Transmissão entre humanos é rara. Com 147 retidos a bordo, navio já teve sete casos confirmados ou suspeitos, e três passageiros morreram.A Organização Mundial da Saúde (OMS) suspeita que tenham ocorrido transmissões entre humanos do hantavírus a bordo de um cruzeiro de luxo no Atlântico. É raro o contágio entre humanos, sendo mais comum a contaminação de pessoas pelo contato com roedores infectados ou com sua urina, fezes ou saliva.
Com 147 pessoas a bordo, o navio já teve sete casos de hantavirose, com dois já confirmados em laboratório. Entre esses sete casos estão os dos três passageiros falecidos. A agência de saúde da Organização das Nações Unidas (ONU) reiterou que o risco para o público em geral é baixo.
Um casal holandês e um cidadão alemão morreram, enquanto um britânico foi retirado da embarcação. Ele está internado em estado grave na África do Sul, segundo autoridades. Outras três pessoas com casos suspeitos ainda estão a bordo do MV Hondius, de bandeira holandesa.
O navio atingido pelo surto fatal está à deriva ao largo de Cabo Verde, país insular no Atlântico, na costa da África Ocidental, que não autorizou o desembarque de passageiros.
Cepa Andes
Uma disseminação limitada entre pessoas com contato próximo já foi observada em surtos anteriores envolvendo a cepa Andes. Ela circula na América do Sul, inclusive na Argentina, de onde partiu o navio em março.
A OMS acredita que esta cepa possa estar envolvida no caso. Testes estão em andamento.
Infecção teria precedido a viagem
A OMS suspeita que a cadeia de infecção tenha se originado com o casal holandês já falecido, que pode ter contraído o vírus em terra na Argentina antes de embarcar no navio.
Van Kerkhove destacou que muitos passageiros do cruzeiro de expedição participaram de atividades de observação da vida selvagem e similares.
As transmissões subsequentes podem ter ocorrido a bordo entre indivíduos, por exemplo, nas cabines, afirmou Maria Van Kerkhove, diretora de preparação e prevenção de epidemias e pandemias da OMS. "Pode estar ocorrendo alguma transmissão de pessoa para pessoa entre contatos muito próximos, como marido e mulher, pessoas que compartilharam cabines", disse.
Ela não descartou a possibilidade de que as infecções também possam ter se originado de roedores em ilhas africanas visitadas durante o cruzeiro.
Segundo a operadora do navio, não havia ratos a bordo, declarou a especialista da OMS.
Próximo destino é incerto
Van Kerkhove afirmou que o foco agora é retirar os dois passageiros doentes que ainda estão a bordo e, em seguida, permitir que o navio siga para as Ilhas Canárias. O terceiro caso suspeito a bordo relatou apenas febre leve e temporária.
"Recebemos mensagens de muitas pessoas no navio", disse ela. "Queremos que saibam que estamos trabalhando com os operadores do navio e com os países de origem de vocês. Nós ouvimos vocês, sabemos que estão assustados."
O Ministério da Saúde da Espanha afirmou, no entanto, que ainda não tomou decisão sobre receber a embarcação, o que dependerá dos dados coletados a bordo.
Epidemiologistas da Organização Mundial da Saúde realizarão nesta terça-feira uma revisão para conhecer o estado das 147 pessoas que estão a bordo do cruzeiro holandês afetado por um surto de hantavírus e decidir sobre sua repatriação e qual rota o navio tomará, segundo o governo da Espanha.
Enquanto isso, a diretora nacional de Saúde de Cabo Verde, Angela Gomes, disse a uma rádio nacional que estavam sendo elaborados planos para retirar os dois doentes do navio e, possivelmente, outras pessoas.
Passageiros e tripulação estão retidos no Hondius, que transporta principalmente britânicos, americanos e espanhóis em um cruzeiro de luxo. Depois de partir de Ushuaia, no sul argentino, a viagem passou pela Península Antártica, pela Geórgia do Sul e por Tristan da Cunha, algumas das ilhas mais remotas do planeta.
O cruzeiro foi comercializado como uma expedição de natureza à Antártida, com preços por cabine entre 14 mil e 22 mil euros (R$81 e R$127 mil).
Primeira morte em 11 de abril
O primeiro passageiro afetado, o homem do casal holandês, morreu em 11 de abril. Seu corpo permaneceu a bordo até 24 de abril, quando "foi desembarcado em Santa Helena, com a esposa acompanhando o traslado para repatriação", informou a operadora do navio, Oceanwide Expeditions.
A esposa, que apresentava sintomas gastrointestinais quando foi desembarcada, piorou durante um voo para Joanesburgo. Ela morreu ao dar entrada no pronto-socorro em 26 de abril, informou a OMS, acrescentando que o rastreamento de contatos dos passageiros desse voo estava em andamento.
Autoridades sul-africanas reportaram que o paciente britânico, tratado em um hospital de Joanesburgo, testou positivo para hantavírus. A Holanda também confirmou o vírus na mulher holandesa que morreu.
O Instituto Nacional de Doenças Transmissíveis da África do Sul está trabalhando no sequenciamento do vírus, com resultados possivelmente disponíveis até quarta-feira, disse Van Kerkhove. O Instituto Pasteur, no Senegal, está apoiando os esforços para testar e confirmar os casos suspeitos.
América do Sul é foco da doença
A OMS estima que haja entre 10 mil e 100 mil casos de hantavírus por ano. A Argentina continua a registrar o maior número de casos na região das Américas, afirmou a OMS em dezembro, com uma taxa de letalidade em torno de 32%, superior à média e à de outras cepas do vírus.
Dados do Ministério da Saúde apontam que, no Brasil, houve 31 casos confirmados no ano passado, em comparação a 44 em 2024 e 115 em 2015. De 2015 a 2025, foram 948 casos confirmados.
A região Sul é o epicentro de infecções diagnosticadas, registrando 17 casos em 2025. A mortalidade média é de 46,5% no país.
ht/as (Reuters, DPA, Efe, ots)