas seções em partes da Cisjordânia estavam praticamente vazias, mesmo com diplomatas estrangeiros circulando para observar o processo.

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A maioria das listas eleitorais está alinhada ao Fatah, do presidente Mahmoud Abbas, ou é formada por independentes, alguns deles respaldados por facções menores, como a Frente Popular para a Libertação da Palestina, de orientação marxista-leninista.

Em muitas cidades da Cisjordânia, incluindo Nablus e Ramallah, esta última sede da Autoridade Palestina, há apenas uma lista de candidatos, o que significa que eles serão eleitos sem precisar de um voto sequer.

A AFP citou relatos de que alguns candidatos teriam sido impedidos de participar do pleito. Outros grupos teriam boicotado a votação em reação a uma exigência de reconhecimento do programa da OLP, que preconiza o reconhecimento do Estado de Israel e a renúncia à luta armada.

A OLP, porém, tem sido acusada de corrupção à frente do governo da Cisjordânia e de não ter mais legitimidade para representar os palestinos.

O Hamas, que é rival histórico do Fatah, não participa oficialmente do pleito, mas segundo analistas e moradores estaria concorrendo com candidatos alinhados. O grupo é considerado uma organização terrorista por Israel, Estados Unidos, União Europeia e diversos outros países. Ainda assim, segundo uma pesquisa do Centro Palestino de Pesquisa em Políticas e Opinião Pública, eles ainda são a força eleitoral mais popular tanto em Gaza quanto na Cisjordânia.

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Que a AP só esteja organizando eleições em Gaza na cidade de Deir el-Balah é algo que o cientista político Jamal al-Fadi, da Universidade Al-Azhar, no Cairo, vê como um teste de popularidade, "já que não há pesquisas de opinião pós-guerra", disse ele à AFP.

Deir el-Balah foi escolhida por ser uma das poucas áreas onde a população não foi deslocada em massa, explicou.

O chefe da comissão eleitoral, Rami Hamdallah, acusou Israel de barrar a entrada de materiais em Gaza para a realização da votação, como cédulas eleitorais, urnas e tinta. O Cogat, órgão militar israelense que supervisiona assuntos humanitários em Gaza, não respondeu às acusações.

A Autoridade Palestina viu seu poder minguar após anos sem negociações de paz e com Israel apertando seu controle sobre a Cisjordânia ocupada. Mas a entidade vê as eleições locais como uma forma de baixo risco de demonstrar avanços nas reformas, analisa Aref Jaffal, diretor do al-Marsad Arab World Democracy and Electoral Monitor.

"A AP quer mostrar que está no caminho certo em reformas políticas, financeiras e administrativas, e está usando as eleições locais como um símbolo disso", disse Jaffal à agência de notícias Reuters.

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Em Gaza, o palestino Mohammed al-Hasayna, de 24 anos, afirmou à AFP depois de votar que, embora as eleições sejam em grande parte simbólicas, elas representam um sinal da "vontade de viver" das pessoas.

"Somos um povo instruído, com forte determinação, e merecemos ter nosso próprio Estado", disse. "Queremos que o mundo nos ajude a superar a catástrofe da guerra. Chega de guerras — é hora de trabalhar para reconstruir Gaza."

O Hamas, que ainda controla as áreas de Gaza não ocupadas por militares israelenses, afirmou que respeitaria os resultados. Fontes palestinas declararam à Reuters da votação que policiais civis do Hamas fariam a segurança das seções eleitorais no território.

ONU considera eleições "críveis"

Ramiz Alakbarov, coordenador das Nações Unidas, elogiou a comissão por organizar um "processo crível".

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"As eleições de sábado representam uma oportunidade importante para que os palestinos exerçam seus direitos democráticos em um período excepcionalmente desafiador", afirmou Alakbarov em comunicado antes do pleito.

Já Fareed Taamallah, porta-voz da Comissão Eleitoral, afirmou que "a ideia principal [da votação] é ligar politicamente a Cisjordânia e Gaza como um único sistema".

Os palestinos veem a unificação dos dois territórios sob um único governo como um elemento vital em qualquer tentativa de alcançar um futuro Estado.

Embora o governo de Israel seja contrário à ideia, governos europeus e árabes apoiam amplamente um eventual retorno da Autoridade Palestina ao governo de Gaza, junto com um Estado palestino independente.

ra (Reuters, AFP, AP)

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