Crianças-soldados do Sudão viralizam em vídeos do TikTok

4 mai 2026 - 13h10

Em uma tendência perturbadora, combatentes infantis do país africano viram "influencers" com vídeos que vêm sendo vistos por milhões de seguidores. Redes têm reagido lentamente para retirar vídeos.Um menino de cerca de doze anos corre por ruas de terra carregando um fuzil AK-47. "Alá é grande", grita ele, em árabe. Ao fundo, vários corpos estão estirados no chão. Ouvem-se tiros.

Cerca de 42 mil crianças estão registradas nos campos de refugiados no Sudão, diz a Unicef
Cerca de 42 mil crianças estão registradas nos campos de refugiados no Sudão, diz a Unicef
Foto: DW / Deutsche Welle

A cena está no TikTok. E não é ficção. O vídeo, publicado no início de dezembro, surgiu pouco depois de os rebeldes da milícia Força de Reação Rápida (RSF) terem tomado a cidade de Babanusa, no Sudão. Aparentemente, também com a participação de crianças-soldado.

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A rede de investigação Bellingcat comprovou que alguns dos vídeos foram gravados diretamente em Babanusa.

Vídeos com crianças-soldados no Sudão estão viralizando nas redes sociais, principalmente no TikTok. A maioria foi filmada pelas próprias crianças com câmeras de celular e já foi vista milhões de vezes, diz Sebastian Vandermeersch, repórter da Bellingcat.

Ele se deparou por acaso com os vídeos quando fazia uma pesquisa sobre crimes de guerra no Sudão. "Consegui encontrar no TikTok toda uma rede de contas que compartilhavam conteúdo sobre crianças-soldados", diz. "Crianças-soldados como influenciadores são um fenômeno totalmente novo", acrescenta.

Vandermeersch questionou o TikTok sobre os vídeos. A plataforma, no entanto, reagiu de forma muito lenta. "Após 48 horas, as contas ainda estavam disponíveis", afirma ele. Somente após a publicação de seu artigo é que todas as contas denunciadas foram desativadas. No entanto, segundo o jornalista, pouco tempo depois ele já teve que denunciar novas contas.

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Crianças são as mais afetadas pela guerra no Sudão

A guerra no Sudão, que começou há três anos, é uma das maiores catástrofes humanitárias do mundo. Quase 14 milhões de pessoas foram deslocadas, e mais de quatro milhões buscam refúgio nos países vizinhos. Cerca de 34 milhões de pessoas dependem de ajuda humanitária, segundo as Nações Unidas, o que corresponde a 65% da população do país.

As crianças são as mais afetadas, salienta Kamal Eldin Bashir, da organização de ajuda à infância Save the Children no Sudão. "Elas sofrem com o deslocamento, a separação de suas famílias, a falta da educação e, acima de tudo, de assistência médica - além da desnutrição, que afeta um número muito grande de crianças", afirma Bashir.

Os mais vulneráveis são as inúmeras crianças desacompanhadas que se encontram nos campos de refugiados sem os pais. Segundo dados da Unicef, há cerca de 42 mil crianças registradas nesses locais. A maioria teria perdido os pais durante a fuga ou nos bombardeios, afirma Bashir. "Elas correm o risco de serem recrutadas para a guerra", ressalta ele.

Segundo Mohamed Othman, chefe da equipe de investigação da ONU para o Sudão, é sobretudo a milícia RSF que recruta um grande número de crianças-soldados. "Elas são utilizadas em diversas funções, por exemplo, em bloqueios de estradas, mas também para espionagem", relata ele.

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No entanto, o uso de crianças menores de 15 anos é considerado crime de guerra de acordo com o Estatuto de Roma, no qual se baseia a jurisdição do Tribunal Penal Internacional de Haia, ressalta Othman.

"Filhotes de leão" com traumas severos

Essas crianças são chamadas de "lion cubs" (filhotes de leão, em tradução livre) no ambiente online. O termo já era utilizado nas guerras anteriores no Sudão, mas também nos países vizinhos. No passado, milhares de crianças também foram mobilizadas nos fronts no Sudão do Sul e em Uganda.

São situações que geram traumas para o resto da vida dessas crianças, alerta Bashir, da Save the Children. "Segundo as estatísticas, até 50% das crianças no Sudão sofrem de transtorno de estresse pós-traumático", diz ele.

Os traumas se manifestam por meio de diversos sintomas, como pesadelos e queda no desempenho escolar. "Porém, para tratar todas essas crianças, simplesmente não dispomos de unidades de saúde treinadas para combater esse problema", afirma Bashir. As consequências serão de longo prazo.

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Consequências graves para o futuro

Se essas crianças não forem tratadas, isso acabará tendo consequências muito negativas para toda a sociedade, ressalta Victor Ochen. O ugandense é diretor da organização AYNET, especializada no tratamento de ex-crianças-soldados. Trata-se de uma das poucas instituições desse tipo no continente. Recentemente, Ochen treinou psicólogos do Sudão. O fato de as crianças-soldados estarem agora sendo transformadas em verdadeiros heróis de guerra preocupa Ochen. "Eles podem ser usados indevidamente como instrumentos de propaganda pelas partes em conflito", diz ele.

Ochen cresceu em Uganda durante a guerra civil, quando o irmão dele foi recrutado à força pelos rebeldes ugandenses do Exército de Resistência do Senhor (LRA). Ele sabe, por experiência própria que, na maioria das vezes, as experiências de guerra marcam as gerações futuras. Em um estudo encomendado pela União Africana, a AYNET constatou que toda a região - incluindo o Sudão - passa por ciclos regulares de guerras civis brutais. Segundo ele, essa é a razão para os conflitos nunca cessarem. "Muitos vivem a guerra quando crianças, veem seus pais serem mortos. E assim que ficam 10 a 15 anos mais velhos e se tornam adultos, estão prontos para revidar", diz Ochen. Assim, o trauma se perpetua ao longo de gerações.

A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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