O que Jesus e seus apóstolos teriam comido na Última Ceia? Veja o que diz a Ciência, para além da Bíblia

Além do pão e do vinho mencionados explicitamente pelos Evangelhos, outros alimentos poderiam ter feito parte da refeição mais famosa da fé cristã

3 abr 2026 - 10h15
Representações artísticas da Última Ceia (como o famoso afresco de Leonardo da Vinci, na imagem) provavelmente não refletem com fidelidade como teria sido a refeição narrada nos Evangelhos, com muitos outros alimentos além dos canônicos pão e vinho. Wikimedia Commons
Representações artísticas da Última Ceia (como o famoso afresco de Leonardo da Vinci, na imagem) provavelmente não refletem com fidelidade como teria sido a refeição narrada nos Evangelhos, com muitos outros alimentos além dos canônicos pão e vinho. Wikimedia Commons
Foto: The Conversation

Os quatro Evangelhos e a primeira carta de São Paulo aos Coríntios coincidem ao narrar uma última refeição de Jesus com seus discípulos antes de ser crucificado, celebrada nos dias da Páscoa e com detalhes muito semelhantes. Isso é algo incomum em outros episódios de sua vida, onde os relatos dos Evangelhos divergem mais em detalhes e ênfase.

Mas a Última Ceia não é só a descrição de refeição mais famosa da fé cristã. É também uma das mais mal imaginadas.

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Durante séculos a vimos através de um filtro renascentista: uma mesa comprida, treze homens em fila e uma cena solene que pouco tem a ver com a Judéia do século I. A realidade deve ter sido outra, tanto na forma como se sentaram quanto no cardápio.

Perguntar-se o que Jesus e seus discípulos comeram não é um detalhe menor: permite voltar aos Evangelhos, à Páscoa judaica e à arqueologia para entender como uma refeição real, em um contexto histórico concreto, se tornou um símbolo central do cristianismo.

Um jantar entre a Páscoa e a controvérsia

A única certeza é também o que mais se sabe: na Última Ceia teria havido pão e vinho. São os únicos alimentos mencionados explicitamente pelos Evangelhos, e sobre eles recai o gesto decisivo de Jesus: partir o pão, oferecer o cálice e dar-lhes um novo significado. Daí nasce a eucaristia cristã.

Mas assim que se tenta ir além do pão e do vinho, surge a grande discussão: foi um autêntico jantar de Páscoa? Os Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas dizem que sim. Marcos, especificamente, situa-o no "primeiro dia dos Ázimos", ou seja, no contexto da Páscoa judaica.

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O Evangelho de João, por outro lado, sugere que a ceia ocorreu na noite anterior, de modo que Jesus morreu antes do início formal da refeição pascal. Essa discordância tem sido um dos grandes debates da exegese bíblica moderna.

O pesquisador Joel Marcus, da Universidade de Boston, propõe uma solução intermediária que se mostra especialmente útil. Em sua análise, ele sustenta que a refeição histórica provavelmente ocorreu na noite anterior à Páscoa, como sugere João, mas que isso não impede reconhecer que ela foi fortemente marcada por elementos do seder e da haggadah judaicos, ou seja, por uma refeição ritual na qual certos alimentos eram explicados e associados à memória do êxodo.

Em outras palavras: talvez não tenha sido um jantar pascal no sentido estrito, mas sim um jantar moldado pela lógica da Páscoa.

Esse detalhe muda muito a interpretação. Marcus explica que os alimentos rituais eram objeto de explicação. O pão, portanto, não era apenas pão: era um alimento capaz de condensar memória, libertação e pertencimento. E o mesmo ocorria, embora com uma história litúrgica mais complexa, com o vinho.

O que teria na mesa: do pão ázimo ao cordeiro

Se aceitarmos que a Última Ceia estava ligada à Páscoa, mesmo que de forma flexível, as possibilidades do cardápio se ampliam. O primeiro candidato é o pão sem fermento, ou matzá, que simbolizava a partida apressada dos israelitas do Egito, sem tempo para que a massa crescesse.

