O mito racista do ariano propagado pelo nazismo

4 mai 2026 - 13h11

Loiro, de olhos azuis, porte atlético: era assim que os nazistas consideravam o "ariano" ideal. Mesmo hoje, termo é associado à ideologia de Hitler, mas suas raízes são completamente distintas.Adolf Hitler não tinha cabelos loiros nem era particularmente alto, assim como muitos outros alemães. A imagem ideal do "ariano" de origem nórdica propagada pelo nazismo era mais exceção do que regra.

Cartaz de propaganda nazista com figuras com traços nórdicos
Cartaz de propaganda nazista com figuras com traços nórdicos
Foto: DW / Deutsche Welle

O que importava era a origem: a partir de 1935, todos os "cidadãos do Reich" tinham de comprovar, por meio de um "atestado de arianidade", retrocedendo pelo menos três gerações, que não corria em suas veias sangue judeu nem "cigano".

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Funcionários públicos, médicos ou advogados já tiveram de apresentar essa comprovação dois anos antes. Muitas vezes isso exigia uma pesquisa demorada até as pessoas poderem submeter o resultado para verificação ao Escritório do Reich para Pesquisa Genealógica.

Os nazistas declararam o povo alemão a "raça superior de senhores". Os judeus eram, para eles, uma raça "inferior" e foram inicialmente sistematicamente excluídos e depois assassinados.

Filmes de propaganda afirmavam que os judeus queriam destruir a ordem mundial e tirar a posição de domínio e liderança da "raça de senhores". Em caricaturas, especialmente no jornal nazista Der Stürmer, eles eram retratados de forma grotesca, com grandes narizes aduncos e expressões faciais gananciosas.

Mas havia também povos aos quais os nazistas atribuíam características "arianas", como os escandinavos e outros do norte da Europa. Quando encontravam crianças loiras e de olhos azuis na Letônia, na Polônia ou em outro país ocupado, não tinham escrúpulos em arrancá-las das mães e "germanizá-las" nos chamados lares Lebensborn no Reich ou nos territórios ocupados. Depois elas eram entregues para a adoção por famílias alemãs leais ao partido.

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Os lares Lebensborn foi uma ideia do comandante da SS, Heinrich Himmler, que queria promover a multiplicação de uma população considerada "racialmente valiosa".

A palavra ariano também foi a base da "arianização", como foi chamada a confiscação e transferência de negócios judeus e de propriedades judaicas para não judeus.

A verdadeira origem dos arianos

Embora o termo ariano fosse amplamente usado, os pesquisadores raciais do regime nazista pouco usavam essa denominação e falavam, em vez disso, de "sangue alemão ou aparentado". Eles sabiam que a palavra originalmente se referia a semelhanças linguísticas e não a características físicas hereditárias.

Achados arqueológicos mostram que o termo ariano existe há mais de dois milênios. O governante persa Dario 1º mandou esculpir, cerca de 500 anos antes de Cristo, um túmulo rupestre na necrópole de Naqsh-e Rostam, no Irã. A inscrição diz "eu sou Dario, o grande rei… um persa, filho de um persa, um ariano, de ascendência ariana". O termo também aparece em textos sagrados da Índia, escrito em sânscrito.

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Originalmente, arya - que significa algo como "nobre" ou "honrado" - era uma autodenominação de povos da Índia e do Irã. Eles descendiam de nômades que haviam migrado das regiões da atual Ucrânia, do Cazaquistão e do sul da Rússia.

Mais tarde, cientistas definiram como arianos os pertencentes a uma mesma família linguística indo-europeia, ao reconhecerem as semelhanças entre a maioria das línguas europeias e o sânscrito e o persa.

Reinterpretação racista

Foi apenas em meados do século 19 que o termo ariano passou a ser interpretado equivocadamente de maneira racista. O escritor e diplomata francês Joseph Arthur de Gobineau dividiu a humanidade, em sua obra em quatro volumes Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas (escrita entre 1853 e 1855), em uma raça branca, uma amarela e uma negra.

Sua conclusão: a raça branca ariana original seria superior às outras, destacar-se-ia por sua "inteligência imensamente superior" e seria predestinada a dominar as demais. Ao mesmo tempo ele alertava contra a miscigenação, pois isso colocaria em risco a qualidade da raça ariana original e, portanto, da humanidade como um todo.

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A teoria de Gobineau encontrou grande aceitação entre seus contemporâneos. Muitos cientistas e estudiosos a utilizaram como base para escrever seus próprios tratados sobre o tema. Um deles foi o autor inglês Houston Stewart Chamberlain (mais tarde genro do compositor alemão Richard Wagner). Em 1899, o britânico publicou o livro Os fundamentos do século 19, no qual elevou as suposições raciais de Gobineau a um novo nível.

Chamberlain glorificava a raça alemã "germânica". Como ele tinha plena consciência de que nem todos os alemães correspondiam ao ideal físico ariano de Gobineau, recorreu a valores que, segundo ele, eram determinados pelo sangue: honestidade, lealdade e diligência seriam características comuns dos alemães.

A "raça judaica", à qual atribuía falta de criatividade e idealismo, além de uma orientação puramente materialista, era vista por ele como uma ameaça aos "arianos germânicos". Embora Chamberlain reconhecesse em alguns judeus certa nobreza de caráter, destacava sua "incapacidade e inferioridade" diante da "raça ariana".

A obra de Chamberlain foi bem recebida pelos alemães; entre seus admiradores estava também o imperador Guilherme 2º, que o convidou repetidas vezes para visitar a corte.

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Chamberlain e Hitler, irmãos de espírito

Em 1917, Chamberlain ingressou no Partido da Pátria Alemã, de extrema direita, com orientação nacionalista e antissemita. Em 30 de setembro de 1923, Hitler foi visitá-lo e aparentemente deixou uma forte impressão. Poucos dias após o encontro, Chamberlain escreveu ao futuro ditador: "Que a Alemanha, na hora da necessidade, dê à luz um Hitler, isso prova que ela está viva".

Hitler, por sua vez, considerava Chamberlain um dos "evangelistas" de sua visão de mundo; em seu livro Minha luta, ele se refere repetidamente a Chamberlain e, como ele, exalta a superioridade da "raça ariana".

Uma classificação biológica das pessoas em raças não tem fundamentação científica - já está comprovado há muito tempo que, do ponto de vista biológico e científico, não existem raças humanas. O termo é uma construção social. Os nazistas abusaram do conceito de ariano para justificar sua ideologia desumana, e racistas em todo o mundo ainda o utilizam nos dias de hoje.

A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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