Dirigentes de 22 países da União Europeia (UE) pediram uma "videoconferência de urgência" neste sábado, 1, com os ministros europeus do Interior para responder à crise migratória em Ceuta, após a fronteira do exclave espanhol no norte da África colapsar com a chegada súbita de dezenas de milhares de imigrantes vindos do Marrocos.
Em carta aberta aos dirigentes do bloco, os países cobram uma "resposta coordenada", com "rápida mobilização dos instrumentos disponíveis da UE e o apoio necessário à Espanha para restabelecer o controle efetivo da fronteira externa da União e evitar novas travessias descontroladas".
A iniciativa, capitaneada por Itália, Alemanha e Dinamarca, cita especificamente o reforço do apoio da guarda de fronteira Frontex e uma avaliação da cooperação da UE com o Marrocos.
Também neste sábado, a Espanha anunciou que a maioria das pessoas que cruzaram a fronteira - a nado ou a pé - já retornou voluntariamente ao Marrocos.
Autoridades locais estimam que um total de 60 mil imigrantes tenham entrado no território espanhol de apenas 18,5 quilômetros quadrados e cerca de 85 mil habitantes entre a quinta e a sexta-feira.
A "corrida" à fronteira deixou ao menos 67 mortos, entre afogados e pisoteados, segundo o balanço mais recente do Ministério do Interior espanhol.
Premiê espanhol critica "egoísmo" de membros da UE
As cenas de caos em Ceuta aumentaram tensões políticas dentro da União Europeia. O governo espanhol convocou a embaixadora da Itália após integrantes da coalizão liderada por Giorgia Meloni defenderem a suspensão da Espanha do espaço Schengen, apesar de Ceuta não fazer parte da área de livre circulação.
A medida entrou em vigor neste sábado, válida para cidadãos de fora da UE que viajem à Itália a partir da Espanha. A medida foi lida por críticos como um gesto mais simbólico do que efetivo. Não havia indicação de que os migrantes tivessem intenção de seguir viagem à Itália, que não faz fronteira com a Espanha.
Além da Itália, diversos outros países sugeriram a suspensão da Espanha do espaço Schengen.
Também em carta aos dirigentes da UE, o premiê espanhol Pedro Sánchez lamentou que o episódio tenha servido para alimentar "preconceitos, notícias falsas, ignorância ou interesses políticos", numa referência à reação de partidos conservadores e de ultradireita, que considerou "egoísta, polarizante e ilegal".
Sánchez, contudo, apoiou a realização de uma reunião de crise por videoconferência.
A França apertou os controles na fronteira com a Espanha e disse que vai quintuplicar o efetivo policial ainda neste sábado.
"Profunda preocupação"
Após expressarem "profunda preocupação com os recentes acontecimentos na fronteira externa da União Europeia em Ceuta", os 22 países que assinam a carta afirmam estar determinados a "impedir que traficantes de pessoas coloquem em risco a integridade das fronteiras externas da União".
O grupo atribui o episódio a uma recente decisão da Justiça espanhola que barrou a expulsão imediata de migrantes interceptados no mar, que teria incentivado o "abuso" do sistema europeu de migração e asilo. E também culpou a política migratória mais permissiva de Sánchez, que lidera um governo de esquerda.
"Temos o dever de dissuadir de forma eficaz e combater sem tréguas a migração irregular, coordenando nossas ações, reforçando nossas fronteiras externas e abordando todas as políticas que possam atuar como fatores de atração, como a regularização de um grande número de migrantes irregulares", afirma a carta.
Contudo, outros fatores não citados na carta à UE, incluindo tensões diplomáticas com o Marrocos, podem ter contribuído para a crise. O país árabe não reconhece oficialmente como territórios espanhóis Ceuta e Melilla, ambas no continente africano, e frequentemente se refere às duas cidades como áreas ocupadas, embora elas estejam há séculos sob domínio da Espanha.
Voltando à carta, os europeus destacam que o bloco não pode permitir "travessias massivas descontroladas", a instrumentalização da migração ou outras ameaças híbridas que criem a percepção de que a entrada ilegal na UE é possível e pode resultar em permanência legal.
"Os acontecimentos dos últimos dias exigem uma resposta europeia imediata e coordenada. Saudamos a estreita cooperação entre Espanha e Marrocos para garantir o rápido retorno dos migrantes que entraram ilegalmente e o fato de que um grande número deles já tenha regressado. Confiamos que, com o apoio da União Europeia, a situação atual será plenamente controlada", acrescentam.
Itália, Dinamarca e os demais signatários afirmam estar dispostos a "adotar todas as medidas necessárias, em conformidade com o Direito da União Europeia e o Código de Fronteiras Schengen, para salvaguardar a ordem pública e enfrentar os riscos decorrentes dos movimentos secundários, inclusive por meio do reforço ou da reintrodução temporária de controles nas fronteiras internas".
Além de Itália, Dinamarca e Alemanha, assinam a carta aberta à UE Áustria, Bélgica, Bulgária, Chipre, Croácia, República Tcheca, Estônia, Finlândia, Grécia, Hungria, Lituânia, Letônia, Malta, Países Baixos, Polônia, Romênia, Eslovênia, Eslováquia e Suécia.
ra (AFP, EFE)
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