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O cordeiro assado também surge imediatamente como possibilidade, já que a Páscoa judaica do período do Segundo Templo estava ligada ao sacrifício do cordeiro em Jerusalém e ao seu consumo assado em casa. A isso se somariam as ervas amargas, outro elemento clássico da memória pascal.

A pesquisa arqueológica e a história da alimentação acrescentam mais nuances. Em 2016, dois arqueólogos italianos publicaram um estudo sobre o que poderia ter sido consumido na Última Ceia, que incluía um cardápio reconstruído, a partir de versículos bíblicos, textos judaicos, literatura romana antiga e dados arqueológicos, durante o século I. A mesa que os pesquisadores propuseram para aquela noite inclui pão ázimo, cordeiro, ensopado de lentilhas ou legumes, azeitonas com hissopo (uma erva com sabor de menta), tâmaras, frutas secas, algum molho de peixe semelhante ao garum romano e vinho aromatizado ou diluído.

Não se trata de um cardápio comprovado prato por prato, mas sim de uma hipótese historicamente razoável, respaldada pela arqueologia e pela etnografia, uma vez que os achados realizados em sítios como Qumrán, Masada e o Bairro Herodiano de Jerusalém apontam para a presença de trigo, lentilhas, azeite, frutas secas e ervas nas dietas judaicas da época.

Na época de Jesus, a base alimentar era o pão, as azeitonas, o azeite, os legumes, as frutas secas e, em alguns contextos, o peixe. A carne existia, mas era consumida sobretudo em circunstâncias festivas ou cerimoniais. Por isso, o cordeiro é plausível em um jantar solene, mas não em uma refeição comum.

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Uma refeição lenta, ritualizada e acompanhada de conversas

A forma de comer também não se assemelharia à imagem popular. Os comensais provavelmente não estavam sentados eretos em cadeiras altas, mas reclinados sobre almofadas ou divãs baixos, ao estilo mediterrâneo. Essa postura era uma característica marcante das refeições formais no mundo greco-romano e helenístico da época.

A Última Ceia, assim imaginada, parece menos uma pintura congelada e mais uma refeição demorada, ritualizada e acompanhada de conversas. Os participantes compartilhavam tigelas e pratos enquanto se recostavam em almofadas, participando de um cerimonial profundamente enraizado na antiga tradição judaica.

A ingestão energética na época de Jesus

Há uma dimensão menos óbvia, mas muito reveladora, em toda essa questão: a nutrição. Sabemos mais ou menos quais alimentos podiam circular em uma mesa judaica do século I, mas sabemos muito menos sobre quanta energia a dieta daquela época realmente fornecia. Um estudo realizado em 2018 aplicou modelos matemáticos para estimar a ingestão energética provável na época da Última Ceia.

Seu ponto de partida é muito simples: os registros antigos de alimentos são úteis, mas incompletos. Os autores compararam descrições históricas da dieta com estimativas de altura de recrutas romanos, expectativa de vida, peso corporal provável e níveis de atividade física semelhantes aos de sociedades agrárias modernas. O resultado foi surpreendente: enquanto certos registros da Mishná (lei oral judaica) permitiam calcular apenas cerca de 1.176 quilocalorias diárias, os modelos fisiológicos elevam a ingestão provável para uma faixa entre 2.319 e 3.973 quilocalorias por dia. Enquanto isso, hoje as necessidades energéticas de adultos modernos são calculadas em cerca de 2.266 kcal/dia para mulheres e 2.850 kcal/dia para homens, com variações por sexo, idade e atividade física,

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A conclusão não determina o cardápio exato, mas obriga a corrigir uma intuição comum: a de imaginar as refeições antigas como mesas quase vazias, puramente simbólicas.

A Última Ceia foi um jantar sagrado, sim, mas também um jantar humano. E talvez continue fascinando justamente por isso: porque nela se cruzam a fé, a história e algo tão humano quanto sentar-se à mesa.

The Conversation
Foto: The Conversation

José Miguel Soriano del Castillo não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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