O que Winston Churchill faria se fosse chamado a tomar partido na guerra com o Irã?

Donald Trump disse que Keir Starmer não é "nenhum Churchill", mas sua rejeição se baseia em uma versão simplificada da história

5 mar 2026 - 10h48

Quando Donald Trump criticou Keir Starmer por não ter apoiado suficientemente as operações americanas e israelenses contra o Irã, ele o fez com um floreio histórico. "Não é com Winston Churchill que estamos lidando", reclamou.

A implicação foi clara: Churchill teria ficado lado a lado com Washington em um confronto com Teerã. A observação convida a uma pergunta óbvia: o que Churchill teria achado da guerra com o Irã?

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A resposta não é tão direta quanto a comparação de Trump sugere. O registro de Churchill mostra uma mistura de retórica hawkish, cautela estratégica e uma preocupação constante em manter a unidade anglo-americana. Longe de incorporar um simples instinto de confronto, ele tendia a ver a guerra e a diplomacia como profundamente interligadas.

O famoso discurso de 1946 de Churchill em Fulton, Missouri, é um exemplo disso. Durante esse discurso, ele alertou que uma "cortina de ferro" havia se abatido sobre a Europa. Mas o discurso - formalmente intitulado The Sinews of Peace - não foi simplesmente um chamado às armas contra a expansão soviética. Churchill enfatizou simultaneamente a necessidade de entendimento entre os adversários e a importância de fortalecer as Nações Unidas. Sua mensagem central era que a paz poderia ser melhor preservada se as potências ocidentais demonstrassem unidade e força suficientes para impedir a agressão.

O Irã já estava presente na crise geopolítica que envolveu esse discurso. Na época, as tropas soviéticas não haviam se retirado do norte do Irã, apesar dos acordos de guerra. O episódio fez parte das tensões iniciais que se transformariam na Guerra Fria. Portanto, Churchill já via o Irã sob a ótica da rivalidade entre as grandes potências.

Essa perspectiva tinha raízes profundas. Durante a Segunda Guerra Mundial, Churchill viajou para Teerã em 1943 para se encontrar com Franklin D. Roosevelt e Joseph Stalin na primeira conferência dos "três grandes" aliados. A reunião foi realizada na capital do Irã porque o país havia se tornado um corredor logístico crucial pelo qual os suprimentos aliados fluíam para a União Soviética.

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Para Churchill, a conferência foi uma experiência preocupante. Roosevelt cultivava cada vez mais a boa vontade de Stalin, às vezes às custas da Grã-Bretanha. Mais tarde, Churchill refletiu com tristeza que havia se sentado "entre o grande urso russo (…) e o grande búfalo americano", enquanto a Grã-Bretanha se assemelhava ao "pobre burrinho britânico". A observação capturou sua crescente consciência de que a Grã-Bretanha não era mais uma das potências dominantes do mundo.

Roosevelt, Stalin e Churchill sentados juntos.
Roosevelt, Stalin e Churchill sentados juntos.
Foto: The Conversation
Roosevelt, Stalin e Churchill em Teerã.Library of Congress

Essa constatação reforçou um elemento central da estratégia de Churchill para o pós-guerra: o cultivo de uma parceria anglo-americana duradoura. Seu apelo em Fulton por um "relacionamento especial" entre a Comunidade Britânica e os Estados Unidos não foi um mero gesto retórico. Foi uma tentativa de ancorar a segurança futura da Grã-Bretanha na ordem emergente liderada pelos Estados Unidos.

A ironia de uma referência a Churchill

Mas o pensamento de Churchill sobre o Irã não parou na diplomacia da Guerra Fria. Em 1953, durante seu segundo governo, a Grã-Bretanha e os EUA apoiaram uma operação secreta que derrubou o primeiro-ministro iraniano Mohammad Mosaddegh e restaurou a autoridade do Xá Mohammad Reza Pahlavi. O golpe foi organizado em grande parte pela CIA, sob a direção de Kermit Roosevelt Jr., mas Churchill apoiou o plano com entusiasmo. Mais tarde, quando Roosevelt descreveu a operação para ele em Downing Street, o primeiro-ministro idoso declarou que teria servido com prazer sob seu comando em tal empreendimento.

Esse episódio sugere que Churchill certamente poderia favorecer uma ação enérgica quando acreditava que os interesses ocidentais estavam ameaçados. No entanto, ele também destaca uma ironia histórica. A derrubada de Mosaddegh tornou-se uma das principais queixas invocadas pelos líderes revolucionários do Irã após a revolução iraniana. Desde 1979, a República Islâmica tem invocado repetidamente a intervenção estrangeira, principalmente o golpe anglo-americano, para legitimar seu governo e se apresentar como defensora da soberania iraniana contra a dominação externa.

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Em outras palavras, o legado da interferência ocidental no Irã tornou-se uma das armas políticas mais poderosas do regime.

Churchill estava bem ciente de que guerras e intervenções poderiam produzir consequências não intencionais. Refletindo sobre suas experiências como jovem oficial durante a Guerra dos Bôeres, ele escreveu mais tarde que, uma vez dado o sinal para o conflito, os estadistas perdiam o controle dos acontecimentos. A guerra se tornou sujeita a "fortuna maligna, surpresas feias, erros de cálculo terríveis". Esse não era o sentimento de um pacifista. Mas era a observação de alguém que tinha visto a rapidez com que as decisões políticas poderiam desencadear forças que nenhum governo poderia controlar totalmente.

O que Winston faria?

Como esses instintos podem se traduzir na crise atual? É quase certo que Churchill teria visto o regime do Irã com profunda desconfiança. Sua mentalidade de guerra fria o inclinava a ver a política internacional em termos de confronto ideológico e equilíbrio estratégico. Ele poderia muito bem ter argumentado que a fraqueza diante de regimes agressivos convidava a novos desafios.

Ao mesmo tempo, Churchill raramente acreditava que a ação militar por si só pudesse resolver disputas geopolíticas. Sua abordagem preferida era combinar firmeza com diplomacia, negociar com base na força e, ao mesmo tempo, manter canais de comunicação com os adversários.

Mesmo no auge da Guerra Fria, ele esperava que uma posição de força ocidental pudesse eventualmente persuadir a liderança soviética a fazer uma barganha.

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'No Winston Churchill'.

Acima de tudo, Churchill acreditava que a influência da Grã-Bretanha dependia da manutenção de um estreito alinhamento com os EUA. Mas esse alinhamento, em sua opinião, deveria moldar o poder americano em vez de simplesmente ecoá-lo. O "relacionamento especial" deveria ser uma parceria, não um cheque em branco.

A invocação de Churchill por Trump, portanto, baseia-se em uma imagem simplificada do líder do tempo de guerra como um defensor instintivo da ação militar. O registro histórico revela uma figura mais complicada: um estrategista que acreditava na força, certamente, mas também na diplomacia, nas alianças e no gerenciamento cuidadoso das rivalidades entre as grandes potências.

Se Churchill estivesse vivo hoje, ele poderia de fato estar pedindo aos governos ocidentais que demonstrassem determinação. Mas ele provavelmente também reconheceria que o sistema político do Irã foi forjado na memória de intervenções estrangeiras passadas - e que qualquer novo conflito correria o risco de reforçar as mesmas forças que ele busca enfraquecer.

Churchill observou certa vez que a guerra, uma vez desencadeada, raramente segue os caminhos ordenados imaginados por aqueles que a iniciam. Essa advertência pode ser tão relevante quanto qualquer uma de suas frases mais famosas.

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The Conversation
Foto: The Conversation

Richard Toye não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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